ALGUMAS COISAS SOBRE QUASE NADA


 

O cinema brasileiro recente tem produzido uma boa safra de filmes acentuadamente psicol�gicos. � o caso de Estorvo e Atrav�s da Janela, por exemplo. Quase Nada, nesse sentido, surpreende por ter uma vis�o de cinema mais madura do que os filmes anteriores de S�rgio Rezende. A linearidade da estrutura narrativa dos seus filmes hist�ricos cede espa�o agora a uma vis�o contundente e atual de um Brasil interior, isto �, longe da efervesc�ncia e da badala��o da dita (p�s-)modernidade e num tempo aparentemente indefinido, mas t�o atual e central como nunca.

O formato de tr�s hist�rias permite afirmarmos de forma ainda mais incisiva a inten��o do filme de promover um certo painel das rela��es sociais em um espa�o f�sico, que apenas aparentemente parece dissociado de nosso mundo di�rio.

Na forma, Quase Nada apresenta-se (a princ�pio) como um filme contempor�neo. O t�tulo � de fato bastante sugestivo, j� que no filme o que n�o � visto ou dito adquire igual (ou at� maior) import�ncia ao que nos � revelado. O tom psicol�gico � refor�ado pela "presen�a de uma certa aus�ncia", num tom monossil�bico e reticente. A montagem tamb�m � trabalhada de forma a marcar o ritmo com o corte seco, al�m de fornecer in�meras elipses temporais, tornando mais amb�guo o tratamento do tempo. De fato, nos tr�s filmes a grande mola propulsora da mudan�a de comportamento dos personagens � a ang�stia pela informa��o incompleta. A d�vida se mistura com a mentira, o passado se mistura com o presente para apontar um futuro que parece angustiantemente (sic) certo. A antiga proximidade do outro � agora transformada num abandono do hoje, de modo que a solid�o refor�a o tom psicol�gico do filme, problematizando uma percep��o do presente, que n�o seria exagero se nos refer�ssemos a Bergson. No primeiro epis�dio, � a antiga proximidade do compadre que torna incompreens�vel a ruptura das mentiras do hoje; no segundo, � o distanciamento f�sico absurdo de hoje em contraposi��o � proximidade asfixiante de ontem que torna a presen�a do estranho hoje t�o pr�xima. No terceiro, � o abismo emocional do homem em rela��o a mulher que o torna t�o dependente dela. Jogando com o tratamento do tempo, ou melhor, problematizando um tratamento psicol�gico da percep��o do tempo e do distanciamento entre personagens mais e mais obsessivos (distanciamento inclusive deles mesmos), Rezende busca uma forma narrativa mais ousada que seus filmes anteriores. Mas com isso, nunca busca uma forma experimental, mas, pelo contr�rio, mant�m-se fiel � sua proposta de promover um certo di�logo com o p�blico. Quase Nada de forma alguma passa pela alcunha de exerc�cio pretensioso, mas se assume como um filme menor, no melhor sentido da express�o (vide o pr�prio t�tulo do filme...).

No primeiro epis�dio, est� presente um amb�guo tom social. � curioso lermos esse epis�dio tendo em vista o cinema novo, p ex o psicol�gico em Os Fuzis. Em Quase Nada, a desigualdade est� impl�cita na cabe�a do homem, mais do que propriamente calcada em rela��es estritamente econ�micas. Mais propriamente do que o impl�cito poder recebido para controlar a falta dos funcion�rios, est�o a inveja, a desconfian�a, a vingan�a. A desigualdade, portanto, parece ser intr�nseca � natureza do homem.

O terceiro epis�dio, o mais irregular, trabalha com elementos um tanto desgastados: a delicadeza do homem carrancudo com suas flores, a mulher abandonada que se revolta. No entanto, a estrutura do filme em flashback insere um componente novo que, paradoxalmente acentua o suspense a refor�a a ambiguidade do tratamento do tempo. Nesse, o ci�me e a diferen�as de perspectivas. A trai��o e o medo de ficar s�.

O segundo � o mais acentuadamente psicol�gico. O medo do que n�o � visto atinge o seu limite. A obsess�o em espiral, a utiliza��o do espa�o f�sico, a bela e concisa cena da chegada em um carro do dono da fazenda (interpretado pelo pr�prio Rezende), os aut�nticos di�logos com o garoto que busca o leite, refor�am a estrutura do filme.

No entanto, nos pequenos detalhes � que Quase Nada quase se trai. Em princ�pio, deve-se ressaltar a capacidade de Rezende de continuamente se manter ativo, realizando filmes com uma produ��o claramente caprichada. A fotografia e o som de Quase Nada s�o exemplares. Ainda assim, algumas solu��es s�o muito redutoras. No primeiro epis�dio, o conflito entre os dois homens possui uma prepara��o um tanto for�ada. Para que uma amizade de tantos anos se revertesse em tamanho �dio, creio que os acontecimentos deveriam ser mais dr�sticos. Algumas tomadas de ponto-de-vista me incomodaram. Por exemplo, quando o policial chega � fazenda no segundo epis�dio, a c�mera fren�tica se torna aut�noma, fugindo do ponto-de-vista de quaisquer dos personagens envolvidos, sem que o movimento efetivamente contribua para a a��o. No terceiro epis�dio, o rapaz olha no meio da mata para os policiais. Plano ponto-de-vista: as �rvores e o policial caminhando. Assustado, o rapaz sai. O policial novamente � mostrado com o mesmo plano ponto-de-vista anterior, injustificado porque o rapaz j� se fora do lugar. Em outras cenas, faltou um cuidado maior na sua realiza��o. A cena da chegada do policial no segundo epis�dio me pareceu extremamente artificial e for�ada. Com a presen�a da esposa, o policial rapidamente muda sua posi��o inexplicavelmente agressiva em demasia. No terceiro, a cena em que o marido desfere o golpe derradeiro na esposa � quase primitiva: o corte est� fora de sintonia. No segundo epis�dio, a loca��o da igrejinha � desastrada: a igreja est� nova demais (p ex, pintura estalando) para estar naquela regi�o abandonada. No terceiro epis�dio, a nudez da atriz � beira do rio � desnecess�ria. A atua��o de alguns atores tamb�m desagrada. H� alguns erros de continuidade de luz, e no segundo epis�dio, quando o estranho pula da cerca longe do fazendeiro, ele cai demasiadamente pr�ximo a ele.

Esses detalhes n�o tiram o m�rito do filme de Rezende, mas por vezes irritam o espectador mais atento. Em geral, a escolha de loca��es � bastante acertada. No terceiro epis�dio, a casa do casal � brilhantemente decorada. Na parede, h� um quadro com uma flor rosa, enquanto o quarto ao fundo tem suas paredes pintadas de rosa. Num momento de discuss�o, na parede surge um quadro com um navio numa tempestade, e o quarto ao fundo � azul. Em espcial, deve-se destacar o bel�ssimo uso do som no filme, sem d�vida, o trabalho mais expressivo a ser ressaltado no filme. Enfatizando a id�ia de que no filme o que n�o � dito � �s vezes mais importante do que o que � dito, o som, especialmente no extracampo, � sempre trabalhado no sentido de fortalecer um suspense. No primeiro epis�dio, as brilhantes foices refor�am a desumaniza��o. No segundo, o sil�ncio � cortado com o zunido fino de insetos e moscas. Al�m de brilhantemente concebido, o som � executado de forma ainda melhor. Os recursos do som est�reo s�o trabalhados de forma criativa, e numa boa sala, podem ser ouvidos perfeitamente.

Por fim, se S�rgio Rezende deve ser elogiado por apresentar um tratamento do tempo amb�guo, � de se lamentar que os finais de cada epis�dio sejam t�o restritivos. Ao contr�rio desse cinema que chamo de contempor�neo, que deixa cada vez mais em aberto as solu��es (vide o final de Eu, tu, eles ou Atrav�s da Janela), Rezende d� um sentido completo a todos os finais, seja a morte ou a pris�o. Especialmente no segundo epis�dio, a solu��o simpl�ria incomoda. O que na verdade nos informa que Rezende ainda guarda os resqu�cios de um certo tipo de f�rmula narrativa.

Marcelo Ikeda.

(em 01/09/2000)

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