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Era uma vez um diretor que poderia ser um notável dramaturgo, ou um hábil escritor, ou mesmo que poderia fazer grandes e importantes filmes sobre o espírito da nação americana. Era uma vez um cidadão americano que preferiu deixar todos esses possíveis e improváveis sonhos de lado para ser apenas ele mesmo, para fazer sempre o mesmo filme, um após o outro. Era uma vez Wes Anderson. É um absurdo – quase tão grande quanto o título de "excêntricos", criticado inclusive pelo próprio diretor numa entrevista a um jornal carioca – que um filme tão despretensioso quanto Os Excêntricos Tenenbaums receba a cotação máxima da crítica, um bonequinho aplaudindo em pé. Porque é exatamente tudo o que Tenembauns pretende não ser: um filme maior. Tenenbaums é uma comédia que se esquiva do riso e um melodrama que se esquiva das lágrimas. É um drama na acepção original da palavra, em termos de um gênero teatral em que o cômico se confunde com o trágico. Como num típico filme de Anderson, Tenembaums é uma tentativa (ainda que propositadamente desengonçada) de dialogar com uma impossibilidade, de resgatar uma ingenuidade definitivamente perdida, de reviver o espírito inconseqüente e curioso da época infantil. Mas como ainda se pode continuar se o tempo inevitavelmente voa, com a dor física da separação? Como ainda é possível sobreviver ante nossa impotência, ante nossa pequenez? Por isso, a escolha é por uma nostalgia, por um enfoque romântico, ingênuo e saudosista. Os protagonistas de Anderson são sempre homens de meia idade que não querem envelhecer, ou que parecem ingênuos como crianças. A opção pela comédia vem exatamente daí, do desejo pelo frescor, pela inocência e pelo passado. Para Anderson, a única saída da tragédia da vida parece ser o ingresso no mundo da representação. Tudo parece ser como num palco de teatro, ou como no próprio livro em que se desfolham as páginas e os capítulos. É o prazer pela artesania do cinema, o que até o difere de Rushmore: o widescreen, os elegantérrimos carrinhos, a composição de planos, a direção de arte, o zoom como diálogo de um cinema dos anos setenta. Margot, a personagem brilhantemente representada por G. Paltrow, esconde seus "vícios e suas perdições" em torno de uma máscara, numa expressão de melancolia e isolamento. Ela encena suas peças, que "recebem críticas positivas e negativas". Este é o mundo de Wes Anderson! Entre as andanças, as revelações, a saudade e o preciosismo quase desnecessário da câmera, os personagens se cruzam e se desvelam quase como num filme de Douglas Sirk. Às vezes parecem num tableaux, com a consciência de que estão sendo observados. Em outras, são ingênuos e despreocupados como crianças sonolentas. Às vezes, o filme também fala sobre liberdade. É o pássaro que aparece como em Kes, o filme de Ken Loach. É o cachorro que, por estar completamente envolto numa redoma de excessiva segurança e isolamento, num acidente fortuito, fica sem ter para onde fugir e acaba morto. Tenembaums poderia ser muitas coisas, mas Anderson optou pelo caminho mais simples: optou por um retrato pessoal do drama do autor, perto e longe de seus personagens, ante a mediocridade do mundo e especialmente os seus próprios limites. Ao contrário de um Todd Solondz, que, desnorteado com suas impossibilidades, prefere acusar, julgar seus personagens, desferir-lhes golpes mortais, Anderson, antes de eleger culpados, se esforça para conversar com eles, até para deles obter suas próprias respostas. É uma outra opção para a comédia americana, até porque fica claro que o trabalho de Anderson, apesar de ser extremamente ingênuo, não é tão ingênuo assim: é a nação americana que preenche a tela. A opção pela comédia não vem pelo sarcasmo, nem pelo tom absurdo e patéticos dos personagens (os Coen), mas de um resgate a uma ingenuidade. Os filmes de Anderson têm um curioso paradoxo. Ao mesmo tempo que falam sobre o papel do tempo e um amadurecimento, são também libelos de que se deve viver a vida sem grandes compromissos, sem ter que levar tudo ao pé da letra. É certo que Anderson é um conservador, no velho espírito da nação americana, e que ele busca um diálogo mais que uma retaliação. Mas o fato é que existem bons filmes de direita e maus filmes de esquerda. E essa é a grande diferença entre Wes e Solondz. Na verdade, os filmes de Anderson nada mais são do que eles buscam ser: uma fábula sobre a perda da inocência e da importância da tolerância, do amadurecimento, do tempo e do reconhecimento dos nossos limites. E é isso o que os tornam filmes memoráveis no cenário mesquinho e utilitarista do atual cinema americano Marcelo Ikeda (03/01/2002) |