2 SOBRE AS DUAS VERTENTES DO NEO-REALISMO ITALIANO: ENTRE O ESPECÍFICO E O
UNIVERSAL
Os neo-realistas italianos certamente compreenderam o caráter dúbio da impressão de
realidade no cinema. Segundo Kracauer, nenhum documentário refletiria tão bem a
situação da Itália do pós-guerra quanto Ladrões de Bicilcetas. O cinema narrativo
permite que o espectador se identifique com a personagem, apreendendo o drama vivido na
tela como se fosse seu próprio drama. De fato, mais que simplesmente retratar a
realidade, os cineastas do neo-realismo italiano queriam transformá-la. Seu cinema era,
portanto, necessariamente um cinema não só social, mas sobretudo político.
Entretanto, o cinema neo-realista não foi um movimento homogêneo. Esse cinema teve
duas vertentes básicas, que se expressam a partir dos dois principais diretores do
movimento. De um lado, Roberto Rosselini, o cineasta engajado, envolvido com a necessidade
de expressar a degradação espiritual do povo italiano para garantir sua sobrevivência
na Segunda Guerra. De outro, Vittorio de Sica, com a universalidade de sua poesia do
cotidiano, espelhando o desencantamento típico da Europa do pós-guerra.
A trilogia de Rosselini sobre a Segunda Guerra Roma, Cidade Aberta, Paisà, e
Alemanha, ano zero é permeada por uma aura de "sacrifício heróico" de
pobres inocentes que são tragados pela natureza demoníaca do sistema. Todos os
espisódios de Paisà se encerram com um desfecho trágico. Os americanos a princípio
tentam socorrer os italianos, mas a diferença de perspectivas resulta em
incomunicabilidade. O policial negro é incapaz de compreender o universo do ladrãozinho;
assim como a menina do primeiro episódio não foi capaz de guiar ou ser guiada pelos
soldados americanos. Em Alemanha, ano zero, tanto a antiga geração (o avô) quanto a
nova geração (o neto) estão condenados a se destruir mutuamente. A desagregação da
família é o retrato da perda de ideais do povo italiano. Mas seu melhor filme é
indubitavelmente Roma, cidade aberta. A inocência de Pina (Anna Magnani) provocou sua
morte absurda, correndo desesperadamente para os braços da morte. Mesmo o padre adota os
ideais comunistas, preocupado em lutar por um mundo mais justo, mas acaba fuzilado ao
final do filme. Marina vende seus próprios conceitos morais em troca de uma vida mais
confortável, mas acaba denunciando seu amante e cai em loucura. Mas através deste
sacrifício é que nascem as sementes para um regime mais digno. Esta é uma idéia
abertamente católica, mas Rosselini certamente era um indivíduo bastante religioso. De
certa forma, o padre Don Pietro (Aldo Fabrizi) é um alter-ego do diretor, como uma
necessidade de justificação por um católico defender idéias quase comunistas. Em 1950,
Rosselini fez Frederico, arauto de Deus.
Rosselini era o cineasta definitivamente engajado com o contexto específico da Itália
da época. Já os filmes de Vittorio de Sica eram menos diretamente engajados que os de
Rosselini, mas ainda assim seus filmes são um retrato perfeito da situação da época.
As personagens de de Sica não são bravos soldados lutando contra o regime, mas
simplesmente pessoas comuns tentando apenas sobreviver. O desmantelamento da possibilidade
de um equilíbrio reflete o típico desencantamento da Europa do pós-guerra. Cesare
Zavattini, um dos maiores teóricos do neo-realismo italiano, trabalhou ao lado de de Sica
no roteiro de Ladrões de bicicletas. Seu propósito era fazer um filme comum, com pessoas
comuns, mostrando que uma situação do cotidiano que nos poderia passar despercebida,
como numa notícia de jornal, poderia possuir um elemento autenticamente humano. Com isso,
além de expressar o clima da Itália da época, de Sica fazia um filme universal, pois
refletia a eterna vusca do ser humano pela realização de seus sonhos, que muitas vezes
são impossíveis. A simplicidade do argumento e a poesia do cotidiano de Ladrões de
bicicletas fascinou as platéias de todo o mundo. A bicicleta se tornava o símbolo dos
sonhos humanos, o real inatingível, e a degradação moral de Antonio Ricci espelhava o
pessimismo da época. O regime é completamente insensível às preocupações do ser
humano. Ao vender seus lençóis do enxoval de casamento, o funcionário da loja de
penhores escala uma escada interminável e os coloca junto a outras centenas de lençóis,
que provavelmente nunca serão usados. Quando Antonio vai à polícia pedir ajuda, um
policial pergunta ao atendente se houve alguma coisa, e ele retruca: "Não, é apenas
uma bicicleta.".
Em sua busca desesperada por reaver sua bicicleta, ou seja, sua dignidade como ser
humano, Antonio perde todos seus conceitos morais. Primeiro, utiliza os critérios
racionais: dá queixa à polícia, cerca os pontos de revenda, checa o número de
registro. Falhos os primeiros, o desespero leva Antonio a buscar métodos mesmo
irracionais: persegue um suposto suspeito que se revela epiléptico, e até consulta uma
cartomante. No estágio final de sua loucura, Antonio tenta o troco na mesma moeda,
roubando um bicicleta, mas é pego. O final é o mais infeliz possível: só resta a
Antonio voltar para casa no fim do dia com a vergonha nos bolsos, tendo que enfrentar o
fracasso com sua mulher e seu filho, que presenciara toda a peregrinação inútil do pai.
Se o desemprego, o desencantamento, as vielas labirínticas são típicas da Itália do
pós-guerra, o que dizer dos dias de hoje? Nenhum filme é tão específico e tão
universal quanto Ladrões de bicicletas.
Marcelo Ikeda.