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1. Obra-prima de Sokurov. Cinema de gente grande. Sokurov (n�o podemos deixar de pensar em Tarkovsky) vai abandonar completamente qualquer preocupa��o em rela��o ao narrar, em rela��o ao descritivo, e vai concentrar todos os seus esfor�os naquilo que lhe parece o essencial � sua hist�ria: a rela��o terna entre m�e e filho. 2. A sinopse � nula. Filho toma conta de m�e
doente. Ele a leva para passear no campo. At� que ela morre, deixando-o s�.
O filme � isso, em seus 73 minutos. 3. Ou melhor, o filme n�o � nada disso. Isso �
tudo o que importa (a rela��o entre a m�e e o filho), mas a descri��o
dessa rela��o � o que menos importa. Sokurov poderia gastar tantos
minutos mostrando cenas corriqueiras como o filho dando banho na m�e,
dando comida, lendo hist�rias, vestindo-lhe as roupas, etc. Mas n�o o
faz, porque n�o quer atrair a aten��o do espectador para as tarefas
rotineiras. Seria tir�-lo do que mais importa no filme: a rela��o entre
m�e e filho por si. 4. O cinema de Sokurov se preocupa apenas com o
essencial: um cinema de climas que possa transportar o espectador para um
universo quase-m�tico, on�rico, art�stico, mas sem deixar de se manter
realista. Sokurov vai resgatar as li��es dos mestres do paisagismo
realista do s�c. XVIII nas externas (lembramos de Friedrich, de Constable,
de Poussin, etc.) e dos mestres retratistas do XVII nos interiores (de Vel�zquez
a Rembrandt ). 5. Apesar do tom am�vel e terno da rela��o entre m�e
e filho, o filme tem inegavelmente um aspecto sombrio. S�o as nuvens
negras que amea�am a deslumbrante paisagem; � a n�voa que cerca todo o
jardim da casa. � a forma absolutamente sutil como o espa�o f�sico
desvela o contexto metaf�sico dos personagens. 6. Pobre da m�e doente que apenas espera a hora da
morte, mais pobre ainda do filho cujo �nico contato de vida se encontra
na m�e. Quando a m�e morre, o que fazer? � a� que Sokurov adota uma
solu��o magistral, que s� refor�a como seu filme foge do descritivo em
busca de um projeto radical de pesquisa da imagem. O mesmo caminho que o
filho fazia com a m�e, ele agora o faz sozinho. At� que ponto o espa�o
f�sico est� transfigurado? At� que ponto a percep��o do espectador
sobre o sentimento dos personagens (que ao longo do caminho surgem
geralmente em um grande, grande plano geral) se altera? Agora, o caminho n�o
� mais o mesmo, embora seja o mesmo. Apesar de seu rigor, Sokurov se
revela completamente heraclitiano (o caminho n�o � mais o mesmo, e eu n�o
sou mais o mesmo). 7. Sokurov vai evitar o narrativo, o psicologismo, o
di�logo, e o cinema de motiva��es. O que sobra, poderia perguntar o
leitor incauto? Ora, sobra o cinema. Sobra o tempo. 8. Sim, o tempo, porque o projeto de pesquisa de
Sokurov incide exatamente no alargamento do tratamento do tempo no cinema
convencional e em que medida isso impacta a percep��o do espectador.
Estamos num lugar onde o tempo n�o mais faz sentido, ou melhor, n�o tem
o sentido como n�s o damos. Mas nem isso mesmo pode ser verdade, se
pensarmos que o filme n�o deixa de ser uma corrida contra o tempo, contra
a inevitabilidade da morte. 9. O descritivo sucumbe ent�o a um cinema do
essencial, que vai re-apresentar, re-propor, re-oferecer,
re-contextualizar, de forma absolutamente radical, uma representa��o do
tempo e do espa�o f�sico no cinema, radicalizando as proposi��es de um
Antonioni, por exemplo. 10. O essencial para Sokurov n�o se trata do
economicismo da narrativa cl�ssica, onde cada plano tem seu lugar na
narrativa, e o que n�o � essencial deve ser cortado do filme, como seq��ncia
l�gica progressiva de sedu��o do espectador. � o contr�rio disso:
cada plano n�o tem uma �fun��o� na narrativa, porque se quer contra
o funcionalismo. O essencial se refere � natureza ontol�gica da imagem. * *
* 11. Por outro lado, em meia-hora Sokurov j�
apresenta todas essas magn�ficas quest�es em seu filme. Em seguida,
vemos um conjunto de planos que nos parecem absolutamente redundantes ao
que j� foi exposto. � claro que n�o se quer um cinema da a��o cl�ssica
(faltaria um ponto de virada?) nem tampouco um cinema do �plano �til�.
Ainda assim, em v�rios momentos faltaria um trabalho maior para que de
alguma forma fossem trazidos ao filme novos contextos e desafios. M�e e
Filho seria ainda melhor se fosse um m�dia-metragem. 12. Atent�ssimo cin�filo, qual a probabilidade de Valente n�o ter visto este trabalho de Sokurov antes de realizar seu Um Sol Alaranjado?
Crist�v�o Bresson (14/07/2003) |
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