CLASSICISMO COM CÂMERA FLUIDA : O CINEMA DE DAVID LEAN EM "THIS HAPPY BREED"


 

As adaptações literárias de época se utilizam quase sempre de um estilo de representação classicista. Com o termo classicista, quero dizer uma representação realista do espaço, uma estética tradicional, e especialmente harmonia, em cores, formas e imagens. Especialmente quando a adaptação é de uma obra do final do século passado, ou quando a época abordada é esse período. No cinema, uma representação clássica não possui contrastes expressivos de cor no estilo expressionista (esp para filmes em p&b), pois de fato a cor é mais adequada, como em E o vento levou. Lean viria a fazer filmes posteriores, como Desencanto, em p&b, mas, já pelo título, percebe-se que o p&b reflete um mood de desencantamento característico, melhor representado pelo contraste. Mas o contraste, nesse filme, é um contraste clássico, e não um contraste expressionista.

Em This Happy breed (1944), o filme fala de reconstrução, e não de desconstituição (como no caso de desencanto), e por isso a cor é mais adequada. A direção de arte, os figurinos, os cenários da casa da família de classe média baixa londrina, tudo deve ser escolhido com o maior cuidado. A parte pictórica nos filmes "classicistas" ganha uma importância quase tão grande quanto à narrativa. Não é a toa que o maior seguidor de Lean foi James Ivory. O último filme de Lean é Passagem para a Índia, que poderia ser tranquilamente confundido com o estiloso Uma janela para o amor, o primeiro grande sucesso de Ivory.

A recriação classicista, conforme disse, está ligada a uma representação realista. Por isso, sendo um filme de época, a evocação daquele época deve ser acurada. No romance de Coward, no filme THIS HAPPY BREED, a ambientação dos subúrbios ingleses, e os dramas familiares das famílias inglesas de classe média baixa na virada do século recebem como pano de fundo uma descrição dos vestidos, das casas, da época da trama, que na verdade pode ser entendido como o objetivo final do romance. Em suma, Lean é um representante típico de um cinema "classicista", e esse cinema usa como protótipo o estilo de representação utilizado na literatura do século XIX.

Entretanto, esse classicismo é autoral. Existem grandes autores desta literatura. "Classicismo" e tradicionalismo não são sinônimos de um filme sem criatividade, ou pouco original. Mas esse estilo reflete obrigatoriamente uma visão de mundo, esp sobre o cinema, em suas comparações com o teatro e a literatura. O próprio fato de grande parte dos filmes de Lean serem baseados em obras literárias desse período deve ser visto com atenção.

Dito isto, deve-se destacar que esse classicismo também foi utilizado nos filmes norte-americanos. O paradigma do cinema clássico narrativo era que a câmera não podia ser notada, assim como o narrador da literatura do séc XIX. Lean, um cineasta inglês, fez adaptações com criatividade especialmente por adotar um estilo de movimentação de câmera não tipicamente usual do cinema clássico narrativo. Claro, Lean não nega este tipo de cinema, mas seus filmes são autorais porque usam elementos criativos que pertencem a este tipo de cinema. O cinema clássico obviamente tbem tem movimentos de câmera. Bazin elogiava btte o cinema de Wyler (O morro dos ventos uivantes). É desse tipo de cinema que devemos ter em referência qdo se pensa nas adaptações de Lean.

A mobilidade da câmera reforça o classicismo dos filmes por fazê-los parecer mais românticos. Um corte seco seria mais austero. Mobilidade nesses filmes se relaciona mais diretamente com liberdade, exatamente a liberdade que esses personagens procuram para buscar sua própria identidade. O estilo fluido de câmera alia uma elegância formal, como se fosse uma valsa num salão aristocrático, com umas liberdade. A valsa no salão é o exemplo perfeito. Embora preserve o rigor das tradições aristocráticas, numa valsa, através da dança com o parceiro, com os olhares para o resto da festa, pode-se sentir uma certa liberdade, expressa pelos movimentos do corpo. Essa liberdade, entretanto, não é obviamente anárquica, mas existe nos limites das "instituições" (i.e. o próprio estilo classicista). Essa liberdade é tipicamente romântica, num desejo de extravasar seus limites, mas um romantismo conservador, "clássico".

Assim, a mobilidade da câmera é importante, porque, quebrando o clima formal do corte seco e do classicismo em si, permite que nos identifiquemos mais facilmente com o drama das personagens. O romantismo sugere um clima mais intimista, e entendemos que aquela fasmília inglesa poderia ser a nossa própria família. Com menos austeridade, há mais harmonia, continuidade fluida, espontaneidade, o q ajuda a reduzir as dificuldades do dia-a-dia. É claro que a própria concepção do roteiro é fundamental para acentuar essa atmosfera de intimismo, mas o meu argumento é q um estilo mais fluido de câmera (como o de Lean ou de Wyler) permite reduzir a austeridade típica do classicismo e aproxima a nossa própria história com a história daqueles tempos. A posição e esp a distância da câmera aos personagens reforça essa situação. Planos gerais sugerem mais distância; primeiros planos sugerem aproximação, identificação. a mobilidade da câmera tbem deve ser associada com a simultaneidade e a curiosidade do espectador. Um movimento de câmera (justificável, obviamente) reforça a curiosidade do espectador com o alvo final do movimento, e portanto a sua participação no processo fílmico.

Marcelo Ikeda.

 

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