"NENHUM A MENOS" : O PIOR FILME DA DÉCADA |
| Muito se tem dito aqui sobre uma progressiva tendência de um avanço de um
cinema mais humanista. A maior parte desse cinema promove um diálogo com o neo-realismo
italiano, através de locações naturais, representações e argumentos simples e um
certo tom social. Obviamente, humanismo não é sinônimo de qualidade. Embora se louvem
as intenções dos diretores, um certo grupo desses filmes fracassa, porque caem no
melodrama óbvio, tentando ao máximo comover o espectador, manipulando suas emoções.
Se Central do Brasil já foi criticado por muitos por isso, o que dizer de Nenhum a Menos? O Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1999, derrotando a obra-prima O Vento nos Levará, de Kiarostami, encheu o filme das maiores expectativas, dirigido por um diretor com uma filmografia de respeito, como Zhang Yimou. Co-produzido pela Columbia, o filme é uma lamentável sucessão de imagens desgastadas, banalizadas e mal-intencionadas. O filme nos lembra essencialmente que a decupagem clássica é um paradigma que subentende uma ideologia clara. E o mais impressionante é que Yimou trata os problemas de seu próprio povo com uma ingenuidade quase impossível de ser mantida. A história de Nenhum a Menos é típica de um filme neo-realista zavattiniano. Uma garota chega a uma aldeiazinha no interior da China para substituir o antigo professor que precisa fazer uma viagem. Quando um aluno foge da escola, ela decide a qualquer custo reaver o aluno. O filme tem uma nítida descontinuidade. A primeira parte é ambientada no interior, na aldeiazinha e na escola primária; a segunda se passa no caos da cidade. Na primeira parte, a jovem professora tenta lidar com as dificuldades dos alunos da aldeia, lembrando um pouco o tom de O Jarro. Duas cenas são estrategicamente montadas para nos sensibilizar. A primeira é quando lemos o diário de uma aluna, revoltada com o desperdício de giz. A segunda é quando descobrimos que o aluno mais indisciplinado da sala tem que abandonar as aulas e ir para a cidade trabalhar, porque sua mãe está doente. A professora resolve largar todos os alunos para ir atrás de um único aluno que, além de chato, era o que menos queria assistir às aulas. Ela então resolve arranjar dinheiro para ir até a cidade. Embora os alunos sejam quase miseráveis, eles tiram todo o dinheiro de seus bolsos para ajudar a empreitada. A professora, que no fundo não sabe nada, tenta pensar com os alunos como devem solucionar o problema. Nesse ponto, o filme incide em três avaliações absurdas. A primeira é o papel da escola. Ao invés de simplesmente copiar as lições que o professor passava, os alunos passaram a criar e pensar soluções para um problema prático que se observa. Desse modo, o filme reduz o papel do professor e da teoria. O que importa é a solução de um problema de ordem prática, e os alunos foram capazes de eles mesmos chegarem à solução dos problemas, ensinando uns aos outros. Yimou defende que a professora, nesse caso, foi melhor do que o primeiro professor, porque seu ensino realmente serviu como solução para um problema claramente estabelecido que se apresentava na prática. O aspecto utilitarista de seu cinema está mais que evidente. A segunda é a exaltação do trabalho infantil. Para resolver o problema, a professora chegou a conclusão que se os alunos carregassem milhões de tijolos, eles conseguiriam o dinheiro. Os alunos, então, simplesmente abandonam a sala de aula e se sacrificam para carregar um conjunto de tijolos, trabalhando como escravos para arranjar o dinheiro necessário. Mas a terceira é ainda pior que as duas anteriores multiplicadas. Conseguido o dinheiro e comparado ao valor suposto da passagem, sobraria um troco. Com esse dinheiro, (que poderia ser usado, por exemplo, para se comprar uma caixa de giz!), os alunos se engalfinham como verdadeiros animais, para experimentar um pequeno golinho de uma coca-cola quente, apresentada como a primeira maravilha do mundo. As crianças quase choram, como se estivessem diante de um ídolo sagrado ou de uma visão. Quando a professora vai até a cidade, o filme tem uma clara descontinuidade. Perdida no caos da grande cidade, com a incomunicabilidade das grandes multidões, a professorinha se vê como um simples átomo no meio de toda aquela gigantesca engrenagem. Suas tentativas são todas desengonçadas: a ajuda de uma garota que pouco se importava com o destino do menino, os cartazes, e por fim a televisão. O destino da professora estava quase sendo o mesmo do menino, que se tornara um pedinte. Daí Yimou encontra a solução redentora, a única que de fato pode ajudar a menina: a televisão. Através de um anúncio na televisão, a menina finalmente acha o garoto. Há um grande número de donativos, o garoto diz que a pior coisa que ele passou foi ter que implorar por um prato de comida, a equipe de filmagens volta para a aldeiazinha e enche a escola de giz, agora coloridos. Por fim, para acentuar o tom neo-realista do filme, há letreiros finais sugerindo que o filme foi baseado em uma história real. Um item a ser ressaltado é que todo o filme gira em torno da questão dinheiro. Isso apenas reforça a abordagem materialista e utilitarista de Yimou. A garota só aceitou o cargo do professor porque iria receber (prometido pelo prefeito) uma boa quantia de dinheiro. Por isso, ela estava pouco se importando se os alunos copiavam ou não a lição. De fato, a professora só saiu à procura do aluno porque o professor lhe disse que ela só receberia seu dinheiro se todos os alunos continuassem na escola (daí o título nenhum a menos!). Uma outra aluna, que corria bem, foi incentivada a abandonar a escola porque o prefeito receberia um dinheiro dos interessados. Outro ponto é que o aluno contou ao prefeito onde a aluna estava escondida em troca de dinheiro. Para a professora poder viajar, era necessário dinheiro, conseguido através do trabalho de carregar tijolos. A coca-cola foi comprada com dinheiro. A passagem do ônibus foi comprada com dinheiro. Na cidade, a garota só aceitou ajudar a professora em troca de dinheiro. Para fazer os cartazes, foi preciso comprar papel e tinta. O aluno não tinha dinheiro nas ruas para comprar comida, e parou na frente de um restaurante, lugar onde se troca comida por dinheiro. A professora não conseguia colocar um anúncio na televisão porque não tinha dinheiro. Desse modo, é uma conseqüência natural que a solução de todos os problemas seja o dinheiro e o poder da televisão, o órgão que de fato controla as ações da sociedade capitalista. Os exemplos máximos do capitalismo estão representados no filme, seja a coca-cola ou a televisão. Todos esses argumentos são expostos de uma forma tão explícita, quase beirando ao ridículo, que muitos interpretaram todo o filme exatamente como uma grande crítica a todos esses valores, contra o capitalismo, contra a coca-cola, contra a televisão. Essa interpretação de crítica é até natural, porque seria absurdo esperar o contrário de um cineasta tão respeitado, de uma filmografia tão delicada e sensível, um cineasta que sempre tratou de temas polêmicos em seu país, de um artista nada ingênuo como Yimou. Mas se Yimou está sendo irônico, ele é então o maior cínico do mundo, maior que o maior sofista, ou o maior cético. Porque em cada enquandramento, na música melosa, no campo-contracampo, em cada diálogo, existe uma legitimidade clara ao sistema capitalista e ao cinema clássico narrativo. Nos filmes de Yimou, a política sempre apareceu como pano de fundo que acabava motivando a ação de seus personegans. Seus filmes sempre apresentaram comentários sutis contra a opressão do regime comunista chinês. Agora, com a abertura do país, Yimou claramente sinaliza as glórias do capitalismo contra o retrógrado regime chinês. Embora a cidade também seja palco de desigualdades, Yimou diz que é impossível não se conviver com o cerscente papel do dinheiro na vida das pessoas. E dinheiro é capitalismo. Mesmo no interior, há capitalismo: no giz, no prefeito interesseiro, no vendedor de tijolos, no desejo pela coca-cola, na mãe que manda o seu filho trabalhar. Não há como essa tendência ser revertida. Na cidade grande, apesar das desigualdades, a professora encontrou a redenção, a oportunidade de transformar a sua vida, de encontrar a sua solução e ajudar sua escola decadente. Se o interior é a China, quase feudal, retrógrada, isto é, comunista, a cidade é a possibilidade de realização dos sonhos, mesmo que não se neguem as desigualdades. A cidade é o capitalismo. Meus argumentos que mostram que Yimou não usa nenhuma ironia ao tratar o tema é que ele quer de fato que nos sensibilizemos com o problema da professora. De fato, Yimou é tão idiota quanto a professora que fica perguntando a todos que saem da fábrica se ele é o chefe. Por exemplo, Yimou quer que tenhamos pena do garoto abandonado na cidade, embora ele seja um grande peste. O garoto virou mendigo, por exemplo, e não um pivete. Isso mostra que no fundo o garoto é bom, e isso salva o sistema. Mesmo as desigualdades do sistema não são o suficiente para perverter uma criança boa. Yimou quer que fiquemos com raiva da mulher na portaria que barra a professora, e que louvemos a gentileza do dono da companhia, que permite que a professora apareça no jornal. Os créditos no final do filme reforçam que a ironia não existe. O pior é que assim como a televisão foi apresentada como a redenção para os problemas da menina, o próprio cinema de Yimou se apresenta como exibidor das verdadeiras injustiças do mundo. Ora, muitas pessoas, findas o filme de Yimou, de fato ficaram tão sensibilizadas que ficaram com vontade de mandar donativos para as pobres criancinhas chinesas, assim como as pessoas que assistiram à televisão (no filme de Yimou) o fizeram. A metalinguística é explícita, e se apresenta principalmente quando a menina tenta falar para o olho da câmera. Assim como a menina fala para a câmera da TV, ela também está falando com a câmera de cinema, que grava o filme de Yimou. O "fictício" espectador da TV se confunde conosco, que assistimos ao filme de Yimou. De fato, esse é um dos pontos de mais alta carga dramática do filme. Se no terceiro parágrafo foi dito que a história de Nenhum a Menos é típica do neo-realismo zavattiniano, o filme certamente não é neo-realista. Isso porque o neo-realismo é acima de tudo uma "ética da estética". A simplicidade estética do neo-reaslimo italiano em hipótese alguma pode ser confundida com os recursos paradigmáticos do cinema clássico narrativo, que querem "hipnotizar" o espactador para inconscientemente promover uma ideologia. A simplicidade neo-realista deve ser associada com o realismo de um certo tipo de olhar para a realidade (conforme Bazin), e o olhar neo-realista sempre é um olhar ético. Por isso, por definição, um filme neo-realista nunca pode ser produzido pela Columbia. O olhar neo-realista busca a simplicidade como uma forma de transcendência, e nunca como legitimação. Resta-nos esperar o próximo filme de Yimou, para que ele possa confirmar ou negar suas impressões. Mas o mais surpreendente de toda essa história é o fato de o filme ter ganhado o principal prêmio de um festival da incontestável categoria de Veneza. Marcelo Ikeda. |