O "FATALISMO OTIMISTA" DE "STELLA"


 

S� a partir dos anos 50 o cinema grego come�ou a despertar do nada, a partir da cria��o de uma escola de cinema em Atenas. Os primeiros cineastas foram profundamente influenciados pelo neo-realismo italiano. Este � o caso de Stella. Por outro lado, Michael Kakoyannis usou alguns artif�cios para conseguir a distribui��o internacional de seu filme, especialmente no territ�rio americano. Deu certo para os dois lados. Stella consegue ser uma po�tica cr�nica social de costumes, e tamb�m, especialmente pelo sex appeal de sua atriz principal (Melina Mercouri), atraiu a aten��o americana no festival de Cannes. Kakoyannis seria chamado em seguida para dirigir o projeto de Zorba, o Grego.

A influ�ncia do neo-realismo de Ladr�es de Bicicleta pode ser identificada claramente em Stella. Stella � uma cantora de cabar�, embora n�o uma prostituta, que n�o quer se casar para n�o perder a sua liberdade. Ela n�o se importa com dinheiro, tanto que abandona um figur�o da classe alta grega para se apaixonar por um jogador de futebol obsessivo. � exatamente a for�a dessa paix�o e a obsess�o do rapaz que acabar�o por provocar a morte de Stella, quando ela recusa a se casar. A liberdade de Stella vale mais que sua pr�pria vida. Stella pode ser vista, portanto, como uma Carmen grega, mas o estilo de narrativa � autenticamente neo-realista. Kakoyannis descreve a vida humilde mas digna da classe m�dia baixa grega, e os frequentadores do cabar�. A descri��o do quarto de Stella � fabulosa. N�o � escuro ou estreito como no filme de De Sica. Pelo contr�rio, a claridade � perfeita. Entretanto, o �nico c�modo � descrito com uma total economia de detalhes. A cama fica perto de um canto do quarto; de outro, h� um espelho. Assim como em Ladr�es, como pano de fundo � hist�ria de Stella, h� uma descri��o social da Gr�cia dos anos 50. A divis�o de classes e os preconceitos da classe alta �s tradi��es populescas est�o presentes na figura do primeiro enamorado de Stella. A fam�lia de Alekos naturalmente abomina Stella porque, al�m de imaginar que ela estivesse interessada no dinheiro, eles obviamente t�m pontos de vida diferentes quanto � vida. O mais interessante � que Alekos se revela um fraco, despreparado para as li��es da vida em rela��o � autonomia de Stella. Essa � a cr�tica de Kakoyannis �s elites gregas. Numa aut�ntica sele��o natural, Alekos morre, e Stella vive.

Os frequentadores da taberna recebem uma dignidade incr�vel pelas m�os de Kakoyannis, apesar das dificuldades. A pr�pria taberna � bastante simples, e se contrasta violentamente com os music halls americanos. Mesmo nesse cen�rio simples, a figura de Stella se destaca, surge um brilho luminoso na tela. A divina interpreta��o de Mercouri � respons�vel por grande parte do sucesso do filme. Sua for�a, franqueza, sua abertura ante aos preconceitos das pessoas reflete pelo contraste a figura de submiss�o da mulher grega da �poca. Stella encanta pelo seu fasc�nio, pelo seu amor aos homens, pelo seu amor � vida, mas por outro lado, � uma mulher sens�vel, generosa, iluminada. Nossa identifica��o com Stella � quase obrigat�ria, especialmente porque Stella n�o � vulgar. Este � o milagre da interpreta��o de Mercouri. No fundo, Stella � uma mulher como todas as outras: carente, sens�vel, desprotegida. For�a e sensibilidade s�o demonstrados pelo olhar penetrante, cortante, decidido, e ao mesmo tempo simples, terno e convidativo de Mercouri. A cena que resume essa duplicidade milagrosa da interpreta��o de Mercouri � a cena da apresenta��o de Stella na taberna depois do enterro de Alekos. Ela quer cantar, o que mais gosta de fazer, para esquecer suas culpas, mas o constrangimento � evidente. Embora ela tente fingir que nada acontecera, era-lhe imposs�vel disfar�ar o desapontamento pela falta de energia. Seu sorriso contagiante n�o era o mesmo.

Na verdade, Stella reflete um fatalismo t�pico do neo-realismo de Ladr�es de Bicicletas, que por sua vez, foi influenciado pelo realismo po�tico franc�s. O destino impulsiona os personagens a situa��es em que existe o choque entre diferentes vis�es de vida, e como a mudan�a de seu modo de vida � imposs�vel, a trag�dia se torna inevit�vel. A primeira trag�dia vem do choque entre o rico Alekos e Stella. Do choque entre a sofistica��o comedida de Alekos e a transitoriedade espont�nea de Stella, o resultado � a doen�a e a morte de Alekos. Mas o fato � que Stella n�o poderia se casar com Alekos, e da� vem o fatalismo que culmina com a morte deste. Do sacrif�cio de Alekos pelo amor de Stella, o fatalismo passa a dominar os rumos de Stella. O jogador de futebol (Miltos) atrai Stella por ter caracter�sticas completamente diferentes de Alekos: em contraste com a eleg�ncia e a sofistica��o deste, aquele � bruto, carnal, vigoroso. Os dois t�m personalidades semelhantes, e n�o se deixam convencer ou dominar. Entretanto, Miltos quer se casar com Stella, mas pelo seu comportamento a obriga a lhe dizer que sim. Desse choque sobre a fun��o do casamento e de seus estilos de vida � que surge a segunda trag�dia. No dia de seu casamento, Stella se interessa por um terceiro homem, um garoto inocente, t�mido e ing�nuo, o contr�rio das caracter�sticas de seu suposto marido. Da obsess�o de Miltos pelo amor de Stella surge o fatalismo. Na cena final em que Stella se despede do garoto e diz adeus, ela j� sabe que vai morrer. Quando Stella diz adeus, � para sempre. Mesmo com a certeza da morte, Stella n�o recua, n�o foge ao seu destino. Assim como anteriormente, Stella optou pela morte, n�o se casando, mas n�o quis abrir m�o de sua liberdade, de sua vis�o de mundo para se sujeitar ao dom�nio das nistitui��es.

A morte fatalista de Stella e o final tr�gico o aproxima do neo-realismo de Ladr�es. Mas desta vez, o fim tr�gico assume outra conota��o. Mesmo destinada � morte, Stella n�o abandona seus ideais, e isto faz com que sua morte tenha uma dignidade diferente do fim de Ladr�es, onde a degrada��o moral atinge um ponto extremo. Deste modo, Stella � um fatalismo otimista. Este � um dos pontos que faz o filme ser uma esp�cie de neo-realismo grego, incorporando algo de aut�ntico da cultura do pa�s. A descri��o das tabernas e a apresenta��o das m�sicas t�picas j� exemplificam um aspecto mais alegre e menos sufocante que Ladr�es. Stella cantando � um dos pontos altos do filme. Al�m da descri��o dos costumes t�picos da Gr�cia e a simplicidade e autenticidade do modo de vida de seus habitantes comuns, a cena comprova a alegria de viver que � a principal marca de Stella. Essa � a principal diferen�a de Stella e Ladr�es. No primeiro, o fatalismo assume um tom m�stico, pr�prio das mitologias e tradi��es essencialmente gregas, mas o filme como um todo coroa a liberdade e a alegria de viver inalien�vel de Stella. Por isso, dizer que � um filme otimista, mesmo com o fim tr�gico. Esse otimismo reflete, por um lado, como j� se disse antes, a preocupa��o com o mercado internacional, e especificamente a aceita��o do filme em Hollywood. De fato, pode-se entender Stella como uma mistura entre o tom fatalista de cr�tica social do neo-realismo italiano com o "american way of life" das com�dias sociais que envolvem wit. Ou seja, Stella pode ser visto como uma mistura de De Sica com Lubitsch.

Notadamente, o filme reflete um certo amadorismo do cinema grego, com cenas inclusive que pecam na dire��o, como o jogo de futebol e especialmente o bizonho atropelamento. Especialmente a primeira metade do filme � filmada com grandes closes, o que fornece uma corporalidade impressionante aos personagens. Aos poucos, o filme se torna menos r�stico, e assume um tom extremamente po�tico. As cenas de Stella na multid�o assistindo ao desfile do seu terceiro namorado s�o bem filmadas, e h� um take pela abertura de uma das asas de uma banca de jornal primorosa. Mas o final reserva as melhores cenas do filme. O contraste entre o bailar de Stella e seu namorado, e de Miltos j� b�bado com a invejosa companheira de Stella no cabar� � registrado com uma energia impressionante, montagem acelerada e chicotes. Os dois ambientes, e a postura dos dois "noivos" s�o apresentados com brilhantismo. No final, quando Stella e o jogador finalmente se encontram, h� um bel�ssimo plano geral que refor�a o fatalismo e a incomunicabilidade entre os dois. A cena � digna de um Antonioni, pelo sil�ncio, o minimalismo da paisagem, a incomunicabilidade e o long take.

Se por um lado o filme � quase amador, por outro, � extremamente po�tico. � um filme despretensioso, ing�nuo, inocente, em algumas cenas clichezado, tradicional. O filme � tudo isso sim, levando a simplicidade do neo-realismo de Ladr�es � �ltima inst�ncia. Talvez por isso seja t�o dif�cil nos convencermos que Stella � um grande filme. No m�nimo, podemos ver Stella como uma tentativa v�lida em unir dois tipos de cinema que parecem antag�nicos: o fatalismo neo-realista com o "american way of life". De sua simplicidade, em algumas cenas Stella transcende a realidade, num olhar de Mercouri, ou quem sabe a magia dos banjos gregos. Em outras cenas, Stella nos parece mal acabado, rasteiro, comercial. Mas � exatamente este o dilema que envolve todos os seguidores do neo-realismo de De Sica. E acima de tudo, este � o contraste que sintetiza a vida de Stella.

Marcelo Ikeda

 

 

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