A METAFÍSICA POSITIVA DE MALICK EM "ALÉM DA LINHA VERMELHA": A GUERRA COMO SÍMBOLO DA CONDIÇÃO HUMANA


 

Depois de quase vinte anos sem filmar, lá vai Terrence Malick com seu novo projeto debaixo do braço, um tal de "Além da linha vermelha". Malick fez seu último filme -- Cinzas do Paraíso -- em 1978, e depois disso, ninguém mais ouviu falar sobre ele. Malick sempre foi avesso à imprensa e se recusava a dar entrevistas. Muitos até chegaram a duvidar da sua existência. Malick é ainda mais recluso que Stanley Kubrick, que ficou dez anos parado até filmar o misterioso Eyes wide shut. Malick esperou quase o dobro do tempo. Dizem que Malick só assume um projeto quando acha que tem realmente algo a dizer. Mas por que diabos esse cara resolveu voltar a filmar agora, depois de vinte anos, e logo um filme sobre a distante Segunda Guerra Mundial, sobre uma batalha na longínqua Oceania, na ilhota de Guadalcanal, que teve início há 57 anos ?

Ora, é que Malick não quis fazer meramente um filme sobre a batalha de Guadalcanal, ou mesmo sobre a Segunda Guerra Mundial. Seu filme tem uma abrangência bem mais geral, e poderia ter sido situado em qualquer ponto da história da humanidade. Malick promove um pequeno acerto de contas com o passado, mas com o único objetivo de extrair conclusões para o presente, e especialmente para o futuro. O isolamento da ilhota de Guadalcanal, onde não existe nenhum contato com a civilização, e a estética em ritmo lento que permeia as quase três horas de duração de Além da linha vermelha, reforçam a postura contemplativa do filme. Malick não quer falar sobre a Guerra, mas sobre o Homem. A guerra é uma metáfora da vida. A vida é uma guerra, onde os verdadeiros inimigos não são os japoneses, mas o principal inimigo de um homem é ele mesmo. O homem é como um soldado, que luta contra seus próprios limites em busca não apenas da sobrevivência, mas de uma identidade própria, em busca de um sentido para sua existência, mesmo que os motivos que o tenham levado para a guerra lhe pareçam obscuros. Mas a luta é árdua. Entre as rajadas de balas, os amigos feridos e as ordens dos superiores, a guerra parece ser um grande caos, onde nada faz realmente sentido, e cuja única saída parece ser a morte.

Neste aspecto, Além da linha vermelha se aproxima bastante de Apocalipse now, o mais cultuado filme americano sobre a gratuidade da guerra. Mas enquanto Coppola descreve o absurdo da condição humana através de um mundo caótico e desprovido de sentido, Malick procura extrair uma lição positiva desse absurdo. Na guerra de Coppola, os limites entre a loucura e racionalidade se tornam extremamente frágeis, e a vida de um homem se torna menos que um mero átomo na grandiosidade anárquica do espetáculo bélico. A arbitrariedade da guerra define quem serão os pobres sobreviventes, amaldiçoados a prosseguir torturados, lutando contra seu destino último que lhes parece inevitável. A guerra, segundo Coppola, reflete a condição humana pela sua arbitrariedade e sua ausência de sentido. Mas os soldados que lutam não têm meios para refletir sobre sua existência. Eles se tornam subumanos, animais enlouquecidos que lutam apenas por sua sobrevivência. O estilo cruel e de certa forma sarcástico de Coppola reforça ainda mais a amoralidade de Apocalipse now. Decerto que o início do filme, que mostra as alucinações de Martin Sheen, se aproxima do clima de reflexão existencial do filme de Malick. Mas essa reflexão apenas evidencia seu desequilíbrio, mesmo fora do ambiente de guerra. E quando finalmente o soldado volta ao seu meio, Coppola se sente em seu próprio quintal: a insensatez, o desequilíbrio e a loucura espelham uma degradação moral que atinge seu limite extremo, furioso, anárquico...

Mas enquanto a metafísica de Coppola é negativa, Malick é positivo. Isto é, enquanto Coppola mostra o homem destruído, lutando em vão, já que mesmo sua própria sobrevivência é uma espécie de derrota, pois ele apenas prolonga sua tortura, Malick consegue enxergar um significado em meio ao aperente absurdo da guerra. Em contraste com o ritmo frenético e caótico de Apocalipse now, Além da linha vermelha é um filme lento e contemplativo. Os soldados de Malick refletem sobre suas questões existenciais, e esbarram em seus próprios limites pessoais. Por isso, o filme de Malick, que também é professor de filosofia, pode ser visto como uma tentativa de resgatar o espiritual num mundo contemporâneo dominado pelas aparências, ou mesmo no cinema atual, que abandona a busca por uma verdade, seja pelo dinheiro dos grandes estúdios, seja pelo niilismo da violência pós-moderna dos filmes independentes.

A verdade é que os filmes de Coppola e Malick foram realizados em épocas distintas, que revelam o espírito da sociedade americana de suas épocas. Coppola filmou Apocalipse now no final dos anos 70, sendo parte de uma geração de cineastas (entre eles, Scorsese e Altman) que apontava para uma desestruturação do sonho americano do país perfeito -- inspirado em um "american way of life" -- a partir de seus problemas estruturais, como o aumento da violência, os conflitos das minorias étnico-raciais, a corrupção e o escândalo político do Watergate e a morte de JFK, a crise econômica com o choque do petróleo, e a derrota na Guerra do Vietnã. Mas com a fragmentação da União Soviética e o fim da ameaça socialista, os Estados Unidos se afirmaram como a grande potência econômica do mundo, recuperando-se politica e economicamente. Hoje, no final dos anos 90, passada a tormenta de transformações da sociedade americana, é necessário agora um discurso construtivo. E de preferência (para eles), que a harmonia coroe a soberania norte-americana.

Mas no meio do caminho em busca de sua própria identidade, os soldados de Malick se vêem atingidos por suas próprias contradições. A partir desses conflitos, Malick torna ambíguos os limites entre as vitórias e as derrotas. O tenente-coronel Tall (Nick Nolte) se aproxima da anarquia sanguinária que caracteriza Apocalipse Now, e prefere um ataque frontal à colina, que seria mais curto, embora mais sanguinário e com mais riscos de derrota. A guerra lhe parece ser a única oportunidade de se redimir da vida anterior de humilhações e submissão. Em Guadalcanal, é ele quem dá as cartas. Finalmente. A vitória de seu exército parece nos dar a impressão de que ele é realmente um vencedor. Mas até que ponto, já que a vitória foi obtida a partir da decisão do capitão Staros (Elias Koteas), que resolveu desacatar as ordens de seu superior, optando pelo ataque pelos flancos? Por outro lado, até que ponto o capitão Staros foi o vitorioso, ao mostrar ao tenente-coronel a superioridade da estratégia do ataque pelos flancos, já que o capitão foi destituído do comando de sua companhia, e obrigado a retornar com os feridos (isto é, com os derrotados)? O outro lado da própria vitória em Guadalcanal é a morte e o ferimento de vários dos soldados derrotados. O soldado Witt (Jim Caviezel), com maior consciência sobre sua condição, seria um vitorioso, mas foi incapaz de garantir a sua sobrevivência. As contradições espirituais das personagens são refletidas na própria estética do filme. Longas tomadas, num estilo fluido e lentíssimo, da natureza da ilha e de comunidades primitivas da região, com ênfase na belíssima fotografia de John Tall (que ganhou o prêmio de melhor fotografia em Berlim, além de estar concorrendo ao Oscar) são sobrepostas ao ritmo alucinante das cenas de batalha, num ritmo fragmentado, realista e acelerado, no compasso da respiração ofegante dos soldados, com forte presença da montagem.

O principal trunfo do discurso positivo de Malick é a integração do Homem com a natureza. Esteticamente, a integração é representada pelos "long takes", que inserem ambos num mesmo continuum de espaço e tempo. Os homens e os elementos da natureza compartilham igualmente o espaço natural da ilha. Mesmo entre as cenas de batalha, observam-se o vento que corta a relva borbulhante, as cobras e os urubus que sobrevoam a área à procura de comida. A própria natureza se realimenta através de um ciclo de destruição e construção. Os animais matam suas presas, seguindo seu instinto e seu ciclo natural, realimentando a cadeia alimentar. Assim são os soldados de Malick. Os soldados matam e morrem, e os mais aptos sobrevivem, prosseguindo a batalha interminavelmente. Após a difícil conquista da colina, a guerra é interrompida momentaneamente. Os soldados têm direito a uma semana de folga e a festas. Mas depois a batalha continua. Ou seja, para Malick, a guerra é um estado intrínseco à existência humana, inevitável e que escapa à vontade do Homem. Assim como os demais animais na natureza deslumbrante da ilha, os homens matam e morrem porque a guerra faz parte de sua natureza. Mas a grande diferença entre o Homem e os demais animais da ilha é a sua consciência sobre sua condição. A natureza do Homem, assim como o incita à guerra, também o convida a uma reflexão contemplativa sobre sua essência e suas razões. É a própria natureza do Hoem que o leva a questionar seus limites, a procurar uma solução para as suas contradições, fugindo do aparente absurdo da sua condição de guerra permanente. É exatamente a partir dessa consciência que o Homem é capaz de, respeitando suas condições naturais, encontrar um significado para sua existência.

Um segundo aspecto positivo é a possibilidade de confluência das esferas pessoal e coletiva. A solidariedade no filme de Malick, não é só possível, como tem papel fundamental para aliviar o isolamento e a implacável condição de guerra permanente. O Homem recebe um conforto na luta pela sua existência ao perceber que não está sozinho na frente de batalha, mas encontra a ajuda imprescindível de outros que se encontram na mesma situação, e percebe que as batalhas serão mais rápidas e menos dolorosas com a ajuda recíproca entre os homens. O objetivo do soldado, portanto, coincide com o objetivo de seu pelotão, ou de sua companhia. É claro que, contando com a opção da escolha, o homem preferiria se afastar das batalhas, como mostra a deserção do soldado Witt, mas uma vez na batalha, a solidariedade e o objetivo de grupo dominam os interesses do soldado.

O terceiro aspecto é a possibilidade de uma continuidade na luta pelo espiritual através do aprendizado. O soldado Witt teve admiráveis vitórias na sua caminhada em direção ao espiritual. Entretanto, o sargento Welsh (Sean Penn), inicialmente cínico e revoltado contra sua condição, o menospreza. A morte de Witt, no final do filme, poderia suscitar a conclusão de que inevitavelmente o saldo final de sua vida foi a derrota. Entretanto, a partir do sacrifício de sua morte, o sargento Welsh veio a perceber a importância de seu modo de vida. Sendo o aprendizado possível, as conquistas de Witt não se extinguem com sua morte, mas prosseguem com as lições absorvidas por Welsh. O otimismo (ainda que um pouco ingênuo) de Malick reforça a temática do ciclo natural, através de um processo de sucessivas destruições e criações. O equilíbrio natural entre os dois opostos, refletido no próprio Homem através de suas contradições, é que garante a continuidade dos ciclos e a renovação da natureza humana.

Marcelo Ikeda.

 

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