| IV - CONSIDERAÇÕES FINAIS |
Rio, Quarenta Graus e Rio, Zona Norte são, a seu modo, um retrato fiel da filmografia de NPS. São filmes autorais, um projeto realizado a partir de uma concepção do próprio diretor, mas ainda assim são filmes populares. Ambos os filmes em nenhum momento caem em um maneirsmo autoral, em uma extravagância de estilo, na "arte pela arte". Cada plano tem uma função dramática muito bem definida e bem simples na construção da narrativa. Além disso, seus filmes sempre demonstraram uma atenção muito particular pelo drama social dos menos privilegiados, dos marginalizados, dos excluídos da sociedade. Especialmente nesses filmes em particular, NPS tem um outro olhar sobre a cidade do Rio de Janeiro, o típico cartão postal do Brasil. Esses filmes querem conscientizar todas as esferas da população carioca das grandes desigualdades que afligem a cidade. Sejam os meninos marginalizados que lutam pela possibilidade de um futuro, seja o compositor popular que sofre para divulgar a sua cultura, o seu modo natural de viver, esse é o grito de uma parcela da população que não tem meios de se defender e de se expressar. Isto demonstra que NPS absorveu a principal lição do neo-realismo: uma "ética da estética". Seus filmes são populares porque tem um olhar social para a realidade, e quer fazer filmes que contribuam na discussão para que tornemos essa realidade um produto melhor. Acima de tudo, o neo-realismo foi uma proposta moral de se fazer cinema, um tipo de olhar para a realidade. E esse olhar é possível sem deixar de se fazer filmes poéticos, que mostrem a dignidade dessa vida simples e injustiçada. Essa talvez seja a principal diferença do cinema de NPS e dos cineastas do cinema novo. Estes últimos foram mais acoplados aos ideais da nouvelle vague, que refletiam as preocupações da classe média, isto é, daqueles que já tinham suas necessidades básicas garantidas. Os filmes do cinema novo, embora também tivessem a preocupação em encontrar uma identidade para o povo brasileiro, esconderam suas intenções através de uma estética menos linear e discursos metafóricos. Na verdade, isto acontece porque os filmes de NPS trazem mais características do cinema brasileiro anterior que a nouvelle vague. A idéia do cinema novo era um "marco zero", negando a experiência industrial da Vera Cruz, o escapismo das chanchadas cariocas, e iniciar um novo tipo de cinema. Já os filmes de NPS, embora recusassem a comédia fácil e ligeira das chanchadas da Atlântida, tinha um certo tipo de relação entre o burlesco e o popular que se originaram nas chanchadas. Em Rio, Quarenta Graus, as cenas do deputado que conhece o Rio e se interessa por uma garota mais jovem lembra o estilo descompromissado das chanchadas, mas sem deixar de sugerir uma leve análise social. O cinema de NPS não ignora o passado do cinema brasileiro, mas transforma o popularesco das chanchadas em cinema responsável e atento às dificuldades do povo. Marcelo Ikeda. |