A INFINITA BUSCA DO ARTISTA EM SÃO JERÔNIMO


 

É muito difícil falar sobre São Jerônimo tendo-o visto apenas uma vez. Filme árduo, exercício de linguagem de um cineasta que sempre teve fôlego para construir e reconstruir uma proposta de um cinema verdadeiramente autoral. Na maturidade, Bressane faz um filme austero, sem nenhuma concessão ao grande público. Por isso, é um filme corajoso, que incrivelmente conseguiu ser feito aqui no Brasil. O filme pode ser dividido em três partes. 1) São Jerônimo e sua caminhada no deserto; 2) a ida para a cidade e o estabelecimento de sua missão; 3) dúvidas e exílio.

Na primeira parte, Bressane pouco se importa em fornecer as informações básicas ao espectador sobre seu personagem. O filme não o situa num espaço nem num tempo definido. Bressane se preocupa com o essencial: uma apresentação essencialmente subjetiva e acima de tudo cinematográfica. Á medida que Jerônimo percorre o árido deserto de sua existência, ele toma consciência de como é igual e diferente de seus companheiros. Degredo físico e espiritual, através das alucinações e das visões que espezinham sua caminhada despercebida, o contato com o espiritual no filme ocorre de uma forma austera que de certa forma dialoga com a metáfora da prisão do cinema bressoniano. Corpo seco e frágil, tormentos da alma, corte seco, linguagem árida que no entanto sutilmente nos põe em contato com a presença do espiritual na visão de Jerônimo. Outra influência de Bresson está no claro trabalho do som. Além da curiosa fusão de estilos diversos como a ópera, a múscia clássica e a batida tipicamente nordestina – fusão esquizóide que relembra suas combinações no melhor cinema marginal (o chorão brasileiro nas mortes de Matou a Família, por exemplo) –, existe toda uma influência dos ruídos naturais que transfiguram o sentido de uma realidade insensível aos delírios de Jerônimo. Por outro lado, há o Rossellini de Francisco, Arauto de Deus. Não na auto-paródia do grupo de religiosos ingênuos, e sim no uso da locação como forma de diálogo direto entre a natureza do homem e a natureza das coisas. Mas ao contrário de Bresson e Rossellini, Bressane não quer um estilo transparente, mas sim presente e afirmativo, pois, como veremos, o filme fala exatamente de um processo artístico de busca.

O filme por diversas vezes se torna um ponto de confronto entre o concretismo da palavra e a sugestão do som invisível. A verborragia monocórdica do monologuista do deserto também entra em choque com o discurso de desabafo das freiras no começo da terceira parte do filme. Recurso presentemente brechtiano, a imobilidade das mulheres, sua referência ao espectador enquanto falam na verdade para si mesmas, inaugura a difícil tarefa do isolamento necessário da vida para se atingir a alma.

Só na segunda parte reconhecemos a missão de Jerônimo: a tradução dos textos da Bíblia do seu original, em grego e hebraico. Daqui, dois recursos merecem rápida menção. O primeiro é a clara necessidade de Bressane de unir um discurso bastante antigo com um contexto que nos aproxime. Já vimos a música nordestina como elemento de fusão. Os diálogos são imersos nesse paradoxo. Às vezes nos aproximam da linguagem formal e polida de um texto literário, por outras, nos surpreendem com "vocês" e com claras liberdades vernaculares.

Mas é exatamente nesse ponto que surge a grande abordagem de Bressane. No fundo, o que nos interessaria retornar a São Jerônimo tendo em vista o Brasil de hoje? Ora, é justamente da dificuldade da tradução, da tarefa árdua de buscar uma missão quase impossível, no recanto sagrado do conhecimento e da dúvida, que se baseia a verdadeira tarefa de um artista. São Jerônimo, portanto, espelha a visão de Bressane do processo artístico. As dificuldades e as dúvidas no contato com a matéria-prima – o texto sagrado. E especialmente, o ponto destacado por Bressane á a tradução. Transposição de um mundo encurralado entre a necessidade concreta da palavra e a ânsia libertária do inconcrescível, São Jerônimo, o personagem e o filme, são imbuídos de um sentido de missão. Tradução de um mundo particular, mas necessário, a necessidade do diálogo com outrem (a importância do rabino que lhe ensinara hebraico), e especialmente a postura ética como indivíduo.

Se no começo o caminho de Jerônimo parecia coberto de elogios e recomendações, sua tarefa vai pouco a pouco se tornando mais e mais árdua. A dúvida de um amigo que lhe recomendara coroa a transição para a terceira parte. As dúvidas atingem as mulheres que o auxiliam. Artista solitário, Jerônimo recusa os apelos da carne e recusa o casamento, que nos distrairia de nossa principal função: rezar, rezar e rezar. Concentração absoluta mas nunca como espécie de fuga, e sim de encontro, nunca como um fim e sim como um meio, a oração é o ponto de contato do artista com o transcendente. E enfim, Bressane termina sua obra sem romantizar seu herói: sua busca permanece infinita, sem resposta, circundando o mesmo deserto de dúvida existencial que lhe absorvera desde o começo.

Nesse aspecto, o início do filme, sua auto-referencialidade, embora marque um contato com as descontinuidades típicas de seu cinema marginal, não representa uma ruptura e uma negação de um sentido, mas uma heróica tentativa de um encontro, o que resume as preocupações do filme. São Jerônimo se resolve na montagem, montagem não só de imagens mas também de som, com a interferência clara de um idealizador – o diretor, no cinema autoral de Bressane – que fornece uma unidade aos fragmentos aparentemente sem conexão. A auto-referencialidade, portanto, é o resumo das preocupações de São Jerônimo. Assim como seu protagonista, Bressane busca a tradução de um modelo de vida, do resgate aos princípios da Idade Média para a linguagem do cinema. Missão tão impossível quanto a de Jerônimo, é o processo de um artista buscando um lugar no mundo. Entre o isolamento típico de sua produção no cenário brasileiro, em meio à linguagem sem concessões de seu São Jerônimo, a chamada dos takes, o bip sonoro do DAT, as repetições, a presença da câmera que busca um enquadramento, mostram que o filme São Jerônimo também é um processo de busca que nunca se concretiza, porque o filme fala sobre uma busca, onde nunca se tem a certeza de que realmente se conseguiu achar o objeto procurado. Esse é o dilema da arte e do artista. Daí o final em aberto, corajoso, como uma via a ser perseguida por aqueles que realmente acreditam em um cinema como uma forma de purificação.

Marcelo Ikeda.

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