TRADIÇÃO E MODERNIDADE EM A QUINTA ESTAÇÃO |
O cinema iraniano recente parece ser um bom filão, conquistando os mercados internacionais. A nova geração de cineastas iranianos quer seguir o caminho deixado por esses filmes. Nesse sentido, A Quinta Estação faz parte de um cinema iraniano mais convencional, sem as fragmentações típicas de um Kiarostami, mas apreciando a dignidade de uma população rural aos moldes do neo-realismo. No entanto, Rafi Pitts trabalhou na França, com diretores como Leos Carax. Por isso, já se pode perceber um maior rigor no enquadramento, um certo uso do silêncio e um ligeiro toque de dilema existencial que permeia a metade do filme. Não por acaso, os toques franceses de A Quinta Estação são o pior do filme. No início, a câmera de Pitts trata o casamento quase como um ritual exótico. A exaltação do exotismo como forma de conquistar o público de fora do Irã cria uma atmosfera que destoa do clima despretensioso das produções iranianas. Quando o diretor abre seu coração e trata o drama de Karamat e Mehrmanou como sendo o mesmo, é que o filme conquista a platéia com sua simplicidade comovente. Aí sim vemos o cinema iraniano. O ônibus passa ao longe, e vemos no meio do caminho Mehrbanou com um punhado de galhos, observando a poeira que as rodas do veículo levantam. Mas a grande questão levantada pelo filme é entre tradição e modernidade. A chegada do ônibus modifica os costumes da cidadezinha. A nova tecnologia sem dúvidas reduz a longa caminhada dos habitantes, mas até que ponto ela foi saudável para a população? Como dretor iraniano, mas formado na Europa, Pitts julga ser o tema essencial da cultura iraniana. Trata o assunto de forma leve e despretensiosa, algumas vezes caindo até numa comédia desnecessária. Em outras, o filme possui um certo lirismo. A cena em que mais claramente esse conflito se apresenta é quando o ônibus alcança a pobre carroça no meio da estrada. O cavalo e o homem com as rédeas se tornam um só, impotentes para resistir contra a máquina. Bela seqüência. Mas ela também falha: vemos quando a gasolina acaba, ou quando o motor quebra. Tudo o tempo transforma, e Pitts trata de forma sensível a lenta reaproximação dos dois inimigos. Cena especialmente marcante é quando o rapaz se arruma com sua melhor roupa para visitá-la e recebe um banho de água. A mesma água que será revisitada quando, à beira da fonte, ela o observa dormindo e entorna o vaso de água. Na roupa bonita novamente está presente o conflito da tradição e da modernidade. Vemos também o túmulo distante do velho que morrera de infarte logo no início do filme. Vemos como ela ama a terra e cuida dela, melhor que do próprio irmão... O final é particularmente comovente, singelo e sugestivo como a maioria dos filmes iranianos. O maior voto de otimismo de Pitts é quando o ônibus pára para receber a velha ranzinza que fora em busca do rapaz desaparecido. Ela não é orgulhosa, e aceita a ajuda, subindo no veículo. Nesse caso, o veículo foi útil, agilizando a ajuda no meio da estrada. Ela entra, a porta se fecha, e vão, agora, os três, em busca do rapaz que não quis se casar no começo. Tudo fica claro, mas sem ficar explícito. È um long take e um long shot. Natureza e homem integrados. Tempo e espaço. Tradição e modernidade. O iraniano europeu pode dormir sossegado: seu filme encontra um bom meio-termo, sem ferir as tradições íntimas do seu berço, mas apimentando com sua visão européia. O ônibus segue pelo caminho, até quase desaparecer por completo. Final simples, já repetido à exaustão, mas que é ao mesmo tempo, um belo voto de otimismo, de fé no coração dos homens. Nada mais precisa ser dito. Eles se encontram no infinito, quando as luzes se acendem e nós, os espectadores, saímos do cinema em direção ao mundo... Marcelo Ikeda. (em 14/08/2000) |