CASTELO RÁ-TIM-BUM : O PRIMO POBRE E O PRIMO RICO |
Era uma vez um garoto que tinha um primo rico. Os dois trabalhavam juntos. No fundo, ele tinha inveja daquele primo. Dizem que a diferença entre o pobre e o rico é que o pobre pode se esforçar, fazer tudo perfeito o tempo todo em sua vida, mas se uma única vez fizer uma bobagem, está perdido. Já com o rico, acontece o contrário: se uma única vez fizer algo certo, ele se salva. O rico pode viver na praia, às custas do pai, mas se aos trinta anos, ele resolve montar um negócio, acaba se dando bem. O primo pobre é bom, esforçado. O primo rico é preguiçoso. Mas o primo rico sempre se dá melhor que o pobre. Justiça? E o nosso mundo é justo? Como disse, o primo pobre tem inveja do primo rico. Vive dizendo que se tivesse o mínimo de condições seria muito melhor que seu primo. Vive dizendo que é melhor que seu chefe. Talvez seja mesmo. De vez em quando, o primo pobre vai a algumas festas do primo rico, e o constrangimento é grande. Ele não faz parte daquele mundo. Ele quer imitar os trejeitos do primo rico, conversar das mesmas coisas que ele conversa, usar as mesmas roupas, mas acaba sendo no máximo uma caricatura do primo rico. Ele se martiriza, divulga boatos conspiratórios, que seu primo rico não é de nada, que ele não entende de cultura. Provavelmente o primo rico ignora o primo pobre, não sistematicamente, mas involuntariamente. O que o primo pobre tem que perceber é que não adianta tentar procurar ser o primo rico. Ele deve buscar sua própria identidade. Ele nunca vai ser o primo rico. Não adianta. Mesmo que ele seja melhor, mais esforçado que o primo rico, ele não vai ter as oportunidades, ele vai sempre trabalhar pro seu primo, sempre vai ser empregado. É claro que ele não deve se conformar com isso, mas ele tem que procurar viver a sua própria vida. Ele tem que descobrir que ele tem determinadas características que seu primo rico não tem. O primo pobre sabe batucar, sabe contar piadas, tem mais senso de humor, por exemplo. E o primo rico tem outras coisas que o pobre não tem. Não adianta o primo pobre querer se vestir tão elegantemente quanto seu primo rico. Ele conversou com uma costureira que ele conhece, comprou o pano, ela bordou o símbolo da Victor Hugo na camisa dele. Mas quem conhece de moda sabe, olhando com uma ceta atenção, o que é e o que não é. É um botão de uma cor diferente, um fio que solta da estampa, é o cheiro do tecido. Se o primo pobre com aquele tecido fizesse uma fantasia totalmente original, talvez combinasse mais com ele. Ou até ele podia poupar o dinheiro pra comprar um novo repinique. Mas por que essa necessidade de imitar o primo rico? Por que tudo no Brasil pra ser bom tem que ter um padrão estético ditado pelo que se usa lá fora? E cultura é cultura, não é hamburger não. E todo mundo sabe que o autêntico Hamburger não se faz no Brasil, vem de fora... * * * * Catelo Rá-Tim-Bum, embora seja um filme infantil, é um filme autoral. Há um incrível trabalho de movimentos de câmera, atípicos numa produção do gênero. Surge até um quadro de Hitchcock, quando Nino resolve montar um plano com a turma. Mas no fundo, Castelo é um filme com uma visão de filme infantil bem hollywoodiana, para não dizer previsível. Por trás da belíssima produção, da cenografia encantadora, das boas representações, há um roteiro com inúmeros problemas, um filme que se alonga um pouco demais, com plot points meio duvidosos, e personagens que somem no meio do filme sem quaisquer explicações. Em termos de produção, o filme é quase perfeito. Mas a autoralidade desse espetáculo barroco é claramente desnecessária para as crianças. Daí pergunta-se: qual é o público de Castelo Rá-tim-Bum? As crianças? Mas que tipo de crianças? Numa hora, um menino passa sua mensagem para a turma através de um e-mail. E qual é a pocentagem de crianças no Brasil que conhecem um e-mail? Além disso, em sua mensagem, o encontro era "à noite", isso mesmo, com crase e tudo. Essas crianças de hoje... tão prematuras... Na temática, o mais interessante no filme é que Nino quer ser um garoto como qualquer outro, ele não quer ser diferente como seus tios bruxos. Ele se sente solitário, e temeroso de não conseguir ser um mago tão bom quanto sua tia e seu tio. Um momento memorável acontece quando Nino dorme na casa de seu amigo. No dia seguinte, quando Nino toma o café da manhã, ele percebe as pessoas olhando depreciativamente para suas roupas, e por um instante sentimos a humilhação e a diferença de perspectivas. Logo em seguida, um instante bobo se torna mágico: ele finalmente toma seu ambicionado café-com-leite. E o melhor: naturalmente não acha nada demais na mistura. No final, o filme mostra que a síntese é possível. Nino consegue fazer amizade com os garotos, que o ajudam em seu plano, e ainda consegue se tornar um mago de verdade, escrevendo em seu livro. Com isso, ele retoma a tradição dos bruxos, respeitando suas origens. Ele prova que é um garoto como qualquer outro, sem negar suas diferenças, sua própria identidade, sua origem de bruxaria. É pena que na estética o diretor não faça como seu personagem, não busque a identidade do cinema de seu país, que, queiramos nós ou não, é a nossa identidade...
Marcelo Ikeda. |