
|
"Tenho medo de n�o chegar ao fim" Em Palavra e Utopia, o rigor que envolve a composi��o, a austeridade da c�mera im�vel, o filme baseado rigidamente em material hist�rico, a est�tica quase minimalista, lembram a for�a arquitet�nica de um Cr�nica de Anna Magdalena Bach. Mas a diferen�a � que Manoel de Oliveira permanece, como sempre, fiel aos seus costumeiros objetivos: aqui, como o pr�prio t�tulo anuncia, � a palavra que preenche a tela, num cinema em que a ret�rica e a literatura predominam apenas como parte de um projeto �ntimo e coerente de cinematografia. Talvez a maior diferen�a entre o cl�ssico filme de Straub e este de Oliveira � que, enquanto Bach � um m�sico, o Padre Ant�nio Vieira � um escritor. Mas n�o s� um escritor, e Palavra e Utopia foi feito n�o apenas para laudar os textos do padre portugu�s que defendeu os �ndios e jesu�tas brasileiros, muito menos com o tom exclusivamente did�tico para ilustrar a vida de uma personalidade marcante da cultura lusitana. Entre Dreyer e Bresson, entre o teatro filmado e o filme de Straub, Manoel de Oliveira permanece como um dos diretores mais relevantes da atualidade. O que nos desconcerta ao assistir um filme hist�rico, assumidamente pesado no ritmo, com longos planos baseados nos serm�es do Padre, � que Oliveira, mesmo com seu estilo rigorosamente austero, n�o consegue esconder uma profunda paix�o e ternura por seu padre. Como diria um trecho de seu filme A Carta, "os sentimentos podem ser escondidos, mas nunca evitados". A estrutura tern�ria do filme, com um padre jovem, de meia idade, e de terceira idade, evoca uma transforma��o. A atua��o de Lima Duarte � bem mais emocional que a de Luiz Miguel Cintra. Na terceira parte do filme, Oliveira assume seu car�ter passional de forma quase surpreendente em rela��o �s outras duas partes do filme, mas completamente natural para quem conhece os demais filmes de Oliveira. Pois como o pr�prio t�tulo informa, Palavra e Utopia n�o � apenas sobre a palavra, mas tamb�m sobre a utopia. E o que seria a utopia? Entre as viagens por diversos pa�ses como forma de ratificar sua influ�ncia, entre as diverg�ncias pol�ticas e a intoler�ncia, entre a saudade de sua terra p�tria, entre a professa admira��o por sua sobriedade e clarivid�ncia e a proibi��o do exerc�cio de seu of�cio, o cinema de Oliveira trafega, suave e placidamente, pela inevit�vel miss�o do homem de lutar contra os des�gnios do Homem e do tempo em busca de uma no��o de liberdade. O mar do filme de Straub est� presente, e o filme de Oliveira termina com ele, mas desta vez a abertura � num forte contra-plong�e, percorrendo um conjunto de frondosas �rvores ao longo de uma estrada. V�rias seq��ncias se iniciam com uma imagem do c�u, pontuado pela ponta de est�tuas nas catedrais. Aos noventa e tr�s anos, Oliveira nos apresenta, talvez de forma mais clara que em qualquer outro filme seu, sua vis�o particular de um processo de envelhecimento. Mesmo com as elipses, atrav�s do uso constante do corte seco e das cartelas, Oliveira descreve passo a passo o processo de decad�ncia f�sica do padre: o in�cio da cegueira, os problemas nas m�os, sua dificuldade de locomo��o. Ao final, Vieira agoniza na cama, ao lado de alguns padres que o estimam. Destino de todos n�s. Num momento do filme, Vieira afirma que seus serm�es s�o apenas "fr�geis choupanas" em rela��o �s obras que est� terminando de escrever, "pal�cios magn�ficos". "E al�m disso ainda h� muito aqui, guardado na mente". "Tenho medo de n�o chegar ao fim". Confessional como poucas das obras de Oliveira, Palavra e Utopia � um filme t�o �ntimo, t�o repleto dos dilemas pessoais de Oliveira, que sua maturidade, sua op��o por um cinema que caminha na contram�o do virtuosismo da imagem, da c�mera e do corte, coroa os lentos e cuidadosos passos do realizador portugu�s em torno de um cinema singelo e que at�m apenas ao que lhe � essencial.. Marcelo Ikeda (08/08/2002) |