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O cinema brasileiro anda numa grande carência de comédias. O gênero, que desde sempre agrada o público, está em baixa no cinema brasileiro de hoje, com produções em geral medíocres. Embora não necessariamente escape desse formato, Por Trás do Pano é uma surpresa, porque escapa ao mau gosto que envolve tais produções. Apesar de algumas falhas de estrutura do roteiro, que precisaria ter mais alguns tratamentos para ser mais desenhado, e ter seus pontos de virada melhor trabalhados, o filme convence, pelo tratamento original da trama, pelo bom gosto, e bom desempenho dos atores. Apesar da decupagem quase televisiva, o filme tem o uso criativo na decupagem em cenas em que o cotidiano dos atores ocupa o espaço do palco, quando os dois atores principais da peça contam ao outro suas confidências amorosas do cotidiano. O que torna o filme mais interessante no panorama do atual cinema brasileiro é uma grave descontinuidade que o torna um filme em muitas medidas sarcástico e cruel. O filme conta a história de uma atriz novata que recebe o convite para trabalhar com um ator-autor bastante renomado. Aos poucos, vamos conhecendo o lado perverso do autor, seus problemas na vida pessoal e profissional. Num certo ponto, ele não aceita receber críticas por uma certa acomodação do seu trabalho, por estar no "piloto automático", e passa a ter uma postura radicalmente agressiva, tumultuando completamente o ambiente de trabalho. Torna-se uma pessoa obsessiva, egoísta e esquizofrênica. Com isso, o filme invade num tema que os realizadores brasileiros preferem evitar a qualquer custo, mas que é extremamente íntimo do cinema brasileiro: a idéia de fracasso e o rancor em ter que se olhar no espelho. O filme torna-se desnecessariamente rancoroso, e o par principal, quando tudo levava a crer que acabariam juntos, torna-se quase inimigos. A forma final com que conseguem um equilíbrio não convence a ninguém. É uma comédia que acaba com um tom amargo. No contato entre a menina talentosa e novata e o diretor experiente, renomado mas frustrado, o filme toca num ponto central ao cinema brasileiro de hoje. Como o contato é possível sem haver uma subordinação? O filme conclui sem uma possibilidade definitiva de que seja possível. Por Trás do Pano envolve a questão dos ensaios, tendo uma perspectiva de certa forma metalinguística, que poderia ser mais explorada pela direção. Ainda, o final é sugestivo, que torna o filme ainda mais reticente. Em geral, esperar-se-ia como típico final o desenrolar da apresentação, que seria recebida com palmas do público, e as pazes definitivas dos dois atores. Mas não. Villaça preferiu acabar o filme com a entrada dos dois atores no palco. Os dois seguem um gesto de bater no chão, que se torna ao final, semi-ritualístico. Os dois se olham com uma certa cumplicidade, mas seus destinos estão abertos. Final ambíguo, que deixa um certo mal-estar na garganta do espectador, que ainda mais se identifica com os rumos do atual cinema brasileiro. Marcelo Ikeda (22/07/2002) |