T A N G O |
Tango � um filme que deve ser visto sob duas vertentes. Em primeiro lugar, � um filme sobre a dan�a mais popular da Espanha, integrando, assim um lugar de destaque nos filmes do diretor sobre as dan�as espanholas [ Amor Bruxo, Flamenco, Carmen]. O filme apresenta a paix�o dos espanh�is pela dan�a, e a renova��o dessa paix�o quando crian�as se esfor�am em aprender. Mais que uma dan�a, o tango � uma express�o da tradi��o e de um modo de vida essencialmente espanhol. A primeira metade do filme se concentra em apresentar v�rios n�meros de dan�as e um painel geral do sentimento da dan�a em pessoas bastante diferentes, embalados por uma trilha sonora t�pica e a exuberante fotografia em tons calientes de Vittorio Storaro. Mas nesse ponto o filme tem um ritmo desigual, tornando-se �s vezes repetitivo e cansando o espectador que n�o possui um interesse espec�fico na dan�a espanhola. As virtudes do filme aparecem na segunda faceta do filme. Aos poucos, Tango se revela um ensaio intimista e quase em tom confessional dos meandros da vida do pr�prio diretor Carlos Saura, uma grande lenda do cinema espanhol. � exatamente a� que o filme se torna interessante para os amantes do cinema, porque no fundo o filme se torna menos um pseudo-document�rio sobre os efeitos do tango no cora��o dos espanh�is para mostrar na verdade uma vis�o particular de Saura sobre os efeitos da dan�a em sua vida pessoal. Pois essa vis�o pessoal � de fato o m�ximo que um diretor pode apresentar sobre uma coisa. O filme se torna t�o intimista que no fundo � um filme sobre os dilemas presentes da vida do pr�prio diretor, impondo-se sobre o tema inicial de apresentar o tango. Isto �, Saura, agora, n�o tem a vis�o pretensiosa de fazer um filme sobre o tango, mas apenas um filme que mostre a sua vis�o pessoal, como a dan�a se tornou uma parte indissoci�vel de sua vida, ou seja, a paix�o pela dan�a como parte integrante e ativa de sua vida presente. O que impressiona nesse relato � a maturidade de Saura em se olhar no espelho, sem medo de se expor e mostrar suas fragilidades. E para compreendermos isso, temos que pensar sobre a posi��o de Saura no atual cinema espanhol. Saura sempre foi considerado o principal diretor do pa�s. Seus filmes de alegorias pol�ticas, como Ana e os Lobos, Cria Cuervos e Mam�e Faz Cem Anos, lhe deram proje��o em todo o mundo. Entretanto, em meados dos anos 80, a popularidade de Saura com os cr�ticos come�ou a declinar paulatinamente. Os pr�prios filmes sobre dan�as n�o receberam boas impress�es, culminando com seus �ltimos dois filmes, T�xi e Dispara!, que receberam termos bastante negativos dos cr�ticos. Al�m disso, o surgimento de um outro cineasta espanhol fez com que o nome de Carlos Saura fosse relegado a segundo plano. Hoje, quando se pensa em cinema espanhol, pensa-se imediatamente em Pedro Almodovar, que herdou o lugar de destaque antes ocupado pelo Saura. Al�m dele, cineastas como Aranda e Luna ganharam pr�mios importantes em festivais espalhados pelo mundo. Saura anda esquecido e desprestigiado. E esse � exatamente o encanto de Tango, onde Saura admite sua decad�ncia, mas sem abandonar sua integridade como indiv�duo, e mantendo-se coerente com seu passado. Assim, Tango � um relato confessional de um autor que n�o tem mais nada para provar para ningu�m. O diretor-personagem de Tango � portanto um alter-ego do pr�prio Carlos Saura. No filme, o personagem � um diretor respeitado mais em fun��o de seu passado do que propriamente do seu lugar de prest�gio atualmente. E esse cen�rio de decad�ncia no filme est� bastante relacionado com um sentimento de decad�ncia f�sica, um envelhecimento. A virilidade � um sentimento bastante presente no cinema espanhol, e no povo espanhol em geral. A pr�pria dan�a reflete isso. Os movimentos do corpo s�o no fundo um jogo de sedu��o com o parceiro, uma sensualidade em exibir o corpo e us�-lo como um instrumento de manifesta��o de um sentimento de viver. Por isso, o filme mostra em uma ocasi�o idosos que buscam um sentido para continuar vivendo nos passos da dan�a. Mas Saura sabe muito bem que o mais dif�cil � a transi��o, que nunca � completamente suave. O come�o do filme � portanto o instante em que Saura percebe seus limites: ele est� em fim envelhecendo, e n�o parece preparado para esse momento. Esse instnte de percep��o acontece quando o diretor-personagem � abandonado pela amante, trocado por um rapaz mais jovem, mais sensual e com mais vigor f�sico que ele. Ele fica descontrolado, perde a cabe�a, tenta agredir a amante, depois implora sua volta, mas em v�o. Mas a paritr do instante em que Saura v� o seu envelhecimento com serenidade, ele recupera um novo equil�brio, e consegue acenar para o futuro com uma nova possibilidade. A garota-mulher-dan�arina que Saura em seguida encontra � uma proje��o de seus sonhos de jovem. Ela, por sua vez, procura um cara mais experiente, que lhe transmita seguran�a, e o admira pelo seu trabalho inegavelamente reconhecido. E Saura � honesto o suficiente para admitir sua pequena trapa�a: ele, mesmo que indiretamente, conquista a garota mais pelo seu passado que pelo seu presente, isto �, mais pelo que ele representa do que pelo que realmente �. Mas deve-se notar que Saura � honesto com a garota, mostrando-se a ela como uma pessoa em busca de um novo equil�brio, que obviamente a inclui. E a vaga no cobi�ado grupo de bailarinas est� m jogo, e ambos sabem disso. Nesse relato, Saura consegue extrair momentos singelos de sutil delicadeza e poesia. O ponto mais alto do filme � no primeiro jantar a dois, onde ele presenteia a pretendente com uma caixa de m�sica que, aberta, revela um pequeno besouro. A partir da�, cada vez mais claramente Saura fala de si mesmo, mostrando seus dilemas e seu decadentismo para o p�blico de uma forma honesta e delicada. Vemos o diretor no filme trabalhando em um projeto com as figuras de Goya, quando sabemos que o pr�ximo filme de Saura em seguida a Tango foi de fato sobre o pintor espanhol. Em seguida, Saura apresenta aos produtores (e ao p�blico) o melhor n�mero de dan�a do filme. O produtor obviamente n�o gosta, diz que � muito ousado e pol�tico, e que Saura deve modificar o final pessimista para agradar ao p�blico, tornar o n�mero mais leve. Percebe-se ent�o que o produtor respeita as id�ias de saura, que mant�m sua integridade art�stica, mas as diferen�as de perspectiva s�o mutio grandes. No final, junto a garota-mulher-bailarina, a metalinguagem fica mais que evidente.Mostra-se a filmagem dos n�meros finais, � moda do final de Oito e Meio, onde fic��o e realidade se misturam de tal modo na cabe�a do diretor, que ele tem medo que sua amada realmente morra quando apenas a personagem morre. Ora, porque no fundo tudo � a mesma coisa na cabe�a de Saura. Sua vida se confunde com sua rela��o com a vida de seus personagens, sua vida � os pr�prios filmes, a pr�pria nega��o da realidade. No fundo, um sens�vel relato de amor ao cinema. Mas findo o filme, resta-nos pensar sobre a inser��o do filme no atual cinema espanhol. Se Tango � pelo menos mais autoral e sens�vel que A Garota dos Meus Sonhos, � uma covardia compar�-lo ao �ltimo Almodovar, Tudo Sobre Minha M�e. A diferen�a entre os dois � que enquanto Almodovar olha para o futuro, Saura olha para o passado. Tango, como projeto de cinema, � antiquado, retr�grado, ing�nuo at�. Tango � um filme nost�lgico, quase como uma despedida de Saura. Mas a virtude do filme � que finalmente Saura desistiu de tentar agradar os cr�ticos e agora ele quer apenas fazer um filme que mexa com as emo��es do p�blico, um filme sobre a sua paix�o para o cinema. Bonito, tendo-se em vista o passado de Saura como realizador, mas, sem sombras de d�vidas, � um filme que tem pouco a acrescentar para o futuro. Se em Tango, Saura mostra que n�o desaprendeu a dirigir, ele tamb�m confirma que o diretor tem a consci�ncia que seu cinema deve dar lugar aos cineastas da nova gera��o. � um retrato maduro das suas presentes limita��es como cineasta, mas um momento de extremo equil�brio e felicidade como pessoa. Que venha, ent�o, o pr�ximo Almodovar! Marcelo Ikeda. NOTA: 7 |