A IMPORTÂNCIA DO "TIMING" NAS "SCREWBALL COMEDIES" : O EXEMPLO METALINGÜÍSTICO DE "ORIGINAL PECADO"


Numa entrevista concedida a Jô Soares em seu programa televisivo diário, Shirley Macleine se disse encantada com a percepção fílmica de Billy Wider. Em uma das cenas de The Apartment, embora aparentemente ela e Lemmon tivessem feito tudo de acordo com as marcações do diretor, Wilder não ficou satisfeito com o resultado final da cena. "Vocês têm que fazer com menos 12 segundos!", dizia Wilder. E só quando Macleine reviu a cena pronta, já montada, é que ela concordou que o diretor tinha razão.

De fato, nas comédias recheadas de diálogos e efeitos verbais, o ritmo da ação assume importância fundamental. Embora The Apartment não seja um exemplar típico do gênero, o filme tem suas origens na screwball comedy norte-americana. Na comédia "maluca" ou tresloucada, caracterizada pela velocidade frenética da ação tanto física como verbal, a narrativa evolui num crescendo, em que o espectador só consegue se envolver se a estruturação do tempo for perfeita. O sentido da comédia se dá sobretudo na aplicação do timing correto.

Original Pecado (The More The Merrier, 1943, dir. George Stevens) aplica o uso do timing de forma metalingüística. Mas acima de tudo, o filme é uma screwball comedy típica do gênero. Embora sua contribuição seja especialmente na estética, os filmes do gênero contêm elementos interessantes também no conteúdo, retratando a neurose americana do período.

O filme mostra exemplarmente uma América confusa durante o período da Guerra. Como os homens mais interessantes foram para o campo de batalha, sobravam apenas os homens mais velhos e feios, de modo que havia "nove mulheres para cada homem". As mulheres acabavam solitárias e desencantadas. Além disso, o filme mostra brilhantemente o problema de moradia na cidade, devido a um crescimento urbano mal controlado. Devido a essas confusões, três pessoas acabam dividindo o mesmo apartamento, que antes era habitado apenas por uma mulher atraente, mas solitária (seu noivo é na verdade um chato de galocha!). Em várias cenas o ritmo tresloucado está presente, quase beirando o non-sense, com encontros despropositados e situações beirando ao ridículo, como por exemplo, o encontro final na delegacia. Outra sátira é o fato de o rapaz (Joel McCrea - o diretor mendigo de Sullivan’s Travels) ser denunciado como espião apenas por usar um binóculo.

Mas a cena a que eu quero me ater aqui neste espaço é na verdade a aplicação mais brilhante de um filme da screwball comedy falando de seu gênero em particular. Isso ocorre na espetacular cena em que Jean Arthur (indicada ao Oscar pela sua atuação no filme!) tenta impor a Charles Coburn (vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante pela sua atuação no filme!!) o seu ritmo ao acordar de manhã. Ora, Arthur dá um "roteiro" a Coburn: quando o despertador tocar, ele deve fazer milhões de coisas ao mesmo tempo, como arrumar sua cama, pegar o jornal, fazer o café, usar o banheiro, de forma mais rápida possível, e cronometrada (como nas orientações de Wilder a MacLeine!!). Obviamente, tudo acaba em uma grande confusão. A metalingüística não poderia ser mais explícita. Esse é o mesmo ritmo infernal da própria comédia de Stevens. Ora, se o personagem de Coburn estava completamente neurótico para conseguir cumprir todas as exigências mais bizarras de Arthur, sabemos também que o ator Coburn deveria estar ainda mais transtornado para executar todas essas maluquices seguindo à risca as ordens de Stevens!!! O despertador é na verdade o grito do diretor, ou o som da claquete. Coburn tem nas mãos um mapa, como se fossem as marcações do diretor. Embora Arthur executasse tudo à perfeição, sabemos que fazer tudo isso é humanamente impossível, e daí reside a graça da cena, pela sua impossibilidade. A screwball comedy se baseia sempre em situações-limite, em que o ditado "cuidado! não tente reproduzi-las em sua casa" é bastante apropriado.

Além disso, a cena também pode ser interpretada (no conteúdo) como uma crítica à obsessão americana pelo progresso e à perfeição do American way of life. Quase como num modo fordista de produção, a cena evidencia a preocupação de Arthur com as coisas que no fundo são pouco importantes, o que não a deixa perceber seus problemas na vida pessoal. Seu desejo pelo sucesso e pelo futuro correto, brilhante, a torna quase uma máquina, sem vida, sem alma. (Aliás, como o é seu noivo sem-graça) Somente dividindo seu espaço, ela pôde escapar de seu individualismo retroativo, aprendendo a solidariedade, conhecendo os limites dos outros, e seus próprios limites. Coburn é no fundo um elemento externo quase onisciente que faz de certa forma o papel do espectador (na verdade, seria mais apropriado dizer que ele faz o papel do diretor, i.e. ele age exatamente como Stevens quer que ele aja para mostrar as conseqüências de seus atos...). Cumprida sua missão, ele sai da história, assim como nós os espectadores (e o próprio diretor).

Marcelo Ikeda.

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