TERRA DAS PAIXÕES |
| Stephen Frears despontou como cineasta na Inglaterra com filmes cuja temática se calcava em críticas sociais. Foi assim em Minha Adorável Lavanderia, e na trilogia de Barrytown, A Grande Família, A Van, e The Commitments. Mas em Terra de Paixões, Frears faz um filme para a indústria de Hollywood. O resultado é decepcionante. Terra de Paixões não acrescenta uma vírgula sequer aos inúmeros clichês dos faroestes americanos. Dois grandes amigos se perdem por causa de uma mulher vulgar, que trai o marido. O triângulo amoroso se estabelece. Em meio às surras, às lições de moral americanas, e à camaradagem indestrutível entre os dois amigos, apenas Woody Harrelson se salva. A cena em que Harrelson ganha uma alta aposta no jogo do pôquer é um dos raros momentos que o filme gera alguma tensão, entre a espectativa e a troca de olhares. Harrelson encanta por sua versatilidade. Mas o filme novamente se perde, e por vezes se torna um sub-Lendas da Paixão, que por sua vez é um pastiche de uma série de outros filmes cuja fórmula já foi repetida à exaustão. A belíssima fotografia não esconde a superficialidade do filme. Mesmo em seus momentos de comédia, Maverick já fez muito melhor. Patricia Arquette está mal como Mona, a ex-prostituta, que encanta os dois cowboys com estilos diferentes. O inssosso Billy Crudup é o tímido e reflexivo Pete, enquanto Harrelson é o extrovertido, espontâneo e despreocupado Big Boy. Pete ama Mona, embora tente ser convencido pela dedicada e quase mística Josepha (Penelope Cruz) que ele procurar mesmo o papai-e-mamãe que combina com ele. Mas desiste depois que flagra os dois juntos, logo após a consulta da cartomante. O único fato de interesse na temática de Terra de Paixões é que o filme apresenta claramente um conflito entre tradição e modernidade. A dupla de cowboys principal (que é tão unida que se torna próxima de uma relação homossexual) representa os últimos cowboys. A grande propriedade e a mecanização dominam o velho oeste. Harrelson, neste sentido, é o último romântico. Sua morte representa o fim de uma geração, a geração dos westerns americanos. Quando seu parceiro, mimado e reflexivo, sai da cidade no final do filme, vendendo suas terras, ele se rende às forças do progresso. Da mesma forma que Frears. Sua tentativa de fazer um faroeste é tão apática e minguada que podemos dizer com certeza que o verdadeiro faroeste acabou. Marcelo Ikeda. NOTA: 4 |