UM SOL ALARANJADO

 

 

(Este � um dos textos que mais me alegra t�-lo escrito. Um texto simples, objetivo e essencialmente pessoal, como os que gosto de escrever, escrito por ocasi�o da Mostra Curta Cinema, para o site Curta o Curta. � um texto pioneiro, escrito bem antes de toda a badala��o em torno da indica��o e premia��o do curta em Cannes. �s vezes, acho que o escrevi apenas pelo primeiro par�grafo, mas no fundo o que me encantou no filme do Valente foi o uso da c�mera como um distanciamento e uma proximidade, tema sobre o qual venho me debru�ando atentamente nos �ltimos tempos, sobretudo em meus v�deos caseiros. Distanciamento e proximidade que, em �ltima inst�ncia, est�o muito presentes na pr�pria ess�ncia do texto. [Nota em 25/07/2002] )

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Na primeira exibi��o p�blica no Rio de A Hora da Partida, �ltimo filme do taiwan�s Tsai Ming-Liang, no hor�rio de um jogo decisivo da sele��o brasileira em sua campanha nas eliminat�rias da Copa e na imin�ncia da eclos�o de uma guerra mundial, l� estava um jovem realizador, como de costume, na segunda fileira de poltronas, que provavelmente deveria estar soltando boas gargalhadas, embora silenciosas, com o filme. Era Eduardo Valente, que j� tinha o seu Um Sol Alaranjado praticamente finalizado.

Dada sua natural posi��o de lideran�a no cen�rio da UFF, seu papel como cr�tico, aliado � sua obsessiva e incans�vel cinefilia, e seu livre tr�nsito na organiza��o de eventos e na coordena��o de festivais de cinema, a expectativa em torno do projeto de realiza��o de Valente era das maiores. No entanto, Valente conseguiu super�-las com a simplicidade e a serenidade que sempre lhe caracterizaram.

Um Sol Alaranjado � tudo o que o cinema universit�rio pode ser. Filmado em 16mm e preto-e-branco, sem som direto, em loca��o, no interior de uma �nica casa, sem nenhum movimento de c�mera, � um filme que ao inv�s de tentar esconder sua suposta precariedade t�cnica, ao contr�rio, busca extrair suas virtudes exatamente a partir de um di�logo �ntimo com suas impossibilidades. Trata-se de uma enorme li��o para o atual cinema brasileiro, que cisma em varrer suas defici�ncias para debaixo do tapete. Valente vai ao cerne da quest�o quando nunca confunde simplicidade t�cnica com desleixo ou mau acabamento. � preciso observar que, apesar de toda a simplicidade t�cnica do filme, o �tico foi realizado nos Estados Unidos.

No entanto, Um Sol Alaranjado n�o � um exerc�cio de linguagem, nunca � mero recurso esteticista, porque o que importa em cada fotograma do filme � a vida, o mundo, as pessoas. A influ�ncia do cin�filo se faz presente quando o filme busca, para sua maior inspira��o, os recursos do cinema japon�s. A estrutura familiar, o conflito entre tradi��o e modernidade, a reavalia��o da import�ncia da rotina, a indireta refer�ncia � repress�o sexual e a tragicidade do destino nos fazem lembrar de um leque que vai de Ozu, Oshima, Teshigahara at�, � claro, o Tsai de A Hora da Partida.

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Uma mulher (mulher?) que nada lhe resta a n�o ser o seu pai. Um pai, que nada lhe resta a n�o ser sua filha. Um equil�brio.

Do outro lado, o destino. A impossibilidade da iman�ncia. A brevidade da vida.

Como ent�o � poss�vel sobreviver ante nossa pequenez?

O que nos desconcerta ao assistir a Um Sol Alaranjado � que todo o rigor que envolve o filme n�o consegue esconder uma profunda ternura. A imobilidade da c�mara inspira um distanciamento e uma intimidade. De um lado, a ternura do amanhecer, a rela��o impl�cita entre filha e pai, a generosidade em aceitar os limites do outro, a toler�ncia. De outro, o enclausuramento, a austeridade da c�mera im�vel e do preto-e-branco, a repeti��o. Evitando qualquer tentativa de explicita��es psicol�gicas, a terr�vel presen�a do destino evidencia a dif�cil fragilidade que envolve nossa exist�ncia.

Por outro lado, Valente n�o busca nossa como��o, e n�o � apenas o distanciamento do filme que nos mostra isso. � preciso observar a ambiguidade dos personagens, e como o filme assume que �s vezes eles se tornam incrivelmente pat�ticos. O amigo Fernando Ver�ssimo, em tom de claro exagero, chegou a confessar que a segunda parte do filme era uma com�dia. E � exatamente isso o que o aproxima do cinema de um Tsai. � a partir da impossibilidade da perman�ncia que buscamos subterf�gios para manter um equil�brio que n�o pode mais ser mantido. Mas o que fazer sem ele? Como deixar de alimentar a saudade sem que definhemos?

Muito mais haveria a ser dito sobre o filme de Valente. O bel�ssimo uso do som, o di�logo extremamente amb�guo entre o materialismo e o espiritual (a �nica palavra do pai ocorre no instante de sua morte), o car�ter c�clico do filme, o papel da diferencia��o de um e outro dia pelo plano geral e o plano pr�ximo, a sugest�o de um tempo e espa�o pelo som do r�dio e da televis�o (a TV chega a falar em FHC), a sugest�o quase freudiana de uma inclina��o sexual, o final profundamente reticente, o desconcertante rock-and-roll nos cr�ditos finais. Neste breve espa�o, s� podemos deixar para a imagina��o do leitor.

N�o podemos, no entanto, nos abster de um plano-s�ntese, daqueles que marcam anos nas salas de cinema. � a filha dando banho no pai morto. A ternura e o grotesco, a purifica��o e a sordidez, o desespero mudo e a fragilidade do Homem, a transcend�ncia e o vazio da rotina, o car�ter c�clico. S�o nesses momentos em que a vida e tamb�m o cinema nos parecem uma terr�vel circunst�ncia, mas profundamente necess�ria.

Marcelo Ikeda

(11/12/2001)

 

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