"NOITES DE CIRCO" : OS DILEMAS DO ARTISTA E OS NOVOS RUMOS DA FILMOGRAFIA DE BERGMAN


 

Embora o sueco Ingmar Bergman seja mais conhecido pelos filmes que retratam a ang�stia da exist�ncia humana, o in�cio de sua cinematografia � marcado por um retrato mais l�rico e menos pessimista, influenciado pelas tradi��es dos pioneiros do cinema n�rdico como Sjostrom e mesmo Stiller. Os principais exemplos dessa primeira fase do cinema bergmaniano s�o Chove sobre nosso amor (1946) e Quando as mulheres esperam (1952). Em meados dos anos 50, Bergman buscava sua verdadeira identidade autoral, al�m dos limites dos melodramas, que aprofundasse suas preocupa��es metaf�sicas sobre o sentido da exist�ncia e da necessidade de Deus. A obra de Bergman ao longo dos anos 50 reproduz essa fase de transi��o, mesclando filmes que tendem para o melodrama po�tico, como Li��o de amor (1954), com filmes profundamente existencialistas, cujo melhor exemplo � sua obra-prima O S�timo Selo (1957). Entretanto, o primeiro filme de Bergman a obter os elogios un�nimes dos cr�ticos e despertar a aten��o internacional foi Noites de Circo (1953). Este � o primeiro filme em que Bergman recusa os padr�es do melodrama para compor uma obra definitivamente autoral, marcada, em contraposi��o aos temas da primeira fase, pela ang�stia, desprezo, falta de perspectivas e humilha��o pr�prios do ser humano.

J� no in�cio do filme, Bergman prop�e um panorama devastador para a condi��o humana. A lentid�o e o ranger das rodas das velhas e empoleiradas carro�as trazem os componentes de um circo decadente e sem vida, uma ant�tese da imagem de um t�pico espet�culo circense. Visualmente, a cena � de um impacto nunca visto anteriormente nas demais obras do diretor. A fotografia com ilumina��o m�nima num "long take" bel�ssimo, aliada �s in�meras fus�es que d�o a id�ia de tempo, e os planos-detalhe das rodas de madeira atravessando as po�as d’�gua, s�o a imagem–s�mbolo da trupe de palha�os envolta numa armadilha do destino. O sil�ncio e a aus�ncia de di�logos conferem � cena uma in�rcia irrevers�vel. Aos mendigos travestidos de saltimbancos, s� lhes resta sua peregrina��o eterna.

No primeiro di�logo do filme, o condutor da carro�a conta a Albert (Ake Gronberg) uma hist�ria ainda mais devastadora. A estrutura de epis�dios em flashbacks ser� uma constante nos filmes posteriores do diretor (como Gritos e Sussurros, 1972). Ap�s a primeira apresenta��o do "mundo exterior" do circo, a in�rcia da peregrina��o sem rumo das carro�as e a condi��o miser�vel dos saltimbancos, o epis�dio � uma apresenta��o exata do "mundo interior" do circo, a mis�ria da alma e as limita��es do ser humano. O palha�o Frost � ridicularizado quando sua esposa Alma resolve se banhar nas �guas de um rio com um grupo de soldados. Bergman aproxima Frost de um m�rtir, quase como a figura de Jesus Cristo. Frost carrega sua esposa, pesada como uma cruz, mal suportando o peso e arrastando-se entre as pedras do caminho. Quando finalmente sucumbe, sendo carregado pela multid�o que antes o ridicularizava, Frost abre os bra�os como Cristo na cruz. O pr�prio fato de Frost ser um palha�o simboliza a contradi��o do esp�rito alegre do circo com a decad�ncia da trupe. Frost � um palha�o sem alma, que provoca risos a partir da sua pr�pria decomposi��o espiritual. Depois do incidente, Frost continua com Alma, conformado com seu destino inevit�vel, a eternamente carregar sua cruz. Mais tarde, vemo-lo b�bado, ao lado de Albert, quando este quer se matar. Frost, agora, assume um olhar tragic�mico, como se a �nica alternativa para conviver com seus fantasmas fosse se olhar como uma caricatura de si mesmo. � como se Frost representasse um papel para si mesmo, o mesmo papel de palha�o que provocou as gargalhadas dos soldados quando retirava sua esposa do rio. A bebida � um outro recurso para justificar sua insanidade. A pesada maquiagem funciona como uma esp�cie de m�scara que, com suas cores e formas artificiais, seja um escudo do mundo, uma forma de esquecer os antigos traumas, transformando sua vida na vida de um mero personagem. Mesmo seu estilo de representa��o assume varia��es que representam as divis�es de sua personagem: ora uma representa��o maneirista, exagerada, como na cena da tentativa de suic�dio de Albert, ora melanc�lica, com uma express�o m�nima, como na cena da partida do circo.

Outra personagem cujo estilo de representa��o � real�ado por Bergman � Albert. A tens�o de Albert, que se quer ver afinal livre da maldi��o do mundo circense, � expressa atrav�s do suor. Seu porte supostamente elegante reflete na verdade uma caracter�stica de buf�o, por ser demasiado artificial. Por isso, Albert � ridicularizado pelos membros do teatro. O contraste � visivelmente expresso na visita de Albert � sua ex-esposa. Embora queira aparentar eleg�ncia, as roupas de Albert est�o sujas e inclusive rasgadas. Nessa cena, Albert sua de forma claramente excessiva, quase al�m dos limites de um humano. Em outras cenas, o suor tamb�m domina o rosto de Albert, quase encharcando seus olhos esbugalhados, como na cena da tentativa do suic�dio e da humilha��o no palco do circo. De fato, n�o � exagero afirmar que Bergman adotou um estilo de representa��o expressionista para Gronberg, como se fosse um novo Emil Jannings.

Embora Noites de Circo claramente se diferencie dos filmes anteriores do diretor, a heran�a do melodrama continua presente. O fatalismo do filme o aproxima dos filmes mais pessimistas do diretor, como Crise (1945), e Pris�o (1949). A trag�dia amorosa do primeiro casal, com a humilha��o do palha�o Frost ao se confrontar com a trai��o de sua esposa, ser� repetida com Albert e Anne. Ambas as mulheres querem se afastar do circo, aproveitando a oportunidade de se deparar com um grupo de estranhos, sejam os soldados no caso de Alma, ou o ator de teatro, no caso de Anne. A repeti��o da trag�dia evidencia a estrutura c�clica de Noites de Circo. O final, com as carro�as avan�ando pelas estradas, � exatamente uma continua��o do in�cio do filme. A estrutura circular reflete a in�rcia do mundo do circo, e a irreversibilidade da escolha por esse mundo. O destino acompanha os passos da trupe de saltimbancos, mantendo-os presos a suas pr�prias limita��es. No final, o conformismo mudo de Albert, que segue, junto a Anne, o trotar dos cavalos das carro�as, ainda mais acentua o fatalismo do filme.

Por um lado, esse fatalismo reafirma os dilemas e a dificuldade de Bergman na transi��o para uma nova fase de sua filmografia, procurando evitar os recursos mais estilizados dos anteriores melodramas superficiais para ingressar definitivamente num estilo autoral que refletisse a sensibilidade de sua vis�o de mundo e suas d�vidas como indiv�duo e como artista. Bergman tem a plena consci�ncia que sua escolha envolve um caminho irrevers�vel, onde ele precisa expor seus medos, suas fraquezas e sua impot�ncia para todo o p�blico. Os filmes dessa nova fase, portanto, s� poderiam ser bem-sucedidos se Bergman se abrisse por completo, radiografando as vertigens de sua alma na pel�cula. Para expor de forma definitiva seus fantasmas interiores, � preciso, em primeiro lugar, conviver com eles, relembr�-los, trazer � tona os momentos mais amargos, e explor�-los at� as �ltimas conseq��ncias. Por isso, para que a nova fase de Bergman fosse acertada, era preciso que se acostumasse com o sofrimento. Somente a partir do contato �ntimo com o sofrimento � que Bergman poderia fazer bons filmes, e receber elogios e aplausos por seu filme. Do mesmo modo, o espet�culo circense � uma grande ironia, que coroa o sofrimento, as contradi��es e as ang�stias da trupe de saltimbancos. O novo cinema de Bergman escapa da superf�cie do mundo, como seria simplesmente apresentar a alegria do espet�culo de circo, para mostrar que, por tr�s do processo de se fazer cinema, muitas vezes mistificado pelo p�blico, existe um dilema cont�nuo do artista em busca de uma ess�ncia decididamente autoral para sua obra.

Dessa forma, Noites de Circo promove uma esp�cie de jogo com as farsas da apar�ncia. Os cr�ditos iniciais e finais do filme, semelhantes de forma a refor�ar a circularidade do filme, exibem um palco com uma cortina, mostrando que o filme pode ser considerado como uma encena��o. � como se o espectador estivesse sendo apresentado a um espet�culo, que ir� mostrar as culpas, os medos e a inseguran�a do pr�prio Ingmar Bergman, e que no final aplaudisse e admirasse a degrada��o moral do artista. Bergman mostra que no fundo sabe o pre�o que deve pagar, mas a sua coragem em ainda assim fazer um novo cinema n�o deve ser considerada como um sinal otimista. De fato, o fatalismo do filme � uma prova de que a escolha por esse novo cinema na verdade foi involunt�ria. O autor n�o pode negar sua ess�ncia de esp�rito, e Bergman foi escolhido pelo destino para um rumo que, se tivesse a op��o n�o seguiria. Tanto Albert quanto Anne se exp�em a consecutivas situa��es de humilha��o para tentar fugir do mundo do circo, e no final permanecem porque n�o lhes resta outra alternativa.

A impot�ncia do artista est� refletida na humilha��o do dono do circo pelo ator de teatro. De fato, o p�blico presente ao espet�culo aplaude e se ri da cont�nua humilha��o sofrida por Albert. Da mesma forma que o espectador fica maravilhado com essa bel�ssima seq��ncia, uma das mais marcantes da carreira do diretor. A cena �, portanto, um espet�culo dentro de um espet�culo, e as compara��es s�o inevit�veis. Enquanto Bergman exp�e as cicatrizes definitivas de seu novo estilo autoral, o espectador se encanta e aplaude a indiscut�vel excel�ncia art�stica da cena.

Esta vis�o do autor de cinema enfrentando dificuldades semelhantes ao grupo circense reflete um certo car�ter marginal do pr�prio cinema entre as demais artes. O cinema � um processo bastante heterog�neo, havendo filmes de arte que dividem espa�o com os filmes claramente comerciais. Decerto que as demais artes enfrentam, em maior ou menor grau, um problema semelhante, mas a caracter�stica tipicamente industrial do cinema torna o limite entre arte e com�rcio ainda mais t�nue. No cinema, o artista � marginal, sendo sua obra constantemente subvalorizada em compara��o com as demais artes. Assim como o pr�prio mundo do circo e a trupe de saltimbancos. Quando o grupo circense divulga as suas atra��es ao longo da cidade, o poder estabelecido zomba e humilha a trupe de saltimbancos, especialmente um palha�o que tenta defender o dono do circo. As gargalhadas do povo ainda mais provocam a f�ria do agressor, que destr�i um dos cartazes do circo.

O mundo torpe e miser�vel do circo � ainda contrastado com o glamour do grupo de teatro. Albert se humilha e praticamente oferece sua esposa para simplesmente ser recebido pelo dono da companhia. O grupo circense se encanta com as roupas e acess�rios emprestados pelo dono do teatro, que de fato lhe s�o apenas restolhos. Assim como mais tarde Anne ir� se vender por um simples colar falso, sem nenhum valor.

Mas talvez o mundo do circo (ou do cinema) n�o seja t�o absolutamente pessimista. Embora Bergman exponha as agruras desta escolha inevit�vel, o mundo do circo proporciona uma maior liberdade em rela��o ao teatro, preso aos ensaios constantes que evitam a improvisa��o, e � postura elitista de seus membros. A ingenuidade e a fragilidade dos componentes do circo s�o expostas nos contatos com o mundo exterior, seja quando Albert visita sua ex-esposa, seja quando Anne procura o ator de teatro, mas s�o contrastados com a frieza ou a indiferen�a dos demais. De qualquer forma, em Noites de Circo impressiona a maturidade e o equil�brio de Bergman em expor os problemas cr�ticos que atingem o impasse nos rumos de sua filmografia e os dilemas do artista de cinema em geral.

Marcelo Ikeda.

 

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