"MIFUNE" : UM FILME TÍPICO E ATÍPICO DO DOGMA95


 

Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, Mifune é o terceiro filme do Dogma95. Os anteriores foram Os idiotas (Von Trier) e Festa de Família (Vintenberg). Muito se disse sobre as diferenças de Mifune para os filmes anteriores do movimento, mas Mifune guarda inúmeras semelhanças com os filmes do Dogma95.

Talvez a maior diferença de Mifune seja o acabamento. Quando comparamos Mifune com Festa de Família, por exemplo, a diferença entre a utilização da câmera digital é gritante. A estética radical de Vintenberg é intencionalmente mal acabada, expondo claramente a granulação da kinescopia. Ao contrário, Mifune poderia ser confundido facilmente com um filme de 35mm para o espectador menos atento. Mais ainda assim a fotografia de Mifune raramente é homogênea. Logo no início do filme, quando Kresten sonha com um samurai, vemos um belíssimo céu azul ao fundo da figura solitária. Entretanto, quando Liva atende o seu celular sozinha em um bar, o granulado é imediatamente perceptível. Quando Kresten redescobre sua antiga casa, o plano geral, com o mato cobrindo parte da casa, é basteante desigual. Mas já no final do filme, quando Kresten procura Rud, mas só encontra suas roupas, há o mais belo plano do filme. Um grande plano geral, filmado em plongée, mostra Krenten deitado no meio da plantação. Os caminhos para o pedestre abrem um espaço entre o mato alto, o que forma uma espécie de labirinto que espelha a confusão mental da personagem. Mas, de qualquer forma, mesmo com tais desigualdades, Mifune é um exemplo da possibilidade de uma fotografia bem acabada mesmo com os limites estabelecidos pelas regras do Dogma.

Mas o principal argumento utilizado para dizer que Mifune é um filme atípico do movimento dinamarquês é o próprio desenvolvimento narrativo. Em contraste com a energia e a fúria dos dois filmes anteriores, em Mifune está ausente a radicalidade quase niilista, o argumento modelado para chocar as convenções da sociedade aceitas pelo espectador. Ao contrário, é o primeiro filme do movimento que claramente apresenta uma história de amor. Em Os idiotas, dois personagens se apaixonam quando fazem amor, mas as perspectivas do par romântico são violentamente contrastadas quando o pai da menina a arranca do meio do grupo, fazendo seu namorado pirar pela primeira vez. Em Mifune, a história de amor é desenvolvida segundo o modelo hollywoodiano. Duas pessoas carentes se encontram pelas forças do destino, se aproximam, enfrentam obstáculos vinculados com o seu passado, seja a esposa no caso de Kresten ou a prostituição no caso de Liva, se apaixonam, se afastam, mas no final ficam juntas. O comentado romantismo da história, um forte contraste com a radicalidade dos filmes anteriores, só pode ser interpretado de duas formas: ou a história romântica é uma concessão ao modelo do cinema narrativo americano, de olho numa possível repercussão comercial nos EUA, ou é uma grande sátira a este mesmo tipo de cinema. Entretanto, a segunda hipótese se torna difícil de ser sustentada pelo final de Mifune. Finalmente, a família consegue ser reunida, feliz e sem divergências, aceitando suas limitações (embora Liva não tenha contado sobre "como ganhava a vida"). Liva e Kresten dançam abraçados no interior da sala, enquanto os irmãos de ambos fazem piadas sobre os dois e se retiram (assim como logo em seguida nós também o faremos, quando a câmera se retira sorrateiramente, ainda espiando o casal pela janela com uma certa distância, e o filme acaba). Mas é exatamente o clima romântico do desfecho de Mifune que pode ser usado como um argumento para defender uma possibilidade de sátira ao modelo hollywoodiano, considerando o final aos moldes de A última gargalhada (F.W. Murnau, 1925). Entretanto, neste final, vemos uma grande vontade do diretor de trair seu "voto de castidade", no limite em romper um dos mandamentos do movimentos. Fica claro que o diretor está prestes a encerrar o filme num fade-out, e só não o faz porque é impedido pelos princípios do Dogma95. Mas no fundo é como se o filme realmente acabasse num fade-out, mesmo com o corte seco.

Iben Hjejle, a linda Liva, é no fundo uma espécie de Elisabeth Shue dinamarquesa. De fato, o filme lembra Despedida em Las Vegas (Mike Figgis, 1997). Nos dois filmes, há o encontro de dois marginais que acabam se envolvendo numa história de amor. Mas o filme americano é ainda mais amargo que Mifune, especialmente pela diferença entre seus finais. Na comparação com o filme americano, ficam ainda mais claro as concessões à narratica clássica hollywoodiana feitas por Mifune.

Essa vontade do diretor em escapar dos limites do movimento, expressa no final e em algumas outras cenas, especialmente quanto à iluminação dos interiores, reflete a sua própria participação no movimento. Diferentemente de Von Trier e mesmo Vintenberg, Kragh-Jacobsen não foi um dos fundadores do Dogma95, mas na verdade, foi convidado por Von Trier para fazer um terceiro filme de movimento. O diretor, portanto, não veio das bases de formação do Dogma95, mas é quase como um elemento externo. Isso mostra que a repercussão do Dogma95 talvez não tenha sido tão grande quanto a princípio imaginávamos. De qualquer forma, as concessões comerciais de Mifune exemplificam uma contradição do próprio movimento, que muitos já assinalavam anteriormente, dizendo que o Dogma é na verdade um movimento sem alma, um modismo que pretende chocar o espectador com o único intuito de divulgar a filmografia dinamarquesa. Mas não sejamos tão precipitados. Entre o marasmo do cinema da segunda metade dos anos 90, pós-Pulp Fiction, os dois filmes do Dogma95 foram de fato inovadores, seja na estética, com o uso das câmeras de vídeo digitais, seja no conteúdo, com uma forte crítica às convenções hipócritas da sociedade pequeno-burguesa.

Mas por outro lado, Mifune é um filme típico do Dogma95. O filme, de fato, é uma crítica ao mundo pequeno-burguês da cidade que Kresten abandona, embora involuntariamente, para voltar à cidade onde nasceu, para ver o enterro do pai. Da mesma forma, Liva mija no tapete do rico e pervertido diretor de escola, e decide ser uma empregada doméstica. O irmão de Liva não gosta das normas da escola, o símbolo da sociedade para os que ainda não são adultos, e acaba sendo expulso. O caso de Rud é anda mais radical. Ele simplesmente não se encaixa nos padrões de normalidade da sociedade, sendo considerado um louco. Mas várias vezes ao longo do filme, as personagens dizem que todos estão loucos, com exceção de Rud. Rud seria, então, um exemplo de resistência às convenções da sociedade, estando sempre "pirado", aos moldes de Os idiotas.

De fato, Mifune possui características que o aproximam dos filmes do Dogma95. De Festa de Família, a semelhança é o desmascaramento da farsa do mundo burguês que vive calcado nas aparências. A esposa de Kresten se comporta na cama quase como uma prostituta, com a única diferença que, enquanto Liva tem nojo de sua profissão, a esposa sente prazer. As perversões do mundo burguês se revelam nos atos sexuais. O diretor da escola gosta de apanhar de mulheres. Por isso, Mifune mostra a transição do mundo aparentemente perfeito de Kresten para mostrar a sua verdadeira origem. O início do filme nos apresenta um casal tipicamente feliz. Mas a trágica notícia da morte do pai provoca uma ruptura de perspectivas que transforma o filme. Kresten tem vergonha de seu passado, de seu pai ignorante que não via há vários anos, de seu irmão retardado, de sua casa no interior decadente, e quer esconder seu passado para a elitizada família de sua esposa, mas isso é naturalmente impossível. Vemos que no passado Kresten era inclusive humilhado e espancado por um vizinho, e volta a ser quando retorna para casa. Kresten tem um acerto de contas com seu passado, um diálogo com as suas origens e só quando ele aceita sua condição ele consegue partir para um novo equilíbrio. O encontro de Kresten e Liva e seu final feliz ilustram a possibilidade de se romper com a hipocrisia do mundo burguês e buscar um novo equilíbrio com mais liberdade. De Os idiotas, existe o isolamento completo do mundo burguês para se buscar um outro mundo. Em Festa de Família, o filho externa sua insatisfação num banquete, comparecendo à reunião da família, e tentando convencê-los, ou mostar a eles das hipocrisias do seu mundo. Isto é, o marginal dava legitimidade ao sistema. A revolução de Festen é portanto de dentro para fora. Em Os idiotas, a revolução é de fora para dentro. O grupo se isola totalmente da sociedade, e só depois de prontos, resolvem transformar a sociedade, mas no fundo ninguém tem a coragem. De qualquer forma, o isolamento do grupo é mais uma alternativa à sociedade do que uma tentativa de transformação desta. Em Mifune, existe também o isolamento de Os idiotas. Mas de fato, eles só querem ser deixados em paz, querem esquecer o mundo da sociedade, mas de certa forma porque não lhe restou uma melhor alternativa. Essa é a principal diferença de Mifune para Os idiotas, que torna aquele mais conservador. Em Os idiotas, o grupo se afastou da sociedade por livre escolha, como representado na nova adepta do grupo. Mas em Mifune, os dois marginais protagonistas do filme são excluídos da sociedade. Para os dois não restam alternativas melhores, e apenas por isso, eles se afastam da hipocrisia da sociedade. A esposa de Kresten descobre o seu passado podre e seu interesse pela empregada, e pede o divórcio. O gigolô de Liva a agride e lhe dá um ultimato, dizendo que é a última vez que ele perdoará uma falta tão grave quanto agredir um ótimo cliente. Kresten e Liva, portanto, são mal sucedidos em suas tentativas de se adaptar ao mundo pequeno-burguês, e assim, resolvem se isolar. No final, é claro, o mundo burguês torna-se sem importância para eles, de forma que não existe mais a legitimidade, ao contrário de Os idiotas, que quer mudar e transformar o mundo. Mas essa é exatamente a crítica de Von Trier: a destruição do grupo está diretamente ligada ao desejo infantil do líder do grupo de "pirar" a sociedade, ao invés de tentar formar uma sociedade alternativa, paralela ao mundo comum, de forma a exatamente não conferir legitimidade àquele mundo.

Mas de fato, Kragh-Jacobsen interpretou a liberdade de manipulação da câmera de forma diferente dos demais diretores do Dogma95. Especialmente no caso de Vintenberg, a câmera portátil era manipulada como quase uma anarquia, para retratar a revolução anteriormente citada. Já no caso de Kragh-Jacobsen, a liberdade da câmera e da estética do Dogma95 foi interpretada no sentido de resgatar a nocência do processo de fazer cinema. No fundo, o cinema é demasiado artificial: é necessário construir trilhos, posicionar a iluminação, controlar o foco, entre outros. O estilo do Dogma propiciou ao diretor uma menor artificialidade, pelo formato portátil da câmera e pelas restrições estéticas do movimento (p.ex. não pode existir iluminação artificial). Toda a leveza da câmera se faz presente em sequências como a primeira cena em que Kresten entra no celeiro e persegue algumas galinhas. É claro que nos filmes do Dogma95 a espontaneidade não é total: ainda existe um roteiro, um ensaio, e movimentos de câmera estudados. Mas é inegável que o formato permite uma maior liberdade de ação para o cineasta. Isto resgata uma certa inocência do processo de se fazer cinema, menos articial, e mais próximo do real, do mundo que o espectador vê diante de si, e reproduzido a penas com a intervenção do aparelho de filmagem, sem nenhum outro material. É dessa forma que Mifune se diferencia dos demais diretores do movimento, quanto à interpretação da liberdade dos elementos de filmagem. Embora seja uma outra interpretação, é sem dúvidas uma interpretação válida, que torna seus elementos narrativos coerentes.

Essa ingenuidade é refletida em diversos pontos da narrativa. O desenlace da progressiva aproximação entre Liva e Kresten possui momentos extremamente poéticos, que de fato, não existiam nas cenas de Os idiotas, muito menos em Festa de Família. A timidez de Kresten, sua dificuldade em perceber as intenções de Liva, mas seu desejo nítido em conquistá-la são registrados de uma forma menos comum que os filmes americanos. O envolvimento entre os dois é mais lento e cheio de contratempos. A sequência em que ambos se sentam sob uma árvore tem uma atmosfera brilhante, embora o diálogo seja irregular. A cena do primeiro beijo dos dois, quando Kresten retorna e se senta sobre uma cerca de madeira, é contemplativa, com um timing perfeito, e um belo controle da imagem. Como disse antes, o próprio final coroa à perfeição a tentativa ingênua de reconstrução do filme. O primeiro encontro de Kresten e Liva, quando ele representava Mifune para o irmão, é um exemplo do diálogo com o cinema romântico americano de uma forma ingênua e descompromissada. Isso pode parecer uma heredia para quem se acostomou com o estilo radical de Os idiotas e Festa de Família, mas no fundo é apenas uma nova interpretação dos mesmos dilemas que envolvem o movimento.

Marcelo Ikeda.

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