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Ainda está para ser feito o filme com a coragem e o vigor para discorrer sobre o problema da violência no Brasil. Ônibus 174, certamente, não é esse filme. O filme tem suas virtudes, inegavelmente, mas não consegue fugir de um modelo de documentário por demais convencional, algumas vezes manipulador, e que preza pelo didatismo. Tendo como base as imagens da cobertura ao vivo em
rede nacional do drama do seqüestro de passageiros de um ônibus da linha
174, recheado com entrevistas que em geral descrevem a trajetória do
bandido Sandro Rosa do Nascimento, Ônibus 174 percorre do drama
individual (dos passageiros e do bandido) à problemática
coletiva-institucional-social com uma conclusão típica de um discurso
vitimizante de classe média: o bandido Sandro é uma vítima de uma
sociedade perversa e desigual, sofreu perturbações quando criança (e dá-lhe
todos os psicologismos dessa análise), e a culpa é das autoridades (que
em seu gabinete deram ordens políticas ao Capitão Penteado) e da polícia,
completamente despreparada e desaparelhada (ainda que a culpa seja mais
das autoridades do que dos policiais, outras vítimas de uma frágil
infra-estrutura). Tiradas essas conclusões, o espectador sai do cinema
indignado e com várias certezas, de alguma forma com um conforto, o que não
é propriamente louvável para um documentário. Ônibus 174 começa mal, com um sobrevôo à cidade
do Rio de Janeiro, como se oferecesse um painel dos conflitos e das
desigualdades do local. Acaba evidenciando seu ponto-de-vista: distante e
de cima para baixo. Por trás de uma suposta neutralidade documental, Ônibus
174 não deixa de ser algumas vezes apelativo (a trilha sonora para
comover, a montagem dos depoimentos, a tentativa de vitimização do
“excluído”, a ênfase em um só tipo de discurso). Por outro lado, o filme tem méritos inegáveis. A
força da urgência de seu tema é bem explorada pelo diretor, com bons
depoimentos, especialmente em como retrata o sistema penitenciário,
embora estrategicamente sem se aprofundar mais a fundo na questão. (E de
fato, Ônibus 174 não escapa dos lugares-comuns e das conclusões
superficiais). A montagem confere ao filme uma força dramática, e,
apesar de sua longa duração de mais de duas horas, o filme mantém o
interesse do espectador. Especialmente na parte final, o filme cresce no
ritmo, com cenas impactantes, como a multidão tentando linchar o delinqüente.
Faltam filmes urgentes sobre o Brasil de hoje e de agora, e nesse sentido,
Ônibus 174 cumpre seu papel de documentário, de filme necessário e
vigoroso que busca refletir sobre as mazelas de nossa sociedade. A parte mais interessante de Ônibus 174 é sem dúvida quando investe sobre o papel da mídia na cobertura do conflito. O fato de a mídia cobrir o “evento” para todo país tem efeitos lógicos e diretos em toda a relação do assaltante com as vítimas. Em algumas partes, as vítimas confessaram que essa relação envolve “uma espécie de teatro”, porque se elas fingissem estar desesperadas e sofrendo, maior a probabilidade de a polícia providenciar uma solução para o caso. As vítimas portanto fingiam estar mais desesperadas do que realmente estavam, e em muitos momentos elas sabiam que o seqüestrador não iria matá-las, mas fingiam que sim, pois o aumento da dramaticidade poderia lhes dar retornos mais imediatos. A realidade, portanto, passa, ela própria, a se fundir com um aspecto ficcional, intrínseco a uma relação de cumplicidade entre as vítimas e o bandido. Isso é trabalhado no filme, de forma até corajosa por Padilha, e por isso, Ônibus 174 merece nossos aplausos. É uma das poucas partes do filme em que o diretor se preocupa em problematizar uma questão mais do que descrever desculpas e culpados. Ponto para ele. Marcelo Ikeda (11/11/2002) |