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“Nota de Intenções de João Botelho Diante
das janelas da minha casa, há três palmeiras magníficas, de troncos
grossos, sólidas e velhas de cem anos. Insuportavelmente indiferentes à
confusão da rua, aos pequenos dramas no interior das casas em volta, à
felicidade dos amores de ocasião, erguem-se alinhadas, inumanas, divinas.
Quando a luz da manhã cresce e os seus contornos ficam nitidamente traçados
pelo esplendor do sol, se olharmos para elas sem receio podemos encontrar
a calma, ou até sentir qualquer coisa parecida com a felicidade. Mas, se
a nossa curiosidade é insaciável, quando o vento forte retalha as nuvens
e lhes faz vergar os ramos e ranger os troncos, podemos ficar
atormentados, próximos do estado do terror, ou perto de encontrar a
verdadeira questão do destino. Nos seus movimentos descontrolados a maior
parte das pessoas já nem sequer repara nas três palmeiras, mas elas estão
lá, velhas de cem anos como o cinema, diante dos meus olhos, todos os
dias. Como era possível deixar de filmá-las? ” * *
* 1. Admirável oportunidade nos deu a Mostra de Cinema
e Arquitetura para conhecer um trabalho pouco visto de João Botelho, Três
Palmeiras, exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes 1994. O filme
foi um projeto com recursos do Governo Português sobre uma série de
obras sobre Lisboa. Botelho escolheu um dia comum das seis da manhã às
duas da tarde quando se desenrola um conjunto de historietas sobre a vida
e a morte. 2. O que se poderia esperar de um filme de um
engenheiro que ganha a vida como publicitário? Tudo, menos o que é Três
Palmeiras. O que se poderia esperar desse engenheiro que largou tudo pelo
cinema após as sessões na Cinemateca, e que adora cinema clássico?
Tudo, menos o que é Três Palmeiras, claramente influenciado mais pela
literatura do que pelo cinema. 3. Mas o que é então Três Palmeiras? Um filme
fabulatório, uma crônica de costumes, um filme sobre o prazer de narrar.
Uma grávida de quarenta anos espera a qualquer momento o nascimento de
seu filho. Seu marido, mais jovem, tenta distraí-la. Em meio ao casal,
surge uma série de pequenas histórias, que talvez estejam acontecendo
enquanto o casal conversa, ou que talvez estejam sendo contadas pelo próprio
marido à esposa. A partir dessa indefinição, Botelho desenvolve, com
absoluta elegância, um filme sobre o narrar, cuja riqueza está
exatamente em ignorar a necessidade de articular todas as histórias num
todo coerente. Com isso, supera a desgastada fórmula dos Short Cuts e dos
Amores Perros da vida e dos pretensos filmes-painel. 4. Mas o que une as diversas histórias apresentadas?
É a cidade de Lisboa. Botelho, até em decorrência do projeto que deu
recursos ao filme, realiza um olhar absolutamente íntimo sobre a cidade
de Lisboa, que se apresenta ao espectador sem maquiagens, através seu
dia-a-dia e de sua vida comum. 5. As diversas histórias ilustram um tanto das paixões
de Botelho no cinema e no ato de narrar. O narrar está no pequeno ato
individual, na fragmentação, no delírio que é viver a paixão da vida
comum. O cinema clássico está na tentativa de romance (o casal bêbado,
o casal que fala inglês e tenta se reconciliar); o apreço pela
intertextualidade está no foco em diferentes representações artísticas
(a aula de dança, a visita ao museu, a ópera burlesca, a atriz de cinema
mudo decadente); o retrato pseudo-documental pode ser visto na busca pelo
emprego e na reconstrução do centro antigo da cidade. 6. As três palmeiras acompanham imóveis as modificações
sofridas por Lisboa. Entre a imobilidade e o rigor do estilo clássico e a
paixão e a velocidade dos novos tempos, onde pode se situar Lisboa?, onde
pode se situar o cinema? 7. Três Palmeiras começa com uma jovem desesperada
que comete suicídio; termina com uma grávida de quarenta anos que dá à
luz a um filho. Vida e morte; amanhecer e tarde na capital portuguesa.
Cristóvão Bresson (14/07/2003) |
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