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1. Recentemente uma pessoa me fez perceber que quando não sei como reagir a uma situação, eu simplesmente rio. Isso me veio à tona ao assistir ao novo filme de Alexander Payne, cujo trabalho anterior (Eleição) me parece elogiável. Claramente em sintonia com os dois últimos filmes de Wes Anderson, Payne fez, diferentemente de Eleição, uma comédia triste, contemplativa. Mas ao contrário de Anderson, Payne não apresenta uma consciência de uma estética da comédia dramática. O riso, no caso de Payne, surge quando o diretor simplesmente não sabe como reagir. Talvez por medo de se expor, talvez por uma opção defensiva, talvez por se sentir desengonçado demais para fazer um filme dramático. Não importa. Embora devamos respeitar esse esgar como um sinal de uma certa personalidade, não podemos deixar de ressaltar que o riso surge por mero embaraço, ou melhor, por um constrangimento. 2. Mas isso não quer dizer em hipótese alguma que esse constrangimento seja em relação a seus personagens. Sim, o constrangimento reina em diversas partes de Schmidt: em como Warren negocia o preço do enterro, em como fala com sua filha ao telefone, em como retorna ao escritório para falar com seu substituto, em como toma um café da manhã com sua esposa, no contato na banheira com Kathy Bathes ou no trailler com a esposa de seu novo amigo, no discurso final no casamento. Se a relação de Warren Schmidt com seus pares é calcada pelo constrangimento, e se muitas vezes o próprio Payne se sente constrangido a levar adiante os limites de seu personagem, isso não implica que o cinema de Payne é marcado pelo constrangimento. Ao contrário, parece-me claro que em Schmidt, Payne quer manter um diálogo íntimo, que procura ao máximo não ofender a integridade de seu personagem. 3. Os primeiros dez, quinze minutos de Schmidt são memoráveis: os planos vazios iniciais, a muda despedida do escritório, a festa de aposentadoria, o lento dolly-in em Nicholson quando se fala que “o importante é o que se fez, quando se olha para trás”. Mas, em termos da dramaturgia da solidão e do auto-descobrimento, tudo se torna um tanto mais óbvio quando Payne opta por um recurso desgastado e quase apelativo: as cartas para Ndugu, o menino africano. Escrevendo as cartas, Nicholson passa a narrar a si mesmo, isto é, ele se narra para o espectador, apresentando seus dilemas. Ele se exterioriza muito facilmente para quem pensa em uma estética da solidão. 4. Payne parece ser um cineasta observador: seus diálogos os mais banais, como o da compra de um sorvete, ou do engarrafamento numa rodovia, revelam isso. Mas não parece muito caprichoso em relação à composição do plano, em relação ao papel da decupagem. A trilha sonora convencional, para “reforçar” os sentimentos, denuncia muito da banalidade das soluções dramáticas de Payne. 5. Schmidt parece viver num mundo apenas seu. Olha tudo ao seu redor de longe, como se nada pudesse existir, como se nada pudesse ter um sopro de vida ou novidade. É a conversa no trailler com um casal, é especialmente o jantar na casa de Kathy Bathes. Elegante, polido e bem-comportado, Schmidt vive numa redoma de vidro que o isola de si mesmo. Um dos principais pontos do filme é a relação de Schmidt com sua filha. Apesar de ela ser talvez o que ele mais ame na vida, a filha pouco se importa com o pai, possui uma grande mágoa. “Logo agora você resolveu se importar com a minha vida?” Randall definitivamente não é o que Schmidt sempre esperou para sua filha. Ele é um homem frágil, imperfeito. 6. Nessa mistura de Morangos Silvestres com Viagem à Tóquio, Payne, mesmo diante de suas limitações, mesmo diante de um cinema americano, procura fazer sua parte. As Confissões de Schmidt é um filme levemente amargo, até certo ponto corajoso, que não busca uma saída pela tangente. O discurso de Schmidt no casamento reproduz as intenções de Payne à perfeição: o constrangimento, a impossibilidade de se escapar de um mundo de aparências. 7. O final do filme, quando o menino Ndugu finalmente responde às cartas de Schmidt, é particularmente comovente, já que Payne concedeu um pequeno epílogo ao destino amargo de seu personagem, um pequeno gesto de consolo. Um desenho, um pai e um filho de mãos dadas, um gesto autêntico, uma criança. Lembrei-me que recentemente uma pessoa me fez perceber que quando não sei como reagir a uma situação, eu simplesmente rio. Talvez por isso seja tão natural entender porque As Confissões de Schmidt se encerram com um sorriso (ou melhor,um meio-sorriso) de seu personagem principal. 8. Mas por outro lado o que se pode esperar a mais de um filme como esse a não ser um abraço afetuoso? Marcelo Ikeda (23/03/2003)
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