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1. Grande filme. Por quase uma hora de filme, Pep� le moko faz uma cartografia de Casbah, o reduto argelino. T�o � moda das favelas do nosso Rio de Janeiro, com uma arquitetura aguda e de corredores falsos e estreitos que n�o sem exagero nos remete ao Gabinete do Dr. Caligari, acompanhamos a opulenta lideran�a de Pep� le moko, o personagem eternalizado por Jean Gabin. Sua lideran�a, sua liberdade, seu equil�brio. 2. Mas com uma hora de filme, um incidente revela as
verdadeiras inten��es do filme. � quando Pierrot cai numa armadilha
preparada por R�gis, um espi�o da pol�cia. A cena � impactante, um
primor pelo clima, pela luz, pela montagem, pela m�sica. Pierrot atira em
R�gis. Ele n�o tem for�a para faz�-lo; seus amigos o ajudam e
praticamente apertam o gatilho. R�gis implora humilhantemente por clem�ncia.
A m�sica da pianola que acidentalmente foi acionada torna tudo bem mais
sinistro. 3. E � a� que surge um plano de extraordin�rio
poder de s�ntese que ir� desvelar a ess�ncia de Pep� le moko. A c�mera
baixa, ao n�vel do solo, enquadra Jean Gabin agachado, passando levemente
as m�os nos cabelos de Pierrot, j� desfalecido para sempre. Pierrot � a
crian�a ca�da, � a chave de contato de Pep� com uma ess�ncia que j�
lhe foi arrancada pelo rumo das coisas. 4. A morte de Pierrot n�o provoca um ato de vingan�a,
como seria de se esperar de um filme de g�ngster americano (por exemplo,
a vingan�a de Inimigo P�blico, de William Wellman, de 1931), mas sim um
ato interior de aniquilamento. � quando tudo se desvela: � quando
descobrimos a fragilidade de Pep�. Tudo est� ent�o prestes a ruir; toda
a vida de Pep� se revela como uma grande ilus�o. 5. Nesse ponto, surge no filme um grupo de
parisienses que visitam a Arg�lia. Uma mulher quer conhecer Pep�, �oh,
como esses bandidos devem ser pitorescos�. No encontro, Pep� percebe
que � um bandido de meia-tigela, longe de sua querida Paris, aprisionado
em meio aos estreitos corredores da Casbah, de onde nunca poder� sair.
Rapidamente, a fragilidade de Pep� se torna um pequeno estudo sobre a
liberdade. 6. Pobre Pep�, condenado pelo destino! No final,
tudo se esclarece de forma cristalina. Pep� vai atr�s da francesa. Os
primeiros planos de Pep� na cidade, fora dos corredores opressores da
Casbah, s�o fant�sticos: s�o grandes planos gerais da vida simples e
despercebida da cidade. Pep� chega ao navio, procura pela sofisticada
mulher, mas nem consegue v�-la, � capturado antes. Tudo se encerra num
navio, a pris�o acontece num cais, o que insere ao filme uma s�rie de s�mbolos
ligados � decad�ncia e � liberdade (como o posterior Cais das Sombras,
de Marcel Carn�, com o mesmo Jean Gabin, ir� prosseguir). As grades do
port�o do cais se fecham �s costas de Pep�. Seu aceno desesperado para
a mulher de seus sonhos nem chega a ser percebido. Pobre Pep�... pobre
vida de ilus�o e de sombras. 7. Grande filme, cultuado pelos cr�ticos da nouvelle vague, Pep� le moko, com a ternura de seu embrutecimento, pelo tom humano que confere � vida do g�ngster, vai influenciar uma penca de filmes franceses at� mesmo antes da nouvelle vague. � a cena do assassinato em Grisbi, ouro maldito, de Jacques Becker; � a decad�ncia de Bob le flambeur, de Melville. Ing�nuo, po�tico, duro, � frente de seu tempo, Pep� le moko, fruto de uma fragilidade e de uma tentativa v� de liberdade. Grande filme.
Crist�v�o Bresson (14/07/2003) |
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