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1. Após dois filmes ambiciosos como A. I. e Minority Report, é natural que o próximo filme de Spielberg seja leve e despretensioso. Mas Prenda-me se for capaz tem muito em comum com os dois trabalhos anteriores de Spielberg. São sinais de um cineasta consagrado, na maturidade, prova de seu prazer em filmar, de uma visão límpida, de uma ideologia puramente americana, mas claramente pessoais e reflexivos. São um misto do Spielberg moço e do Spielberg velho. São filmes de maturidade. 2. O principal ponto em comum com A. I. e Minority
Report é o tema da ilusão. O robô de A.I. não tinha vida, era
simplesmente uma máquina. Era mesmo? O policial de Minority Report estava
condenado por uma previsão, algo que não chegou a acontecer. Estava
mesmo? Até que ponto as ilusões, as expectativas, são reais? Até que
ponto podemos mudá-las? Em Prenda-me, Di Caprio é um falsificador.
“Diga-me como você passou no exame da ordem dos advogados?” “Eu
estudei duas semanas e passei” “É verdade mesmo?” 3. Di Caprio é um falsificador. Ele falsifica a si
mesmo. Ele cria uma ilusão: precisa ser o advogado, o médico, o piloto;
precisa ser aquilo que os outros querem que ele seja. Ele precisa ser
bem-sucedido: ele quer ser o segundo rato, ele não quer ser como o seu
pai, ou melhor, não quer aceitar que seu pai possa ser o primeiro rato.
Ele então cria um mundo de ilusão, vive num castelo de cartas, ele
precisa guardar essa mentira para si mesmo, talvez com medo de não poder
ser o que se espera dele. 4. Di Caprio é uma criança. É tão ingênuo quanto
o robozinho de A.I, quanto o policial de Minority Report. Os roubos são
filmados como uma grande travessura, como típico da natureza do cinema.
Eis a cena em que na banheira do hotel surge uma dezena de aviõezinhos da
Panam, cujos selos Di Caprio irá usar em seus cheques falsificados.
Imagem-síntese. Surge uma criança do outro lado da vidraça da nova casa
de sua mãe, no instante em que Di Caprio é preso pelos policiais.
Imagem-espelho do rosebud de Cidadão Kane, fissura entre o interior e o
exterior. 5. Prenda-me é um filme sobre a ética. O personagem
principal do filme é Tom Hanks, e não Di Caprio. Os fins nunca
justificam os meios: é necessário não apenas que Hanks encurrale Di
Caprio, mas que sua captura seja ética. Não se pode liquidar o adversário
com as armas deste; prendê-lo a qualquer custo significaria trair tudo
aquilo em nome do que se censuram as travessuras de Di Caprio. No avião,
Hanks pergunta a Caprio como ele conseguiu passar no exame da ordem dos
advogados. “Respondo se você me der a metade desse pão”. Hanks o
come inteiro. “Mais cedo ou mais tarde eu descubro a verdade”. Sobre a
ética e sobre o papel do tempo. 6. Assim como seus dois filmes anteriores, Prenda-me
tem uma transformação quase inacreditável: Di Caprio não quer mais
fugir, ele retorna ao escritório do FBI após aquele final de semana. Mas
ao contrário de A.I e Minority Report, a transformação, o impossível,
agora não são mais sinal de fé, não são fruto de uma iluminação
redentora ou profética. Spielberg não precisa mais de um deus ex
machina: ele finalmente se convence de que a redenção também pode ser
possível pelo rumo natural das coisas. Eis o que torna os quinze minutos
finais de Prenda-me de uma maturidade impressionante. 7. Sim, porque os quinze minutos finais de Prenda-me
são ambíguos. Di Caprio aceita ajudar o FBI a desvendar falsificadores
em troca de sua saída da prisão. Mas e o escritório do FBI, é
diferente? “Até quando tenho que ficar aqui?” “O expediente é de
7:45 às 18hs, com 45min de almoço”, responde Hanks. A porta da nova
sala de Di Caprio se fecha, ele se vê atrás de uma pilha de processos.
Eis que num fim de semana, Di Caprio finalmente tem a chance de retornar
à sua vida de foragido, eis que tudo se esclarece. E essa alternativa,
também é diferente? “Desta vez, não haverá ninguém mais a te
seguir”. Como é possível ser livre, livrar-se de tudo, se não for
para viver num castelo de cartas? Sim, tudo se esclarece: Prenda-me
revela-se um pequeno ensaio sobre a liberdade. 8. Dizer que Prenda-me se for capaz é uma apologia
ao crime, que sua moral é que “o crime compensa” é o mesmo que dizer
que a moral da parábola do filho pródigo é que “a vagabundagem
compensa”, quando de fato quer-se dizer o contrário. Pode-se dizer de
fato que Prenda-me é moralista, como típico filme americano, mas nunca
que ele é imoral. Pode-se apontar o didatismo e o psicologismo redutor em
que o filme esbarra, pode-se dizer muitas coisas sobre Prenda-me, menos
uma: a de que o filme não persegue uma ética. Para Spielberg, por incrível
que pareça, é o suficiente. 9. Será que ninguém notou que Prenda-me é um filme gay? Que todas as mulheres do filme são vistas com desconfiança, são traidoras? Ao final, a cartela que fala que Hanks e Di Caprio se “tornaram grandes amigos” é quase igual à eterna piada em relação ao final de Casablanca. Também ninguém notou que se trata de uma refilmagem de Eu só quero que vocês me amem, do Fassbinder? Marcelo Ikeda (21/02/2003) |