O DUPLO PROCESSO DE IDENTIFICA��O EM NOTTING HILL


 

Notting Hill � uma t�pica com�dia rom�ntica americana. Como os bons exemplares do g�nero, o filme acerta quando dialoga sobre o processo de identifica��o do espectador com a personagem em cena. Em O Casamento do Meu Melhor Amigo, existem nesse sentido cenas fant�sticas, como a desastrosa voz de Cameron Diaz, e especialmente a inseguran�a da estrela Roberts para se declarar ao seu antigo namorado.

Notting Hill explora especialmente essa quest�o, e o seu foco de interesse est� no fato de tratar o tema de forma metalingu�stica. Ora, se nos identificamos com a personagem em cena, atrav�s de um estilo narrativo neutro/fluido, n�o podemos esquecer que o star system � parte fundamental desse tipo de cinema. Se numa com�dia rom�ntica devemos nos identificar com a personagem de Julia Roberts, por que n�o devemos tamb�m achar que a atriz passa por problemas semelhantes ao da personagem? Toda com�dia rom�ntica, de uma forma ou de outra, trata de pessoas com dificuldades amorosas. E toda atriz, apesar de famosa (e atriz!), tamb�m � uma pessoa. Ela tamb�m assiste a filmes e vai ao cinema, (especialmente porque isso tamb�m faz parte de sua profiss�o). E quando ela assiste a esses filmes, ela tamb�m n�o se identifica? Isto �, at� que ponto uma atriz famosa como Julia Roberts n�o possui problemas semelhantes ao de mulheres "comuns"?

Para que o processo de identifica��o seja completo, seria interessante pensarmos que a atriz que representa a personagem tem problemas parecidos. Ela estaria representando "menos", seria um exerc�cio natural. Ou pelo menos o p�blico encararia dessa forma. O curioso de Notting Hill � que o filme investe no problema da identifica��o dos dois lados: tanto da famos�rrima Anna Scott / Julia Roberts, quanto no desconhecido William Thacker (o mais que conhecido Hugh Grant).

Do lado de Anna, a identifica��o ocorre no sentido "de l� pra c�". Isto �, o mundo perfeito da tela fica mais pr�ximo de n�s. Por alguns instantes, sentimos que o mundo inacess�vel de Hollywood pode estar muito perto de n�s, que aquela grande estrela pode conviver �s vezes como uma pessoa comum. O movimento de aproxima��o acontece desse mundo inacess�vel, que se aproxima de n�s.

Anna quer ser gente como a gente, est� obviamente cansada das press�es da fama, e quer ter momentos simples e verdadeiros, como esses que a gente n�o d� muito valor. Ela quer comer uma galinha horrorosa cozinhada no conforto de casa ao inv�s de comer em um restaurante japon�s sofisticado onde tem que ouvir gracinhas. Em outra cena, Roberts pula uma cerca melhor que Grant.

O �pice do processo de identifica��o acontece em uma seq��ncia memor�vel, onde o grupo se re�ne � mesa. Todos disputam um peda�o de bolo, que coroaria o mais fracassado. A disputa � acirrada. H� um t�pico corretor de bolsa de valores: alienado, idiota, que n�o conhece mulheres, que vive para o trabalho, e que tem medo do fracasso. H� um casal que n�o tem filhos, cuja mulher � paral�tica. Uma menina esquisita, neur�tica, chata. O pr�prio Grant fora abandonado pela esposa. O dono da casa chega a dizer que a presen�a de Roberts ali serve para lembr�-los de que s�o um bando de fracassados. Nesse sentido, a visita de Roberts faz-lhes mal; o constrangimento � vis�vel. Mas da� num momento de incr�vel revela��o, Roberts exclama: "Wait! What about me?". Naqueles breves segundos de sil�ncio ap�s a fala, num plano de conjunto em que a surpresa fica mais que evidente, sentimos que o abismo que separa a fama de n�s, simples mortais, foi reduzido � dist�ncia de uma mera cadeira. Quando Roberts come�a a falar, o di�logo � tolo e f�til. Mas naqueles segundos, pensamos v�rias coisas que ouvimos de forma esparsa sobre a fama, que � uma forma de pris�o. Sabemos da solid�o, da dificuldade de controlar as horas vagas, dos problemas com a imprensa, das press�es do trabalho. Lembramo-nos especialmente da solid�o, da dificuldade de encontrar amigos e namorados, j� que inevitavelmente a com�dia rom�ntica nos leva para esse lado. Do ponto de vista amoroso (que � o que importa no filme), Roberts � t�o infeliz/fracassada como qualquer um de n�s.

Outro momento em que a identifica��o se apresenta � quando Roberts volta a procurar Grant em sua livraria. Ela diz uma frase que resume a quest�o: "N�o se esque�a de que eu n�o passo de uma garota parada na frente de um rapaz pedindo que ele a ame". Parece piegas, mas � um momento particularmente marcante no filme.

Essa aproxima��o do mundo distante do cinema com o nosso mundo � acentuada por algumas ironias que o filme faz com o pr�prio universo do cinema. A principal ironia � com os filmes de a��o. Neles, o processo de identifica��o � muito reduzido, porque claramente os filmes s�o absurdos. Quando Roberts ensaia as falas de seu pr�ximo filme, vemos o quanto aquilo � absurdo e distante do mundo simples e rotineiro que temos. Existem ironias com a obsess�o da m�dia pela vida privada dos atores (especialmente da m�dia inglesa...), com a verdadeira fama das atrizes (pessoas que n�o a conhecem, ou que a confundem com outra atriz), com o namoro � dist�ncia t�pico dos artistas (ela n�o sabe ao certo se continua ou n�o namorando Baldwin...), ou com o cach� milion�rio das atrizes (e da pr�pria Julia Roberts!!).

Uma ironia que merece destaque � quando Roberts diz que, em seus contratos, h� uma cl�usula que fala sobre nus nos filmes, que delimita at� que parte o seu corpo pode ser mostrado, e que ela tem a liberdade de escolher as dubl�s para o papel. Logo em seguida, os dois fazem amor, e aparecem breves momentos de suas costas nuas e uma breve passagem quando ela se levanta da cama. Ora, perguntamo-nos da mesma forma se houve uma dubl� ou um contrato da pr�pria Julia Roberts!!! (O que insere uma clara perspectiva metalingu�stica!).

Por outro lado, do lado de William, a identifica��o ocorre no sentido "de c� pra l�". Ora, se n�s os espectadores nos identificamos com a personagem, sabemos tamb�m que aquele mundo � muito inacess�vel. Qual � a probabilidade de nos encontrarmos com nosso �dolo? Zero, sabemos disso. O que fazemos, ent�o, � simplesmente projetar nossos desejos. Isso � t�pico do processo de identifica��o. Eu nunca vou ser o Hugh Grant, mas com certeza eu gostaria de passar meus momentos com a Julia Roberts. Assim o pensei no final de O Casamento do Meu Melhor Amigo. Sei que � imposs�vel, mas gostaria muito. A palavra gostaria insere o desejo pela identifica��o. � mais que natural nos identificarmos com o persongem de Hugh Grant, porque se estamos diante da tela vendo Notting Hill, � porque de certa forma (em geral) o mundo do cinema nos fascina, e gostar�amos de fazer parte daquele mundo.

Por v�rias vezes, William parece n�o acreditar que aquilo � verdade. Deve-se destacar que na primeira vez em que v� Anna, quando ela chega em sua livraria, a fotografia insere um componente irreal, de clara descontinuidade, quando mostra-se Grant destra�do e o resto da imagem totalmente fora de foco.

Outra cena digna de nota acontece na primeira "entrevista", no apartamento de Roberts. Grant diz que em seus sonhos, ele tem coragem para se levantar e beijar a garota, mas na vida real... Nesse instante, a c�mera ligeiramente se desloca, sugerindo um movimento de Grant na dire��o de Roberts, que n�o acontece gra�as � interven��o do agente de Roberts. Nosso mundo real � diferente do dos sonhos... assim como o nosso mundo � muito distante do mundo do cinema... Mas numa n�tida descontinuidade, o agente pergunta se Grant conseguiu o que queria, e o deixa fazer uma �ltima pergunta. A cena se parece muito com a extraordin�ria cena da passagem sob o viaduto nas g�ndolas em Veneza de O Casamento do Meu Melhor Amigo.

De fato, Notting Hill � um apanhado de v�rias cenas de outros filmes anteriores. As entrevistas coletivas e o pr�prio argumento do filme nos remetem a A Princesa e o plebeu. Um quadro (no caso de Chagall) como recorda��o de um grande amor tamb�m foi usado em Tarde Demais para Esquecer. Sem falar nas inevit�veis refer�ncias a Quatro Casamentos e Um Funeral. Outras refer�ncias a O Casamento do Meu Melhor Amigo est�o no papel dos coadjuvantes, o maluqu�ssimo Spike e a bicha que trabalha com Grant na loja.

Se o filme � frequentemente comparado a A Princesa e o Plebeu, uma diferen�a deve ser ressaltada. A mulher, como t�pica do cinema p�s-anos 80, � independente e ativa. Grant geralmente � indeciso, e parece n�o acreditar que uma mulher daquela, que poderia ter todos os homens que quisesse, escolhera justamente a ele. Ele � desastrado no encontro na livraria, e fala frases constrangedoras como "nosso encontro foi surrealista", ou oferece "abric� com mel". Por tr�s ou quatro vezes, � Roberts quem toma a iniciativa com Grant, beijando-o, ou mesmo convidando-o para subir (mas Baldwin estraga a festa) e ir para a cama (mesmo sendo incentivado por Spike, Grant deixa pra l�, e Roberts � quem vai ao quarto dele...).

Um ponto-limite dessa postura ativa e independente � discutida no filme de uma forma a meu ver claramente desengon�ada/amb�gua, e que � a parte mais fraca do filme. Pode-se confundir esse �mpeto ativo como um sinal de que as atrizes s�o "prostitutas". Essa insinua��o fica expl�cita na cena do restaurante, em que um grupo fala sobre Roberts. Curiosamente, o filme de certa forma confirma essas suspeitas. Logo em seguida, Roberts responde aos caras de uma forma vulgar (diz que o pau deles deve ser min�sculo), desnecess�ria, e completamente deselegante (como ela mesma em seguida diz a Grant). Em seguida, Roberts convida Grant para subir e descobrimos que seu namorado estava l�, o que � uma cena completamente desagrad�vel. Em outra, descobrimos que Roberts j� havia tirado fotos sem calcinha...

Essas cenas de um certo ponto de mau gosto se inserem na perspectiva americana do politicamente incorreto, que domina as com�dias de hoje. Quem Vai Ficar com Mary? investe nessa dire��o em v�rios momentos. Notting Hill critica a postura do politicamente correto quando a paral�tica se aproveita de sua defici�ncia para fazer com que Grant entre no hotel da entrevista coletiva no final do filme (a defici�ncia como forma de tirar vantagem tamb�m foi usado em Mary, por exemplo...). O medo de repres�lias (e uma poss�vel interpreta��o de preconceito) faz com que a paral�tica transcenda os seus direitos. O pr�prio Spike, um personagem idiota, aparece de cuecas na porta de casa (o que � uma ironia com a imprensa inglesa...).

Por �ltimo, embora Notting Hill seja um filme tremendamente convencional na est�tica, h� cinco planos que eu gostaria de destacar. 1) O primeiro j� foi citado, � quando Roberts entra na livraria, e a imagem fica desfocada. 2) Quando Grant leva Roberts para se limpar em sua casa, Grant tenta arrumar a bagun�a rapidamente, o que � filmado com "jump cuts", completamente at�picos numa produ��o mainstream. 3) H� um lindo e curioso plano em que � noite Roberts e Grant aparecem sentados em um banco, e a c�mera, inicialmente no n�vel dos olhos, faz um "crane" inusitado, e acaba mostrando os dois completamente de cima. 4) Na manh� seguinte em que fazem amor, Grant abre a porta de casa e se depara com os rep�rteres. A descontinuidade � tamb�m bastante interessante, com planos de curta dura��o. 5) Finalmente, h� tamb�m um at�pico long take, num longo travelling para direita mostrando uma caminhada de Grant pelas "feiras di�rias" de Notting Hill, logo ap�s a despedida dos dois ap�s o incidente comos rep�rteres.

Em suma, Notting Hill � uma t�pica com�dia rom�ntica, mas trata de pontos interessantes quanto � quest�o da identifica��o. De um lado, o movimento � "de l� pra c�": o mundo inacess�vel do cinema hollywoodiano fica mais acess�vel a n�s, quando percebemos que a atriz tem os mesmos problemas sentimentais que n�s. De outro, o movimento � "de c� pra l�": quando vemos um filme, inevitavelmente ficamos nos projetando ao lado da atriz do filme e daquele mundo maravilhoso hollywoodiano. O primeiro movimento � tratado de uma forma metalingu�stica: a personagem se mistura com a atriz, e o pr�prio cinema fala de si, de sua rela��o com a fama e com o comum.

Em �ltima inst�ncia, o conflito entre a fama e o comum � entre Notting Hill e Beverly Hills (melhor seria Hollywood!). Obviamente, como o t�tulo do filme confirma, a op��o � pelo comum, por Notting Hill, pela identifica��o, ou melhor dizendo, a op��o foi pelo p�blico.

Marcelo Ikeda.

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