"OLÉ" : UM FILME BRASILEIRO ?


 

Seria Olé um filme brasileiro? Mas o que faz um filme ser brasileiro? Essa é uma das perguntas a serem respondidas quando se acaba de ver Olé. Filme com atores estrangeiros, falado quase totalmente em inglês, Olé tem uma história que envolve um brasileiro. Severino vai para Los Angeles tentar trazer sua irmã de volta para o nordeste, como último desejo de sua mãe, bastante doente. Mas a presença de um personagem brasileiro no papel principal seria suficiente para definir o filme como brasileiro? Por um lado, parte da equipe técnica é brasileira, inclusive o próprio diretor. Os créditos são em português. Mas não seria isso parte da estratégia de captação pela lei do audiovisual? Quando Severino encontra sua irmã, o diálogo entre ambos é em português. Entretanto, parece que eles falam outra coisa. A dublagem é patética, e os lábios não possuem nenhuma possibilidade de sincronia com o som. Quase lembra "Fucker and Sucker". Há, de outro lado, piadas com referências tipicamente brasileiras como "caralho" ou especialmente sobre a "kombi".

É difícil definir Olé como um filme brasileiro porque ele segue ipsis literis um tipo de estética narrativa relacionada ao pior cinema americano, talvez o diretamente lançado na televisão. Quanto ao roteiro propriamente dito, e sua estrutura, ela segue todos os clichês dos filmes americanos, percorrendo vários gêneros, desde o policial (a perseguição nas ruas) até o romance (o beijo na beira do mar). Por outro lado, o filme possui dois ou três cacoetes do cinema independente americano. Por vezes, um enquadramento estiloso e razoavelmente criativo. Outras vezes, um discurso bastante auto-referencial. Isso culmina no final, em que vemos um processo de filmagem. Quando Severino acorda de seu sonho, ele não hesita em falar "parece que eu acordei de um pesadelo em que estava em um filme ruim".

O que é digno de nota em Olé é que é um filme que mostra um lado dos Estados Unidos que o cinema americano não está costumado a retratar. As locações são muito bem escolhidas, contribuindo muito para o clima do filme. Em Olé, há o retrato da podridão que é o outro lado do American way of life: todo o filme é pontuado por personagens excluídos e que não encontram nenhuma perspectiva de se encaixar no regime. O exemplo típico é o texano que dorme nas latas de lixo, vagabundo com orgulho, que prefere dormir nas ruas e que lá encontra seu equilíbrio. "Se formos para o sul ou oeste, temos as gangues e os guetos; para leste, os ricos nos prendem por atravessarmos a rua com sinal vermelho; para o norte, tem as montanhas" Todos os Estados Unidos são vistos como um caos generalizado, em que apenas os mais espertos sobrevivem, nação do ódio e do preconceito, da irreversibilidade, do fim dos sonhos. Os apartamentos são verdadeiros "pardieiros", sujos, vulgares, tenebrosos. As ruas não são diferentes. Lojas de bugingangas, ruas tumultuadas, o oposto do que podemos chamar de civilização.

O filme é no fundo pessimista, e mostra que o contato do brasileiro com o mundo americano só pode ser recheado de decepções. A irmã de Severino morre no final, vítima da tragédia americana. O próprio gangster é descaracterizado, sendo uma criatura ridícula, um "peidorrento" que adora programas de "shoptime". A descontinuidade do final acentua a crueza do filme. O final feliz de Severino com a prostituta é revisto ironicamente como uma descronstrução: obviamente só podia ser um sonho. Na realidade, Severino também se prostitui, sendo ator de filmes pornôs. Essa é uma curiosa construção, que fala muito sutilmente sobre o próprio cinema de Santucci. É quase um pedido de desculpas. Se Severino se prostitui, o filme fala sobre isso numa lógica metalinguística, mostrando um processo de filmagens. Claramente é uma referência a um tipo de cinema que é obrigado a se prostituir para sobreviver. Além disso, mostra que a vida dos imigrantes latinos não acaba no final feliz que os americanos querem nos fazer acreditar.

O diálogo com o cinema pseudo-independente norte-americano ocorre de duas formas. De um lado, uma crítica sutil à falta de perspectivas do American way of life, sem ser um filme intelectualóide, mas cool. De outro, há o estilo moderninho do cinema auto-referencial. Embora Santucci critique a desigualdade nos EUA, ele tem uma notável admiração ambígua por esse mundo. No fundo, Olé é uma grande brincadeira com os gêneros do cinema americano, e por isso, dialoga diretamente com suas tradições, de forma essencialmente referencial, e por isso, metalinguística. O filme é uma comédia, e os exageros e os clichês que surgem devem ser vistos por esse ponto de vista, como em um El Mariachi. Isso no fundo revela que Santucci é o playboyzinho que foi para os EUA ganhar a vida e que não deu muito certo. Claramente, ele não faz parte completamente do mundo dos excluídos de que seu filme fala. Provavelmente, ele deve ter ido para estudar na NYU e ficou por lá. Bem diferente de Severino. É como a síndrome de Solondz. A crítica ao sistema é como uma pirraça; seu grande sonho é Hollywood. Sua adesão estrita ao estilo narrativo do cinemão americano é um sinal de que Santucci pode até criticar o sistema, mas dá legitimidade total a ele, e está completamente imerso no sistema, de tal forma, que lhe é impossível sair, mesmo que quisesse. Outro ponto é que seus personagens latinos são vistos como um estereótipo. Veja o personagem do latino malandro e garanhão. O nordestino é por sua vez o grande caipira, feio, bocó, que faz papel de palhaço. Ora, nada melhor para o papel do que um brasileiro. Isto é, o personagem de Severino pode se inserir completamente na visão que os americanos têm do brasileiro, como um personagem subdesenvolvido.

Por fim, um filme pode ser analisado por três aspectos: estética, conteúdo/plot, e modo de produção. Obviamente, os três fatores estão diretamente correlacionados, mas essa distinção é simples. O que mais nos interessa como brasileiros em Olé é sem dúvida o terceiro: o modo de produção. Olé até certo ponto nos emociona porque parece ser um sonho de infância, um projeto de um garotinho que finalmente está dentro da fábrica de brinquedos. Santucci parece estar se divertindo à beça durante as filmagens, e isso é bem positivo. O filme pode ser bem ruim, mas ele tem consciência disso, e realmente quer ser esse tipo de produto (lembre que Severino diz ter saído de um filme ruim!). É quase um filme trash. O filme poderia ter até um bom público no Brasil, se chagasse aos cinemas de locais mais pobres, como a baixada fluminense. Mas no circuito do Estação Botafogo, que é onde o filme se restringe, seu público é o dos playboyzinhos alienados, que gostam de cultura trash, programa alternativo pra se divertir. Nisso, o filme cumpre seu papel. Até as piadas e os diálogos cômicos têm bom efeito, são ágeis e vêm na hora certa. É um filme que não tem vergonha de ser ruim. Ele é o que pôde ser feito. A fotografia em certos pontos é quase amadora, principalmente nos interiores com pouca luz.

Taí. Dadas todas as suas incontáveis limitações, Olé é um filme digno, uma lição para o cinema brasileiro de que é possível realizar seu sonho de fazer um filme se soubermos dialogar de forma saudável com as nossas precariedades. Eta discurso cinema marginal!

Marcelo Ikeda.

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