CINDERELA DA LETÔNIA |
| The Shoe (traduzido bizonhamente para Cinderela da Letônia) deveria ser o modelo de um cinema independente para cineastas iniciantes. Ademais, é uma boa oportunidade para ter um contato, mesmo que mínimo, com o cinema que está sendo produzido nos países formados pela fragmentação da URSS. Este filme (cabe ressaltar que é difícil dizer sobre o cinema da Letônia como um todo) é bastante diferente do que conhecemos do cinema russo. É um filme despretensioso, leve, poético e ingênuo, com elementos narrativos mínimos, quase à moda do cinema iraniano. Um bando de soldados inúteis entra em alerta quando um sapato misteriosamente é encontrado na costa. Pensam ser de um espião, e por isso, percorrem as ruas da cidade calçando o sapato em cada mulher que encontram pelo caminho. A diferença de The Shoe para o cinema iraniano é que ele não procura uma transcendência espiritual simbólica. O filme se desenvolve em tom de comédia, numa farsa aos hábitos inflexíveis e à paranóia militar. De fato, o grupo designado para o caso é nitidamente despreparado e atrapalhado, e a própria missão em si é absurda e despropositada. Quando comunicam seu fracasso ao major superior, vemos o quão distante ele está do grupamento, dentro de sua casa suntuosa, não permitindo ser interrompido em sua privacidade familiar. Voz firme, arrogante, ele manda os soldados de volta à sua missão improvável. The Shoe é um filme barato, simples, em preto e branco, mas com uma estética bastante despojada. O plano inicial do filme é uma boa apresentação da proposta estética e temática do filme. Um plano geral extremo mostra a bela paisagem litorânea, onde o sapato será encontrado. A câmera permance todo o tempo estática e o plano é bastante longo. Quando um tanque do exército invade o plano, vemos, através do som, como os militares destoam da atmosfera lírica e ingênua do local. A harmonia do sol e do mar e um silêncio monumental são quebrados pelo barulho e pela suposta opulência do tanque militar. Essa é a caracterização perfeita do contato e do contraste entre os militares e os costumes do povo da região, que é a essência da temática do filme, pelo menos em termos literais. Na estética, o plano introduz o espectador na atmosfera do filme. A paralisia de um enquadramento que parece durar uma eternidade antecipa a sensação de inércia, rotina e continuidade que dominam a vida dos citadinos e do próprio grupo de militares. O belo preto e branco do filme insere um componente nostálgico, que reforça a harmonia e a relação com a natureza quase numa relação clássica ligada à eternidade. Mas provavelmente o motivo deva ter sido de ordem financeira. De qualquer forma, The Shoe não é um filme clássico (no sentido da pintura, ou seja, classicista), já que o tom de comédia e farsa são nitidamente presentes no filme. Mas ainda assim, a atenção à rotina da cidade local é retratada de forma inocente e poética (como em um Brueghel). Quando os militares percorrem a cidade para cumprir sua missão, o interesse maior do filme deixa de ser a missão em si para se concentrar nos pequenos detalhes da composição da cidade e de seus humildades moradores. Mas a atenção do espectador para The Shoe se concentra rapidamente na estética incomum do filme. Em primeiro lugar, o filme é dominado pelos planos gerais, que integram os personagens (geralmente o grupo de militares) ao background que nos apresenta os costumes da cidade. Em segundo lugar, a sensação de inércia e paralisia descritos acima são reforçados pela continuidade dos planos. Muitas vezes, eles mostram quadros vazios, à moda de Ozu. Mesmo quando os personagens que motivam a ação do plano se retiram dos limites visíveis da tela, a câmera permanece estática, retratando o ambiente que o cercava, que agora está ou vazio, ou ocupado por outras pessoas. Em outras vezes, a própria figura dos militares é distorcida, como quando apenas a sombra dos militares oprime as mulheres para que calcem o sapato, numa referência criativa e irreverente ao expressionismo alemão, e deixando espaço para a interação ativa no background. Em outra cena, a câmera percorre os quartos de um prédio comum. No instante em que os militares entram no quarto, seus ocupantes se encontram estáticos, quase em posição de sentido, de frente para a porta de entrada. Mesmo após a saída do militar, sua presença claudicante pode ser vista porque a câmera permanece a registrar a paralisia dos moradores invadidos. A presença do militar provoca uma paralisia aterrorizante ao ritmo lento e particular da cidade, e insere uma artificialidade perturbadora. Num paralelismo, embora o povo tenha sua privacidade claramente invadida, o major não admite ser interrompido em casa. Mas The Shoe não é composto exclusivamente de planos estáticos. Reforçando a impressão de caminhada sem fim dos militares, o filme apresenta um grande número de panorâmicas, com destaque à cena em que registra o caos da escola local. A câmera registra a vidinha da cidade, ocupando-se de fatos comuníssimos, como um açougue, um banco de praça, uma vendedora de sucos na rua, ou no belíssimo jogo de futebol entre duas crianças. Na sua segunda metade, o filme fica cansativo, porque sua idéia inicial é bastante breve, e o filme não parece ter o fôlego suficiente para ser um longa-metragem. Daí o filme vale pelas suas inventividades estéticas, mas de qualquer forma, o diretor parece ter perdido seu rumo. No final, o círculo se completa, e o filme reforça a idéia de inércia e paralisia, quando no mesmo plano inicial, vemos que um outro sapato é achado na mesma costa do litoral letão. Marcelo Ikeda. NOTA: 7 |