A CIDADE DOS SONHOS: descosturando o prazer pelas regras do jogo

 

 

Minha chefe, no meu trabalho como economista, teceu uma importante considera��o sobre A Cidade dos Sonhos. Ela j� sabia que seria um "filme maluco", mas que lhe disseram que ainda assim o filme causava prazer ao ser visto. De fato, essa � a chave para o cinema de David Lynch: o prazer. Ou melhor, um processo amb�guo de sedu��o do espectador. Como podemos pensar que um filme com todas as descontinuidades de A Estrada Perdida e A Cidade dos Sonhos, que se afastam completamente do principal pilar da narrativa cl�ssica americana (a rela��o causa-efeito), consiga ser realizado em plena Hollywood e ainda, no caso do �ltimo, indicado a um Oscar de melhor dire��o?

Consegue porque David Lynch possui um refinado senso de quando atrair ou repelir o espectador, e nesse sentido seus filmes s�o pequenos exerc�cios de composi��o. Durante toda a segunda parte de A Estrada Perdida, o filme torna-se uma historieta noir, com os atropelos de um mec�nico e sua amante, a mulher de uma esp�cie de g�ngster. Fascinado, o espectador acompanha essa sub-hist�ria como um thriller, com todas as motiva��es do tradicional cinema americano. De uma forma completamente oposta mas que no fundo � a mesma de Acossado, quando Jean Seberg e Belmondo discutem num quartinho inutilmente (entre aspas, claro) durante quase metade do filme. Lynch n�o pretende romper com o paradigma desse cinema, mas quer, dentro de suas estruturas convencionais, desconstru�-lo. Ou seja, Lynch n�o quer partir, quer descosturar. Essa � a sutileza e a del�cia do projeto de Lynch.

*  *  *

A Cidade dos Sonhos talvez seja a grande obra-prima do cinema de David Lynch, talvez ainda mais importante que Veludo Azul. O que � particularmente comovente nesse ambicioso filme � que ele s� foi poss�vel ap�s a realiza��o de um projeto bastante menor: A Hist�ria Real. Lynch soube aproveitar um (a princ�pio) projeto de encomenda como uma investiga��o sobre o ritmo e o tempo, e com isso converteu um filme isolado de suas principais caracter�sticas num indispens�vel ensaio de aprendizado para sua obra posterior. Ora, se um dos principais aspectos da obra de Lynch � o trabalho com o tempo e a narrativa, uma vari�vel fundamental � o ritmo e assim a montagem. � impressionante notarmos que os principais colaboradores de Lynch trabalharam tamb�m em A Hist�ria Real: a montadora Mary Sweeney (sua esposa), o desenhista de produ��o Jack Fish, e o m�sico �ngelo Badalamenti. Em suma, A Cidade dos Sonhos � um trabalho de maturidade.

Neste filme, ao contr�rio de A Estrada Perdida, tudo faz parte de um trabalho de prepara��o ardiloso, coerente e articulado. As v�rias hist�rias paralelas e o grande n�mero de personagens poderiam sugerir a composi��o de um filme-painel � moda de Altman. A proposta de encaixar essas diversas hist�rias poderiam transform�-lo num esp�cie de quebra-cabe�as como um Amores Brutos. Mas a proposta de Lynch escapa ao olhar ir�nico e cr�tico da sociedade americana (respeitados os bons momentos de Altman e P. T. Anderson) ou ao mero quebra-cabe�as linear, porque suas pe�as n�o necessariamente se encaixam. Mas nada interessa a Lynch, nem mesmo o jogo formalista a que seu trabalho tem sido inevitavelmente rotulado a n�o ser a possibilidade de fazer cinema.

Agora, Lynch n�o precisa mais provocar o espectador pelo prazer da provoca��o, n�o precisa mais permear o filme de personagens bizarros para reche�-lo de cacoetes estilosos, n�o precisa se desbravar com um tra�o t�o raivoso e an�rquico. Desconstruir, ou melhor descosturar, agora � sin�nimo de um processo de constru��o �ntimo e quase ritual�stico. O filme vai se desvelando ao espectador na medida em que o carretel se esvazia. Esse � o prazer que transborda de A Cidade dos Sonhos.

Se Lynch chegou � maturidade com A Cidade dos Sonhos, um filme, no acertado t�tulo em portugu�s, sobre Hollywood, ele n�o deixou de realizar um filme tipicamente lynchiano, de forma que at� chagamos a perdoar algum cacoete t�pico dos vinte minutos finais. Um filme sobre o prazer, mas essencialmente sobre o prazer da constru��o de um universo narrativo. Uma esp�cie de jogo com a percep��o do espectador, quase herdeiro de um Hitchcock, dada uma fina ironia. Somos entregues a um mundo de regras pr�prias que se integram a um conjunto de clich�s mas articulados de forma que o espectador ainda acredite em um processo de busca e de fus�o. A coragem de Lynch, refor�ada de forma brilhante neste filme, � provar, ao final do caminho, que tudo apenas faz parte de um jogo, que toda possibilidade de s�ntese � redutora.

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Para quem pessoalmente possui uma rela��o com o cinema que suplanta as idas semanais e os bate-papos da esquina, assistir � Cidade dos Sonhos passa a ter outra conota��o: torna-se uma aula de cinema contempor�neo. Isso se torna mais claro quando Lynch, de forma mais clara que em qualquer outro trabalho seu, exp�e de forma sutil e visceral, sua vis�o do processo f�lmico. Aqui aparecem os ensaios, os testes de elenco, o diretor esquizofr�nico, a ironia auto-referencial. Mas por outro lado, e o que at� pode ser visto como o mais surpreendente, uma vis�o �ntima e franca como poucas vezes se v� sobre o assunto, sem os devaneios rom�nticos e melanc�licos sobre a figura do diretor.

Como ent�o n�o ficar extasiado com a cena em que a jovem atriz interpreta uma cena inicialmente burocr�tica com um vigor indescrit�vel quando misteriosamente, no instante do teste, ela percebe que o contexto � absolutamente diferente? A partir da�, qual � o valor do texto, do roteiro, do filme?

Como pode ser poss�vel comentar a cena em que as duas amigas v�o ao teatro e assistem a um espet�culo (assim como n�s estamos assistindo) em que o apresentador afirma que tudo aquilo � uma constru��o? A m�sica, os gestos, as palavras, tudo est� gravado e determinado. N�o h� banda, n�o h� orquestra, n�o h� nenhuma possibilidade de cria��o. E misteriosamente, logo em seguida, surge uma cantora que interpreta com tal vigor (oh! o cinema...) que prendemos a respira��o e choramos junto com as duas mulheres sentadas no audit�rio... E ent�o a cantora desmaia, e Lynch nos relembra que tudo � falso, tudo � parte das regras do jogo, que n�o h� banda nem orquestra. Apenas o sil�ncio.

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Mas o que faz A Cidade dos Sonhos se aproximar tanto de A Hist�ria Real? Talvez seja a necessidade de se expor sem ser t�o defensivo, em evitar as armadilhas formalistas e acreditar um pouco mais nos personagens. Da� que este � seu filme mais coerente em termos de dramaturgia. Com isso, descobrimos o que estava quase t�o oculto em Lynch quanto est� em Takashi Miike: seus personagens transbordam de uma fragilidade nunca antes percebida. S�o corajosos, buscam seus objetivos, mas se revelam indefesos como num barco � deriva. Surge ent�o o esplendoroso envolvimento entre as duas mulheres, cada vez mais humano, cada vez mais cr�vel, at� a explicita��o da paix�o entre as duas, numa cena de envolvimento que foge completamente dos chich�s das rela��es homossexuais. � a prova que este ambicioso filme de David Lynch (at� pela sua dura��o) ao mesmo tempo em que � um invent�rio de sua filmografia oferece novos caminhos para o espectador e para o contempor�neo cinema americano...

Marcelo Ikeda

(08/05/2002)

 

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