OS DOIS NÍVEIS DA REPRESENTAÇÃO E A ALIENAÇÃO DO PÚBLICO EM "NOITE DE ESTRÉIA"


 

Há muito a ser dito sobre Noite de Estréia (Opening Night, 1980 – dir. John Cassavetes). Recentemente, Pedro Almodovar se utilizou do início do filme em Tudo Sobre Minha Mãe. Da mesma forma, um fã ardoroso é atropelado numa noite bastante chuvosa enquanto tentava em vão pegar um autógrafo de sua atriz preferida. Em Almodovar, a vida da atriz também sofre uma modificação com o acidente, mas de forma indireta: a vida da mãe do menino é atingida, e da relação direta entre a mãe e a atriz irá brotar uma nova consciência para a atriz. Mas no filme de Cassavetes, o original, Gena Rowlands, que representa a atriz, nunca mais vê a vítima nem ninguém de sua família. Mas talvez pela primeira vez, ela veja a si mesma. As semelhanças entre o início de Noite de Estréia e Tudo Sobre Minha Mãe são um exemplo da repercussão dos filmes de Cassavetes no cinema contemporâneo. No próprio cinema americano, Woody Allen lembrou a estrutura de dramas do diretor em seus filmes "bergmanianos", como Setembro, estrelado pela mesma Gena Rowlands.

Noite de Estréia é daquele tipo de filme, cada vez mais raro no cinema de hoje, que pode ser visto de várias perspectivas. Infelizmente, não tenho o embasamento para falar com mais amplitude sobre alguns dos pontos que Cassavetes desenvolve em seu filme. Aqui, pretendo fazer um brainstorm sobre duas questões. A principal delas é que Cassavetes promove uma espécie de jogo sobre o papel da representação. Quando a atriz entra em crise, ela questiona a interseção dos papéis que ela representa no palco com os papéis que ela representa para si mesma e com o que realmente é como pessoa. Os limites entre a atriz e a pessoa se tornam extremamente frágeis. Mas Cassavetes parece querer levar essa dúvida quase ao limite, porque ele nos mostra a consciência de que a Gena Rowlands é uma atriz que representa uma atriz. O filme, então, apresenta dois níveis. No primeiro, a personagem de Gena Rowlands no filme de Cassavetes Noite de Estréia dialoga com a personagem que esta personagem (uma atriz) representa. Isto é, pensando exclusivamente no filme, há uma atriz que dialoga com a personagem que ela representa. Mas daí surge um segundo nível, que decorre do fato que esta atriz é representada por uma atriz. Ora, Gena Rowlands é uma atriz, uma atriz que, no filme de Cassavetes representa uma atriz. Se existe uma relação entre a personagem e a atriz que Gena Rowlands representa, há também uma relação entre esta atriz e a própria Rowlands como pessoa. Pois o conflito da atriz no filme é exatamente essa confusão, ou melhor, essa interação entre a vida da atriz e a vida da personagem. E Gena Rowlands é acima de tudo, uma atriz.

Essa interação, esse segundo nível, passa a ter importância fundamental quando pensamos na trajetória de um diretor como Cassavetes, que sempre valorizou a improvisação. Ora, a improvisação é justamente deixar que o ator trabalhe a personagem, que surge à luz do momento, numa composição orgânica, sem os acentuados predeterminismos de um roteiro preestabelecido até os últimos detalhes. Num filme centrado na reação dos personagens, este "florescimento" é fundamental. Se a atriz do filme improvisa no palco do teatro em busca de uma libertação das garras de um roteiro alheio aos problemas que a atriz enfrenta em sua vida real, devemos pensar que Gena Rowlands também deve estar improvisando no papel desta atriz que improvisa. E que Cassavetes observa este improviso, coordena as forças e articula o conjunto. Ou seja, no fundo, Noite de Estréia não é um improviso, mas um filme extremamente ao controle do diretor, já que o tema do filme é questionar exatamente a função própria do improviso.

Quando a atriz não mais obedece às ordens do seu diretor, o filme progressivamente chega quase a um limite em questionar a legitimidade do espetáculo. O filme se torna quase intolerável, porque se sabemos que a atriz no filme está a ponto de largar tudo, é porque cada vez mais Gena Rowlands está firme no papel, isto é, cada vez mais longe de largar tudo. Quanto mais o diretor da peça de teatro no filme perde o controle é porque Cassavetes tem o controle absoluto nas mãos. Essa oposição fica bastante clara quando pensamos no tratamento de todos para com a atriz. Embora a atriz se porte absolutamente mal, todos a recebem de braços abertos, ninguém a trata com pontapés como ela merece. Claro, porque quanto mais podre a atriz está, mais interessante está o filme de Cassavetes. Se a atriz do filme quer largar tudo, Rowlands, que está representando a atriz, não merece pontapés, mas parabéns. A interação entre atriz-personagem intra-nível passa a ser inter-nível (lembrando a polaridade entre dois níveis que defini acima). Como sabemos que os filmes de Cassavetes se baseiam em improvisação, não sabemos mais se quem está no palco é a atriz que Rowlands representa ou ela mesma, o que no fundo, é a mesma coisa.

O ponto-limite que eu comentei acima se dá na última apresentação da atriz, onde ela chega completamente bêbada, mas mesmo assim, ela se apresenta. É aqui que eu pretendo fazer um comentário sobre a posição de Cassavetes em relação ao público. Assisti ao filme numa seção do Festival do Rio, no cinema Odeon. Pois bem, em Noites de Estréia, a atriz estava atuando em uma peça de teatro adaptada de um texto de fulano. Ou seja, há limites para a concepção do espetáculo e para a improvisação, porque as pessoas que pagaram o ingresso estão no teatro para ver a versão de ciclano, mas dentro dos limites da obra de fulano. A obra original é obviamente a referência báscia para qualquer concepção de valor. Mas a atriz do filme, agravada pelo fato de estar completamente bêbada, faz o que quer no palco. O que seria um drama, passa a ser uma comédia. Em um certo momento, Rowlands chega a puxar a perna de outro ator da peça. O diretor da peça fecha os olhos e chega a se retirar da sala para não ter que presenciar tal desastre. A falta de consideração da atriz para com os demais membros da equipe é incrível, porque depois de terem ensaiado tanto, ela simplesmente faz o que quer no palco, um monte de macaquices, apenas por causa de seus problemas pessoais. Mas o que os outros componentes da equipe têm a ver com isso? E eles, não tem os seus próprios problemas? Mas se eles deixassem que viessem à tona durante a peça, seria um caos completo!! Mas Rowlands não se importa e continua com suas macaquices, de uma forma absolutamente destoante do objetivo primário da peça e do argumento original.

Mas é justamente aí que se dá o aspecto mais curioso. A platéia da peça do teatro se desatou a rir das macaquices de Rowlands, adorando a peça. No final, uma espectadora chega a cumprimentar o diretor da peça por ter criado uma peça tão solta, tão criativa. Imaginem! O público, é definido, segundo Cassavetes, como um bando de idiotas alienados, que vão a um espetáculo sem ter a menor noção do que irá ser apresentado, cujas idéias passam muito ao largo de qualquer noção de qualidade. Tecnicamente, a peça foi um desastre, mas o que importa, se o público, que afinal paga os ingressos, adorou? A "ditadura do público" condena o espetáculo, porque está relacionada com a "ditadura dos atores": provavelmente, o público recebeu a peça bem, porque veio de uma atriz famosérrima, num papel leve, de fácil compreensão para o público.

Mas o mais curioso de tudo é a reação que se vê no segundo nível. Ora, se existe um público que ri das piadas grosseiras de Rowlands no filme, qual seria a reação do público no Odeon, que está assistindo ao filme do Cassavetes? A minha, pelo menos, foi de indignação. Eu me senti quase ultrajado pelo mote de Cassavetes. Mas para a minha surpresa (ou será que realmente eu fiquei surpreendido?), o público do Odeon teve a mesma reação do público no filme, simplesmente pondo-se a rir das macaquices de Gena Rowlands. A sutileza de Cassavetes é inacreditável, mesmo usando uma situação-limite para exemplificar sua tese. O público no Odeon é, portanto, ainda mais alienado que o público do filme, porque as pessoas no Odeon estão exatamente assistindo a um comentário sobre a idiotice daquele público. Mas ainda assim, o público no Odeon se identificou com o público no filme.

No final, mesmo estando completamente bêbada e ridícula, o público da peça no filme aplaudiu ardorosamente a atriz. Da mesma forma, o público no Odeon aplaudiu e elogiou ardorosamente o filme de Cassavetes. Eu simplesmente me levantei e saí. Noite de Estréia não é um filme para ser aplaudido e admirado. Ele, talvez seja um dos mais irregulares da filmografia de Cassavetes. Mas daí vem o seu grande mérito. Quando vemos o letreiro de fim, Noite de Estréia ainda é um filme em formação. De fato, Noite de Estréia é um filme para ser pensado...

Marcelo Ikeda.

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