METALINGÜÍSTICA EM "SUNDAY": UM CONFLITO ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO
"Sunday", filme de estréia do então desconhecido Jonanthan Nassiter, surpreendeu o público do festival de Sundance e arrematou o prêmio de melhor filme. A surpresa na premiação se deu pelo fato de Sunday evitar os recursos mais estilizados do cinema independente norte-americano para constituir uma atmosfera estritamente original. O cinema independente, que na sua origem era marginal e alternativo ao padrão hollywoodiano de cinema, acabou se fundindo com o mainstream a que inicialmente pretendia se opor. O próprio festival de Sundance, idealizado para oferecer uma alternativa a filmes de produção barata e sem grandes chances no circuito comercial - especialmente um contraponto ao Oscar - acabou invadido por grandes produções e por executivos de Hollywood, de olho no crescente mercado de filmes independentes e mais baratos, que portanto teriam mais chances de retorno financeiro. Nesse prisma, Sundance tomou uma medida de coragem ao reafirmar o caráter autoral e alternativo de suas produções ao premiar o desconhecido e ingênuo Sunday, que, ao invés de retratar a gratuita banalização da violência no mundo pós-moderno, com cortes rápidos e câmera frenética, segundo o estandardizado clichê dos filmes independentes, preferiu compor um drama intimista baseado na frustração de relacionamentos sentimentais. Isto de modo algum significa que Sunday represente uma oposição aos princípios do cinema independente. Ao contrário, Sunday reafirma a preocupação com o modo de vida americano, com o progressivo isolamento e a desagregação da estrutura da sociedade americana com o fim de um "american way of life". Mas ao contrário da explosão de um grito de revolta que geralmente desemboca em violência - como em Faça a coisa certa, Pulp fiction ou Fargo -, Sunday revela o desencantamento com um mundo frio e distante através da tentativa de duas pessoas para reconstruir suas vidas. A temática de Sunday aborda principalmente o conflito entre o real e o imaginário, a verdade e a mentira, a lógica e o absurdo. Logo no começo do filme pensamos que os diálogos do encontro de Oliver e Madeleine fossem verdadeiros, isto é, que Oliver realmente fosse um diretor de cinema e que Madeleine realmente o conhecesse e quisesse impressioná-lo a qualquer custo para conseguir um papel em seu próximo filme. Apenas na história que Oliver contou a Madeleine em sua casa, que deveria ser apenas uma história e portanto fictícia, percebemos que Oliver havia enganado Madeleine, revelando que não era de fato um diretor de cinema, contando uma história que tendia a certos pontos de absurdo, como a passagem no interior da igreja. A nossa percepção do que é de fato verdadeiro ou não se confunde totalmente. Entretanto, logo em seguida, percebemos que na verdade havia sido Madeleine quem enganara Oliver, sendo o engano no reconhecimento do cineasta pura premeditação de Madeleine para levar Oliver para sua casa. A história que ela conta parece ainda mais absurda, ao inserir o marido e a importância das plantas no conjunto da farsa. Mas novamente o absurdo se torna real, quando o marido de Madeleine efetivamente chega, e conta a Oliver uma história aparentemente absurda, sobre um grande corte provocado pela esposa com uma tesoura de jardim. Seria verdade que Madeleine poderia ser uma psicopata? Desse modo, o real passa a assumir a dimensão de imaginário, o absurdo se torna logicamente plausível e os conceitos de verdade e mentira se transpõem na percepção do espectador. Em seguida, a verossimilhança do encontro se torna ainda mais difícil, ao descobrirmos que Oliver é na verdade quase um mendigo. A inversão de perspectivas se torna absoluta. A metalingüística do filme reside no fato de o cinema como arte também se dividir entre o real e o imaginário. Por exemplo, o primeiro encontro de Oliver e Madeleine apenas foi real nos limites da tela, mas efetivamente não foi real para o nosso mundo, já que o encontro se deu apenas em um filme. Por outro lado, o próprio fato de estarmos sentados ante a tela e assistirmos o encontro dos dois torna o fato real, já que efetivamente em tempo real (para o nosso mundo) presenciamos o encontro. Essa divisão entre a natureza realista ou fabricada do cinema, que em última instância representa o embate teórico entre o realismo de Bazin e o formalismo de Arnheim e Eisenstein, e que divide as preocupações do diretor de Sunday, estão representadas nas próprias dúvidas existenciais de Oliver. Uma prova concreta desse fato são as várias formas de paralelo que podemos identificar entre Oliver e o próprio Nassiter. Não devemos nos esquecer que a função de Madeleine é fornecer possíveis fontes e lugares para o filme de Oliver, onde ela terá um papel importante. À medida em que o contato entre Madeleine e Oliver se aprofunda, maior a certeza de que Madeleine é efetivamente um grande material para o filme de Nassiter. O filme seria a estréia de Oliver, já que o falado "Dimension" havia sido apenas uma invenção de Madeleine para enganar o marido, assim como Sunday é o filme de estréia de Nassiter. Portanto, a trajetória sinuosa de Oliver em busca de sua identidade pessoal representa a própria trajetória de Nassiter em obter uma identidade autoral para o seu filme. Oliver ao longo do filme foi conduzido a um conflito entre o real e o imaginário, isto é, se deveria prosseguir com o mundo ambíguo de "histórias" e mentiras recíprocas com Madeleine, ou retornar para o mundo subumano do retiro dos assistentes sociais. O relacionamento com Madeleine se revela um mundo idealizado, onde a total compreensão de Madeleine, sua instantânea paixão por um homem feio, gordo e que se revela mais tarde um desamparado, ilustra a impossibilidade do contato, que atinge seu ápice na cena em que Oliver se restringe a observar estático e boquiaberto a nudez de Madeleine. Por outro lado, o mundo torpe da pensão se revela mais próximo da realidade de Oliver. As dúvidas de Oliver representam o próprio dilema do cineasta, dividido em seguir a desvirtuada trajetória dos cineastas independentes materialistas ou buscar a sua própria afirmação individual. Em última instância, a dialética entre o real e o imaginário permitiu que Sunday transcendesse seus elementos individuais na busca de uma identidade autoral para a recuperação do cinema independente norte-americano. Evitando as fórmulas repetidas à exaustão, Nassiter buscou não só a origem do movimento, mas a própria origem do cinema, a partir de suas próprias dúvidas pessoais, representadas pela personagem de Oliver. Nesse aspecto, pode-se dizer que Nassiter concluiu seu filme com grande otimismo, libertando Oliver de todos os tipos de vínculos que restrinjam sua liberdade individual, quer com o mundo idealizado, ao dominar sua necessidade de relacionamento carnal com Madeleine, quer com o mundo concreto, ao não retornar no horário determinado ao retiro. A liberdade de Oliver culmina num final redentor e utópico, que comprova a metalingüística do filme, já que Nassiter garantiu sua própria liberdade como cineasta ao ser consagrado em Sundance. Marcelo Ikeda.
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