- Fassbinder, conhecido por revelar a transformação intrínseca da sociedade
alemã frente o grande impacto causado com a Guerra Mundial, preferiu compor um drama
atemporal, bastante centrado na vertente psicológica de suas personagens, sem qualquer
relação direta com o fenômeno histórico.
- Deste ponto de vista, As lágrimas são um Fassbinder atípico, sem
interesse na Alemanha do pós-guerra, mas, a fim de compor os elementos que caracterizam o
filme, Fassbinder utilizou elementos e evidenciou características bem peculiares à sua
filmografia.
- Para conseguir sobreviver neste mundo frio e desumano, é preciso, inclusive, ir
contra qualquer concepção moral existente, utilizando um comportamento tipicamente
utilitarista. Em filmes como O casamento de Maria Braum (onde a guerra conduz à
prostituição) ou Lili Marlene (a aliança com os nazistas como forma de manter
privilégios), Fassbinder transforma a visão de mundo de suas personagens - geralmente
femininas - para que possam se adaptar a uma realidade totalmente diferente, ou seja, a
ordem material impõe uma mudança ideológica. O mesmo acontece com As lágrimas,
quando comprovamos o senso desumano e utilitarista de Karin em contraste com a apatia e a
dependência de Petra. Aquela é melhor vinculada à ideologia dos novos tempos: Karin é
livre, vai a Frankfurt de avião, sai à noite para dançar e volta já no outro dia,
telefona, conversa e conhece várias pessoas. Entretanto, Petra é uma solitária, uma
ultrapassada, que vive das mágoas de um passado irreversível e apenas passa sua vida
trancafiada voluntariamente num tipo de prisão domiciliar que é o seu próprio quarto.
Embora seja famosa e muitas pessoas escrevam-lhe cartas e a parabenizem pelo (monótono)
sucesso de sua nova coleção, Petra continua absolutamente sozinha, enclausurada em seu
castelo de lamentações e de necessidades inatingíveis, e apenas tem para sua companhia
uma pessoa totalmente ausente, neutra e impassível a todo tipo de acontecimento que se
passa no ambiente e, inclusive não lhe dirige uma única palavra, que é sua própria
empregada. Petra lhe confere um tratamento totalmente apessoal, como se ela não fosse uma
pessoa, mas uma coisa, um robô, um simples objeto.
- No fundo, a dependência que Petra sente em relação a Karin está relacionada
com a inveja, a possibilidade de ver em seu lado o seu complementar, de ver em uma pessoa
concretizados os fundamentos que lhe faltam e que lhe parecem impossíveis de ser
atingidos por sua própria pessoa. Karin é portanto o complementar de Petra, isto é, se
Petra fosse perfeita, ela seria como Petra + Karin seriam. Portanto, Karin seria a
realização de todos os grandes sonhos de Petra e, por isso, era-lhe fundamental ter
Karin sempre ao seu lado, pois seus sonhos estariam realizados, mesmo que exteriormente a
Petra. Na verdade, as duas pessoas teriam que ser uma só, para que Petra pudesse se
sentir realmente completa e, para isso, Petra teria que dominar Karin, dominar-lhe por
completo, para que suas vidas se fundissem de tal forma que se complementassem e a única
solução seria ficarem juntas para sempre, o possível e o impossível. Deste modo,
estaria Petra realizando o mais profundo dos seus sonhos.
- De uma dependência psicológica, houve a necessidade de uma dependência
física, para que as duas realmente pudessem se fundir. A saída foi a paixão: é claro
que Petra amava Karin, pois ela amava seus sonhos, e via em Karin a possibilidade de se
concretizar a sua verdadeira felicidade.
- Note que, aparentemente, Karin era pior que Petra e, por isso, não seria muito
difícil manipulá-la para atingir seus objetivos. Enquanto Petra era uma pessoa rica,
famosa, bastante inteligente e independente, que subiu em sua carreira por seus próprios
méritos e sem se submeter a caprichos de ninguém, Karin era pobre, marginalizada, que
nunca tivera sorte na vida, de certa forma bastante vulgar e grosseira, utilitarista ao
extremo, que não tinha preocupações psicológicas ou filosóficas quanto à vida, que
não gostava de trabalhar ou fazer esforço para aprender qualquer coisa (ela desistiu do
curso de modelo pago pela própria Petra), uma mulher que pensa apenas no prazer imediato,
praticando orgias sexuais apenas pelo instante do prazer, seu instinto animal ( "fui
para a cama com um homem negro e grande com um pau negro e grande" ou "os negros
têm lábios quentes e grossos"), bastante burra e inculta, cometendo constantemente
erros de gramática e abusando do palavreado chulo, além de ter um senso absolutamente
sarcástico e ser notadamente aproveitadora. Karin era a mulher que a tímida e
introspectiva Petra queria ser: livre, autêntica, bonita e cobiçada pelos homens, que
não se engana ou se entrega, mas sem abandonar o sucesso de sua carreira, sua classe, sua
arrogância (que ela julga ser clássica para os "grandes artistas"), sua
sensibilidade e sua brilhante formação cultural.
- Petra, desiludida com a derrocada de seu último casamento, precisava se
apaixonar por uma pessoa que a completasse e que a admirasse a ponto de considerá-la uma
mestra ou uma deusa. A solução foi a aparentemente ingênua Karin, mas tudo veio a se
transformar por completo, quando Karin explorou a necessidade de Petra em mantê-la e
reverteu o quadro. Na verdade, Petra, a melhor, a culta, a educada, que recebe elogios, é
a pior, a que tem os maiores problemas e não sabe como resolvê-los. Karin não se
importa com estas questões, ela é tão inculta, tão mesquinha, tão inútil, que tem
outras preocupações; ela se importa apenas com sua própria diversão, no seu presente,
e engana Petra com um jogo de palavras ambíguo, atingindo-a com meias-verdades. Quando
Karin acorda, mostra-se totalmente despreocupada na cama, enquanto Petra mostra
preocupação em torno do futuro de Karin, traçando-lhe planos para o curso, Karin apenas
lhe responde "se você acha melhor que eu volte, ...". Uma completa
indiferença, uma apatia a estas questões, ela apenas quer ler a sua revista e tomar seu
copo de gin, enquanto se espreguiça e tenta arranjar forças para se levantar. Ela tem
outras coisas mais importantes para fazer, deve encontrar o marido, matar-lhe as saudades,
ela "precisa de um homem, apenas que seja para usá-lo".
- Assim, pelo próprio temperamento de Karin, o equilíbrio não se mantém, ele é
imcompatível. As próprias características de Karin que Petra invejava não lhe
permitiam que ela se subordinasse passivamente a Petra como esta desejava, criando uma
incompatibilidade. A trajetória muda totalmente seu eixo, pois não é Karin quem precisa
da ajuda de Petra para subir na vida, como Petra pensava, mas exatamente o contrário: é
Petra quem precisa desesperadamente da ajuda de Karin e, assim que ela percebe isto, Petra
passa a ser uma escrava das vontades de uma cruel Karin.
- O filme começa com Petra dando centenas de ordens, usando o imperativo, à sua
empregada e esta as cumpre sem hesitar. Quando sua filha a pergunta o porquê de um
tratamento tão sórdido, o que a empregada havia lhe feito que pudesse justificar tal
postura, Petra responde que ela merece ser tratada assim, ela não merece a felicidade, e
que nem quer ser tratada de outra forma. Petra a humilha, pois sabe que a empregada tem um
certo vínculo com Petra que não pode ser apagado, isto é, as circunstâncias fizeram
com que a empregada criasse uma certa dependência que Petra conhecia muito bem. Petra
dominava, portanto, a empregada por completo.
- Um caso bastante semelhante aconteceu com Petra e Karin. Note que, após o
primeiro corte da câmera, quando Karin acorda já instalada no quarto de Petra, se repete
basicamente o mesmo cenário da primeira seqüência. Karin agora assume o papel que antes
estava reservado a Petra, isto é, é Karin quem agora dá ordens a uma obediente Petra.
Karin acorda já tarde, bastante desanimada e cansada, e lança várias seqüências de
ordens, sempre no imperativo ("busque mais um copo de gin", "telefone para
o aeroporto e marque uma reserva para mim", "dê-me 500 para minhas
despesas") e Karin trata Petra com o mesmo tom sarcástico que Petra fazia com a
empregada ("sim, com um homem, um negro", "você quer saber como ele era na
cama?", e especialmente "você quer que eu lhe conte mentiras, você não
agüenta a verdade? Bom, então, eu não estava com homem nenhum, apenas andei pela cidade
sozinha e fiquei pensando em nós duas"). Entretanto, Petra é uma fraca. Enquanto a
empregada mantinha sua expressão e sua neutralidade inabaláveis, Petra chorava bastante,
se ajoelhava, pedia perdão, tenatava em vão convencer Karin que ela era pior que Petra,
rastejava aos pés de uma Karin inatingível.
- A partir de então, a degradação moral de Petra chega a tal ponto que ela se
esquece do dia de seu próprio aniversário e parte para uma tentativa oposta: isolar-se
ainda mais das coisas do mundo, renunciando a ele. Por isso, a embriaguez acima do
suportável, a esperança de um simples telefonema de Karin ( note que a coisa mais
insignificante para Karin poderia valer a própria vida de Petra), o terrível tratamento
dado à empregada e, inclusive à sua família, às únicas pessoas que ainda lhe
estimavam, principalmente sua filha, que quando revelou à mãe estar apaixonada, esta
reagiu com desprezo, ridicularizando-a, e sua mãe, acusando-a de ser um puta, apática e
aproveitadora. Petra havia chegado a conclusão que, como sua tentativa de se aproximar do
mundo, realizando seus sonhos foi frustrada, a única solução que lhe restava era se
afastar dele, negando a sua existência e expulsando todos de seu convívio.
- Após o ápice do desespero, Petra volta à apatia de sua condição inicial, e o
filme prossegue exatamente no mesmo ponto que começou e Petra resolve recomeçar, tentar
se reaproximar do mundo e, para isso, usa uma Karin "mais perfeita", que
entendesse melhor suas mágoas e seus problemas e que fosse totalmente dependente a ela,
que se submetesse a todas as suas vontades. Para isso, ela se desculpa com a empregada e
tenta fazer dela uma nova Karin, mas esta se recusa e toma uma atitude aparentemente
incompreensível, simplesmente vai-se embora. Mas a dependência se acabara com este ato
e, com o reconhecimento a empregada não mais precisa de Petra.
- Este ato paradoxal nos remete a um outro conceito enfatizado por Fassbinder em
sua obra, que é a questão das diferenças e semelhanças entre a felicidade e o
sofrimento. Lembre-se da passagem já citada em que Petra diz a sua filha que a empregada
merece ser tratada desta forma e que é exatamente como ela espera e deseja ser
tratada. Petra prossegue "Ela é feliz assim", isto é, a empregada só consegue
ser feliz sofrendo e esta é uma das possíveis ( e talvez mais simplória)
interpretações dadas à mudança da empregada.
- Acresecentando às semelhanças entre o comportamento da empregada e o da
própria Petra, ao ser humilhada por Karin, pode levar à conclusão de que a idéia
anterior pode ser inferida à própria Petra. Karin diz a Petra "Você merece sofrer
como está sofrendo, você prefere a tristeza à felicidade". Petra reage "Isto
não é verdade; eu prefiriria mil vezes ser feliz", mas Karin insiste "não,
você prefere a tristeza". Karin está absolutamente certa em sua observação, pois
é muito mais cômodo decidir ser triste, a tristeza é uma opção onde não há riscos
para a decepção e o fracasso. É preciso ter bastante coragem para escolher a felicidade
ao invés da tristeza, pois a busca requer um trabalho árduo, cujas recompensas são
incertas e duvidosas. Entretanto, escolhendo a tristeza, uma inércia infinita, a vida se
torna mais fácil, não há tantos riscos a serem tomados, apenas basta para Petra
continuar em seu aposento escuro ( note que, no começo do filme, quando a empregada tenta
lhe abrir pelo menos as persianas, Petra lhe responde "vamos, não seja tão
cruel"). Por mais estranho que possa parecer, a escolha pela felicidade como meta
não é tão óbvia como parece à primeira vista. A tristeza é um caminho onde a
incerteza e a decepção não tem vez e, portanto, de certa forma, Petra é feliz pois
escolheu a tristeza e foi bem sucedida, pois realmente é triste. É uma escolha mais
cômoda e que envolve menos riscos, portanto a relação entre tristeza e felicidade para
Petra e a empregada se torna bastante problemática, pois não são, de forma alguma,
conceitos totalmente antagônicos.
- Digno de nota é o presente recebido de Petra por sua irmã: uma boneca. Perceba
que, se olharmos bem para a boneca, esta parece ter a fisionomia de Karin, talvez pela
própria obssessão de Petra em sua imagem, ou talvez com a empregada (que inclusive leva
a boneca quando vai embora), que carrega uma maquilagem excessiva que a faz parecida com
uma boneca, ou ainda pareça com a própria Petra, vestindo, na ocasião, um vestido
propositalmente exagerado, uma embalagem plasticamente perfeita que contrasta
vigorosamente com sua desilusão interna. A boneca, embora com um rosto perfeito, está
inerte, sem vida, é, no fundo, uma farsa, uma representação esteticamente bonita de um
objeto totalmente sem vida.
- Fassbinder, para representar os dilemas que atingem Petra ( e que talvez ela nem
queira resolver, preferindo o sofrimento), usa uma estrutura basicamente teatral, com
pouquíssimos personagens, em torno de um ambiente único, que é o próprio mundo de
Petra: o seu quarto magnificamente bem decorado ( note o belíssimo quadro que preenche
toda a parede com ampla liberdade de corpos - estão nus - e principalmente grande
liberdade de movimentos) que abriga uma Petra bastante amarga, solitária e morta. Petra
se recusa a sair de seu aposento ( todo o filme se desenvolve no aposento) e o filme é
centrado especificemente em seus pontos de vista. Marcante a profundidade que permeia a
inquietante tilha sonora que acompanha praticamente todo o filme: o silêncio.
- A tentativa de aplicar a Fassbinder o rótulo de um sub-Bergman, por retratar a
degradação e os dilemas psicológicos das personagens, é, de certa forma indevida, pois
o diretor continua fiel a uma temática bastante explorada em sua filmografia: como
mulheres, para poder sobreviver, se afastam do padrão moral admitido como padrão e
embarcam num utilitarismo destrutivo, impulsionadas por mudanças na visão de mundo.
Entretanto, semelhanças com o mestre sueco não podem ser desprezadas, principalmente com
Gritos e Sussurros, desde a simplicidade e a teatralidade da concepção da narrativa, o
fato de as personagens serem mulheres, a degradação moral, um único ambiente como
cenário natural do filme, o isolamento e a incompreensão.
Marcelo Ikeda. |