BRUTALIDADE E POESIA EM "ONDE FICA A CASA DE MEU AMIGO?"


 

Onde Fica a Casa de Meu Amigo? � o melhor filme iraniano da vertente tipicamente neo-realista. Somente em Close up Kiarostami vai promover uma pequena revolu��o nesse tipo de cinema, com uma narrativa metalingu�stica que se descontr�i e se curva para dentro de si mesma.

Esse � um tipo de filme t�o simples que pode ter diversas interpreta��es. � sobre a hist�ria de um garoto que leva o caderno do colega para casa por engano, e tem que achar a sua casa para devolver o caderno. Por tr�s dessa hist�ria aparentemente despretensiosa, Kiarostami faz um profundo e sens�vel painel sobre as estruturas da sociedade.

A primeira hora de filme � quase brutal. Vemos a diferen�a entre o mundo dos adultos e o mundo da crian�a. Vemos como surgem obst�culos que afastam o garoto de seu objetivo. Os adultos, ao inv�s de ajudar a crian�a a encontrar seu caminho, a afastam. Essa � a brutalidade. Os adultos est�o mais preocupados com suas situa��es rotineiras que n�o tem tempo para ver a poesia e ter um gesto de solidariedade. A m�e quer que o filho a ajude; a velha doente e os vizinhos d�o informa��es confusas ao menino; seu av� o manda comprar cigarros apenas para afirmar sua autoridade.

De fato, o filme fala sobre liberdade e sobre a autoridade como forma de opress�o. O professor, a m�e e o av� s�o diferentes manifesta��es da quest�o da autoridade. No caso mais extremo, o vendedor das portas de ferro simplesmente ignora o menino. Os adultos se at�m em quest�es pr�ticas: seu servi�o, o dinheiro, suas obriga��es. � brutal como o vendedor rasga uma p�gina do caderno sem ouvir as explica��es do menino. Quando ele rasga o papel, estamos vendo um ato de viol�ncia. O ponto de vista do av� � claro: o menino deve apanhar mesmo que n�o fa�a nada de mal, mas apenas como forma de afirma��o de uma autoridade. A busca do garoto por seu amigo � um caminho sem fim, em busca de sua liberdade, e fraternidade.

Quando o menino sai de Kolker e caminha em dire��o de Poshtah, vemos como a paisagem do caminho se integra com sua miss�o. As folhas das �rvores e as flores, e o eterno morro com uma trilha em zigue-zague, que Kiarostami ir� utilizar muito mais � frente, seja no final de Vida e Nada Mais ou em Atrav�s das Oliveiras. Mas quando o menino volta na dire��o de Kolker, procurando pelo vendedor, a paisagem j� assume outro significado, embora seja a mesma.

A repeti��o das paisagens traz o tema da circularidade. Todo o filme tem uma estrutura circular. Escola - casa - Pushtah - Kolker - Pushtah - Kolker - casa - escola.

O filme tem uma clara descontinuidade quando o menino encontra o �nico adulto que quer lhe ajudar. N�o por acaso, esse � considerado um adulto retr�grado. Ele vende porta de madeira, enquanto o outro vendedor faz portas de ferro, mais dur�veis, mas com menos poesia.

No fim, o menino n�o encontra a casa de seu amigo. � tarde, e ele deve voltar. Mas Kiarostami n�o quer acabar o filme de forma t�o pessimista. O garoto se safa, fazendo o dever no caderno do amigo. E no final, poeticamente uma flor sinaliza que atrav�s da poesia e da solidariedade do mundo das crian�as, ainda h� jeito de reverter nosso mundo materialista, ocupado e monocrom�tico.

Marcelo Ikeda.

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