I - A REPERCUSSÃO DO NEO-REALISMO ITALIANO NO BRASIL

O primeiro longa-metragem de Nelson foi Rio, Quarenta Graus. O filme seguiu uma série de características do movimento do neo-realismo italiano. De fato, o neo-realismo era uma alternativa viável para a produção brasileira tanto na estética quanto no próprio conteúdo. Era a confirmação que se poderia fazer cinema de qualidade com custos mais adequados, um modo de produção menos sensacionalista, aliado a uma temática esquerdista, abordando os problemas sociais e os excluídos de uma forma digna. Este capítulo segue as idéias do livro de Mariarosaria Fabris (Nelson Pereira dos Santos: Um Olhar Neo-realista?), que é uma referência marcante para o tema.

A boa aceitação do movimento neo-realista no Brasil se deveu a uma conjuntura interna própria que favoreceu a repercussão dos ideários da escola italiana.

  • a derrocada da Vera Cruz. A Companhia Vera Cruz foi uma tentativa de construir um modelo industrial em grande escala com a construção de estúdios nos moldes hollywoodianos para abrigar a nova produção brasileira. A Vera Cruz ignorava o passado do cinema brasileiro e se considerava como um marco zero na formação de um cinema nacional respeitado. Para isso, a Vera Cruz trouxe o diretor Alberto Cavalcanti, há vários anos filmando nos Estados Unidos, para que ele contribuísse com sua experiência de convívio com a indústria e o modo de produção mais modernos do mundo.

Nelson Pereira dos Santos e o grupo de amigos de esquerda que o cercava, especialmente na revista esquerdista Fundamentos, formada por críticos como Alex Viany e Paulo Emílio Salles Gomes, reconheciam que a Vera Cruz era uma conquista do cinema brasileiro, um marco que contribuiria para uma melhoria do aparato técnico e um progressivo reconhecimento internacional. Entretanto, eles criticavam os filmes realizados pela companhia por se esquivarem de apresentar temas tipicamente brasileiros, e desejavam assistir a filmes que apresentassem uma faceta autêntica dos brasileiros, numa visão que viesse de dentro para fora. A visão da Vera Cruz, segundo esses críticos, era de fora para dentro, não abordando as características desse povo de uma forma orgânica, mas segundo uma visão estilizada. Era um cinema mais preocupado com a repercussão no estrangeiro do que para a conquista do próprio mercado interno.

Por isso, fala-se na decepção de Caiçara, o primeiro filme da companhia. Nelson disse que Caiçara é a negação do cinema brasileiro, porque preferiu ser um romance folhetinesco a apresentar o drama e as condições de um homem abandonado e ignorado por todos, e sua interação íntima com o meio em que vive. Caiçara é revestido de um "fingimento neo-realista", porque a penas na superfície segue os moldes da escola italiana (locação em exteriores, alguns atores não-profissionais, personegans excluídos), mas no tratamento do tema, o filme se revela completamente deslocado do neo-realismo. E o neo-realismo, mais que uma estética, é especialmente, uma atitude moral do artista em direção ao drama e aos dilemas sociais do povo de seu país.

O fracasso da Vera Cruz mostrou aos realizadores brasileiros a dificuldade de se construir um modelo industrial de realização cinematográfica. O neo-realismo italiano se encaixou nesse quadro como um modelo que exigia um aparato técnico bem mais reduzido que um estúdio. Era possível, pois, fazer filmes de qualidade, mesmo sem um grande investimento inicial na formação de um modelo industrial.

  • a experiência da Atlântida. A Atlântida foi, em vários pontos, a indicação para os novos realizadores de um cinema que apresentava o Brasil e seus habitantes de uma forma mais autêntica que a Vera Cruz. Já o primeiro filme da companhia, Moleque Tião (1943), estrelado por Grande Otelo, apresentava um conteúdo social. Havia, nessa primeira fase, a presença de filmes com um "conteúdo socializante", numa fase pré-neo-realista.

A partir de 1947, quando a Atlântida passou a ser comandada por Luis Severiano Ribeiro Jr., houve a produção de filmes mais leves, mas ainda assim com um espírito autenticamente carioca, com um forte enraizamento popular, tomando influências de meios de comunicação populares dos mais diversos, como o rádio, o teatro de revista, o circo e os contos populares. Dessa combinação surgiram filmes que, apesar de seguirem uma forma de narrativa atrelada aos padrões hollyoddyanos, utilizaram uma temática e um tratamento que revelavam elementos autenticamente brasileiros.

  • cinema independente. A partir especialmente do sucesso de Sai da Frente (52), estrelado por Mazzaropi, houve uma disseminação de filmes de produção mais leve, de aparência descuidada e baratos. Começava-se a falar no cinema independente, com destaque para os nomes do ator Procópio Ferreira e do diretor Alberto Pieralisi. Filmes como O Homem dos Papagaios (53) e Quem Matou Anabela? (56) eram ao mesmo tempo filmes baratos e apresentando temas e um conteúdo tipicamente brasileiros, conforme destacou Alex Viany. O cinema independente foi visto como uma proposta alternativa de produção, assim como defendia o neo-realismo.
  • os Congressos de Cinema. A reflexão dos Congressos de Cinema, nesse período, foi fundamental para que se discutissem os impasses e as alternativas que cercavam o cinema brasileiro. Em 1952 e 53 foram realizados o I e o II Congressos Nacionais do Cinema Brasileiro. Entre outras questões, discutiu-se i) uma legislação protecionista que garantisse efetiva igualdade de condições de concorrência do filme nacional contra o filme estrangeiro, ii)uma definição de filme brasileiro, de forma a limitar a participação de estrangeiros na produção dos filmes, iii) o desenvolvimento de uma temática nacional, de forma a retratar o homem brasileiro em seu modo de vida.

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Enfim, todos esses itens contribuíram para que o Brasil visse no neo-realismo a incorporação perfeita dos seus ideais de fazer cinema. Um modo de produção sem o grande aparato técnico dos estúdios, possibilitando fazer filmes mais baratos, e a utilização dessa estética para compor filmes que mostrassem o drama e os dilemas de seu povo de uma forma autêntica, descrevendo o cotidiano e a poesia de seu modo de vida.

  • os filmes neo-realistas no Brasil. Segundo Fabris, quatro foram os filmes que incorporaram mais legitimamente os princípios do neo-realismo: Agulha no Palheiro (53), de Alex Viany, Rio, Quarenta Graus (55) e Rio, Zona Norte (57), ambos de Nelson, e O Grande Momento (58), de Roberto Santos. O primeiro e o último trazem "complicações teóricas", porque são comédias, e "o neo-realismo não fez comédias". Rio, Zona Norte já possui ambiguidades entre uma postura neo-realista e um realismo psicológico que foge de uma tendência pura do modelo zavattiniano. Portanto, para Fabris, o único filme tipicamente neo-realista feito no Brasil foi Rio, Quarenta Graus.

Marcelo Ikeda.

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