INTIMISMO E METALINGUAGEM EM O SEXTO SENTIDO |
O Sexto Sentido � um tipo de filme cada vez mais raro no cinema mundial. � um filme surpreendente, e que oferece in�meras alternativas de leitura. E isso � ainda mais incr�vel se lembrarmos que � um filme t�pico do mainstream amaricano. O Sexto Sentido n�o cai nos cacoetes do que � considerado "bom cinema" nos dias de hoje. N�o � um "filme de arte" que cai em psicologismos pseudo-filos�ficos (especialmente os franceses), nem possui os cacoetes do cinema independente, que fala sobre a aus�ncia de sentido da vida, geralmente utilizando viol�ncia. Ora, isso porque o filme � mainstream. Mas o que surpreende em O Sexto Sentido se o pensarmos como uma produ��o mainstream, � o clima sombrio e intimista que domina o filme. Muitas pessoas o definiram como um filme de terror, ou de suspense, especialmente por causa da revela��o final. Mas no fundo, � um drama psicol�gico (mas n�o "psicologizante"). Se o filme n�o esbarra em gratuitos psicologismos, � porque ele oferece uma nova vis�o de dois tipos de personagens que sofrem os maiores estere�tipos do cinema americano: a crian�a e o psic�logo. De fato, ao final do filme, percebemos que as rela��es entre m�dico e paciente quase se inverteram. O psic�logo, serenamente interpretado pelo discreto Bruce Willis, possui uma s�rie de frustra��es e � pontuado com uma interpreta��o quase melanc�lica, com tons "graves" e nenhum "agudo". Mas o que surpreende mais � a vis�o do mundo da crian�a. Em contraste com a interpreta��o geralmente nost�lgica e ing�nua do mundo infantil, Cole � um garoto atormentado, amedrontado, ridicularizado. Os fantasmas do medo e da humilha��o atormentam a crian�a de uma forma rar�ssimas vezes vistas nos cinemas. Uma cena que impressiona nesse sentido � quando Cole � trancafiado num s�t�o escuro. Bergman, por exemplo, lembra em v�rios filmes seus, que a experi�ncia mais traum�tica que teve quando crian�a foi quando seus pais o prenderam dentro de um arm�rio para castig�-lo. A solid�o, a incomunicabilidade n�o s�o negligenciados pelo diretor. A crian�a tem problemas t�o importantes quanto os problemas do mundo dos adultos. Esses elementos s�o refor�ados por elementos de linguagem cinematogr�fica, o que comprova a maturidade e o estilo do diretor indiano M. Night Shyamalan. Na cena de apresenta��o dos personagens, as diferen�as entre os dois s�o apresentados. Enquanto os Crowe s�o mostrados num ambiente claustrof�bico, super-organizado, bem decorado, sombrio, escuro, im�vel, Cole e sua m�e s�o mostrados especialmente numa cozinha clara mas bagun�ada, filmada com um suave steadicam. Em todo o filme, predominam os tons escuros, conferindo uma atmosfera sombria. A edi��o refor�a a imobilidade, o clima intimista, com ritmo lento e suave. A ilumina��o oferece um bel�ssimo contraponto, seja na cena em que Cole participa da pe�a de teatro, mas especialmente na cena no carro em que Cole conta seu "segredo" � sua m�e. A cena, por ser uma externa, j� � mais iluminada que as sombrias internas do filme. Mas al�m disso, no instante em que sua m�e come�a a acreditar no filho, uma sutil luz invade a tela, expressando em termos cinematogr�ficos essa importante parte do filme, em que Cole restabelece uma efetiva comunica��o com sua m�e. O sonho de Cole � ser uma crian�a como qualquer outra. Ele quer ir � escola e n�o ser humilhado pelos amigos, ser olhado de rabo de olho. Ele quer ser convidado para os festas. Mas por outro lado, ele � diferente, porque ele tem vis�es. De outra forma, Cole "n�o quer mais viver com medo". Mesmo com suas diferen�as, Cole pode ser uma crian�a como qualquer outra? Ele pode ter uma vida "comum"? Lembre-se que v�rias vezes durante o filme, Cole n�o quer ser chamado de "anormal". Mas no fundo, ele quer descobrir se � anormal ou n�o. Isso mostra o intimismo de O Sexto Sentido. Dessa forma, poder�amos pensar que O Sexto Sentido � um drama familiar � moda de Gente Como a Gente. Mas n�o o �. A diferen�a � que o Sexto Sentido dialoga sempre com os limites do real e do imagin�rio, de uma forma essencialmente metalingu�stica. Shyamalan retoma a tradicional pergunta da teoria cinematogr�fica: o cinema � real ou ilus�o? Mas ele transcende essa pergunta, refazendo-a. Na verdade, o que nos importa saber se o cinema � real ou ilus�o se n�o sabemos se o nosso mundo � real ou ilus�o ? De fato, se o cinema � real ou ilus�rio, ele o � sempre em rela��o a esse nosso mundo, que se considera como existente. Mas Shyamalan mostra que mesmo nesse nosso mundo, � complicado dizermos o que existe e o que n�o existe. O ponto fundamental para entendermos isso � quando o garoto diz a Willis que o m�dico s� poder� ajud�-lo se ele acreditar em seu segredo (i.e., que o garoto realmente v� mortos). Se Willis pensar que o segredo do garoto (real para ele) � uma alucina��o paran�ica (i.e. ilus�ria), como Willis ir� ajud�-lo ? A ambiguidade reside no fato de o mundo da crian�a ser tipicamente mais recheado de fantasias que o mundo dos adultos. Ora, quando o garoto faz a pergunta para Willis, "voc� acredita em meu segredo?", ele no fundo faz tamb�m a pergunta para n�s, espectadores. Mesmo pensando nos limites do nosso mundo, os limites entre o real e o imagin�rio s�o muito t�nues. N�s, no nosso mundo, acreditamos em pessoas que v�em coisas ? Os esp�ritos existem ? E n�s realmente acreditamos que os esp�ritos vistos por Cole existem? O papel metalingu�stico do cinema em O Sexto Sentido fica claro quando o garoto entrega uma fita ao pai de uma das meninas mortas. O cinema, nesse caso, foi o meio de contato entre os vivos e os mortos, o real e o imagin�rio, atrav�s da revela��o de uma verdade oculta. Al�m disso, quase no final do filme, a esposa de Willis deixa a alian�a escapar de suas m�os, quando adormeceu ao assistir a uma fita de v�deo, que mostrava seu casamento. A metalingu�stica se justifica porque o filme se concentra na quest�o medo. E nada nos d� mais medo do que o desconhecido. Pensando no tema medo, o filme � universal. Cole s� conseguir� sobreviver se conseguir dialogar com seus medos. O medo � em �ltima inst�ncia um limite. Apenas aprendendo a conviver com nossos medos, mesmo que nos seja imposs�vel super�-los (Cole n�o deixou de ver os esp�ritos!), � que podemos sobreviver. Como Cole disse, "eu n�o quero mais viver com medo". Isto �, ele n�o precisa ter medo de seus medos. Ele precisa conviver com o fato de ser diferente dos outros meninos. S� assim ele poder� ser um menino como qualquer outro. Cole fugia dos esp�ritos, porque achava ruim confront�-los. De fato, � desagrad�vel conviver com nossos medos, mas sem faz�-los, eles nos atormentam ainda mais. Um filme sobre o medo necessariamente deve esbarrar sobre o medo do desconhecido, que, pela natureza de real e imagin�rio, � tipicamente metalingu�stico. Isso confronta o papel do catolicismo, duramente criticado pelo diretor. Vemos a ang�stia do menino, que se abrigava na religi�o para que espantasse os esp�ritos. Ao inv�s de enfrentar seus limites, conviver com eles, a religi�o funcionava como um ref�gio para Cole, uma fuga que evitava que ele enfrentasse seus problemas. A refer�ncia ao catolicismo � clara quando o garoto possui v�rias imagens, a quem roga. Exatamente por mostrar os dramas e as dificuldades sociais de Cole � que a cena no teatro � t�o comovente. A cena representa a integra��o de Cole entre seus amigos de col�gio, j� que participa na pe�a de teatro com eles. Cole representa um garoto que trabalhava com estrume, que � o �nico que consegue retirar a espada da pedra, como em Excalibur. Cole renasce do estrume da humilha��o, ao encontrar um sentido para sua vida, dialogando com seus medos. A grande surpresa do final do filme refor�a a confus�o entre o real e o imagin�rio, porque descobrimos que durante todo o tempo Willis n�o existe nos limites do nosso mundo, porque ele estava morto, embora ao assistirmos ao filme at� ent�o pens�vamos que ele realmente existia. Curiosamente, o personegm principal do filme � uma pessoa morte, e o filme n�o � em flashback. A narrativa de O Sexto Sentido � engenhosa poque sua trajet�ria � de um parabol�ide. O tempo n�o � linear. No tempo t, somos informados de um fato. Em t+1, descobrimos que o fato no tempo t n�o era esse, mas na verdade era outro. Por isso, refazemos nossa id�ia de como pens�vamos no tempo t, mas n�o podemos reverter o fato de que no intervalo de tempo t, t+1 realmente pensamos da forma como pensamos. Por exemplo, no tempo t, vemos que a esposa do m�dico quase beija o rapaz que trabalha com ela. Pensamos que ela n�o o faz porque n�o quer trair o marido. Mas em t+1, descobrimos que ela n�o o fez por outro motivo, porque na verdade est� triste por causa da morte do marido, e ainda sente a sua falta. Em suma, O Sexto Sentido � um fant�stico filme para os limites do mainstream amaricano, porque fala de uma forma at�pica para esse tipo de cinema, de um drama profundamente intimista com um estilo sombrio e austero, com uma vis�o dessacralizada do mundo da crian�a. E o faz de forma essencialmente metalingu�stica, questionando se o nosso mundo � real ou ilus�rio, ao inv�s de questionar a natureza do cinema.
Marcelo Ikeda. |