SANTO FORTE |
| Quinze anos ap�s o sucesso do elogiado Cabra Marcado para Morrer, Eduardo Coutinho volta ao longa-metragem em Santo Forte. Atrav�s de entrevistas numa comunidade pobre da G�vea, o documentarista tra�a um retrato t�pico da diversidade cultural do povo brasileiro. Em paralelo � passagem do Papa pelo Brasil, Coutinho pergunta �s pessoas sobre a sua religi�o. As respostas revelam um sincretismo evidente: embora quase todas as pessoas afirmem ser cat�licas, a grande maioria freq�enta ou j� freq�entou ativamente terreiros de umbanda ou camdombl�. Revelam que toda pessoa precisa de um santo protetor, mas confessam que a umbanda tamb�m pode ser usada para o mal. Coutinho convence pela naturalidade dos depoimentos, atrav�s da intimidade que conseguiu extrair entre os entrevistados e a c�mera. Mesmo com um tema dif�cil e especialmente controverso, Coutinho realizou um filme leve, que deve agradar mesmo �queles que n�o tenham uma admira��o especial pelo document�rio ou pelo tema em si. Nunca o filme cai em um didatismo enfadonho, e Coutinho habilmente n�o quer extrair nenhum tipo de verdade ou conclus�es predeterminadas sobre a cren�a. Seu estilo parece livre e decuidado, mas percebemos que isso s� foi atingido a partir de um estudo cuidadoso, especialmente para ordenar as entrevistas. A est�tica de Coutinho se adapta ao tema: no final, Santo Forte � um grande bate-papo, que obt�m conclus�es interessantes exatamente por n�o ter a pretens�o de extrair conclus�es. Uma prova do estilo despojado de Coutinho � que muitas partes do filme se assemelham a um making of do pr�prio filme. Com isso, Coutinho consegue a simpatia do espectador, pela honestidade com que trata o tema. Se os depoimentos nos parecem verdadeiros e aut�nticos, sabemos que h� uma equipe por tr�s que cuidadosamente selecionou os entrevistados, como sabemos j� no in�cio quando Vera a assistente de produ��o do filme, e tamb�m uma das entrevistadas explica como foi o acesso da equipe ao morro. Coutinho filma o dinheiro pago �s pessoas, e a assinatura de concess�o de direitos. Por isso, o filme de Coutinho � acima de tudo um meta-document�rio. V�rios dos entrevistados de Coutinho ficam em nossa cabe�a ap�s o t�rmino do filme. Entretanto, inegavelmente, a Dona Teresa domina o filme, com seu jeito simples, falador, mas bastante objetivo. Ela tenta buscar um motivo para algumas de suas obsess�es, por n�o ter dado sorte na vida, pela vida de dificuldades. Mas Dona Teresa se valoriza: em outra vida, foi rainha, brilhou, teve poder, e agora justamente paga pelos seus pecados de outras vidas. Por isso, segundo ela, gosta de roupas caras e de j�ias, e admira Beethoven. Mas no ponto alto do filme, entretanto, Dona Teresa fica muda, a voz embargada quanto tenta responder se � feliz. Ela diz que � feliz por um lado, mas pelo outro, n�o. "E que outro lado � esse?", pergunta Coutinho. Dona Teresa fica muda, diz que prefere n�o responder, mas seu sil�ncio diz tudo. Dona Teresa � o retrato do Brasil, um retrato constru�do de dentro para fora. Ela n�o � o modelo de sacrif�cio fabricado como a professora Dora de Central do Brasil. Dona Teresa � gente, acima de tudo, dividida, amargurada, uma sobrevivente, mas que nunca perde o senso de humor, e sobretudo a sua dignidade. Ela conta a ceia de natal que preparara na casa dos patr�es, os detalhes da prepara��o de cada prato, mas prefere ir para sua casinha, sentar no fundo do seu quintal amargo, olhar para o c�u sem estrelas, e ficar em companhia de suas recorda��es, com sua pr�pria fam�lia. "Fizemos a nossa festinha de Natal, t� tudo pronto, dentro das nossas condi��es", assinala Dona Teresa. Ela � o retrato da transcend�ncia de um Brasil que n�o faz quest�o de esconder sua identidade, ou quer mostrar para os gringos uma identidade de pobres-coitados que eles querem que n�s tenhamos. Dona Teresa confessa que sofre, que pensou em desistir de tudo, mas ela sobreviveu acima de tudo com muita dignidade. Em outro momento, outro personagem diz que tem orgulho de ser brasileiro e de ser negro, de uma forma extraordinariamente convincente. "Eu tenho orgulho de ser negro. Negro. Porque preto � cor, negro � ra�a." Essa � uma das raras oportunidades em que o Brasil se olha de frente, admitindo suas limita��es, mas sempre com dignidade. E Coutinho filma as cenas sem nenhum didatismo desnecess�rio. Em suma, Santo Forte � acima de tudo um grande retrato antropol�gico do Brasil, com sua enorme diversidade �tnica, cultural, religiosa e espiritual. Mas os entrevistados de Coutinho s�o todos sobreviventes, e por isso, o estilo de Coutinho � mais que otimista, � uma aposta na for�a desse povo que se olha sem abaixar a cabe�a. A diversidade de Coutinho deve ser tamb�m vista no �mbito do cinema brasileiro p�s-retomada: um retrato de como os novos filmes brasileiros procuram uma identidade para o seu povo e para o seu cinema, de forma desigual, mas corajosa e lutadora. Marcelo Ikeda. NOTA: 8 |