MINORITY REPORT

 

Justamente numa �poca em que no Rio de Janeiro os jornais estampam uma suposta associa��o entre o diretor de Cidade de Deus e o crime organizado, o novo filme de Steven Spielberg � Minority Report � surge como uma vis�o apocal�ptica. Se em Cidade de Deus, a barbaridade do crime nos morros cariocas perturba o espectador, no mundo futurista de Spielberg descobriu-se uma solu��o para praticamente zerar o n�mero de assassinatos: prev�-los. Os chamados Precogs, tr�s seres que, unidos, t�m premoni��es sobre a ocorr�ncia de crimes, acionam uma equipe de policiais que prendem o assassino antes que ele possa cometer o crime. Mas para Spielberg, ainda que esse sistema acabe com a viol�ncia, ele est� condenado, porque, para sua implanta��o, foi necess�rio um assassinato. Como � poss�vel que um sistema que combata o crime tenha em sua origem a consuma��o de um assassinato? Torna-se, ent�o, al�m de um adendo sobre o exerc�cio do poder, um compromisso �tico: os fins n�o justificam os meios. Um �nico crime � o suficiente para que um sistema que evite milhares de crimes esteja em descr�dito. � a �tica contra o utilitarismo.

 *   *   *

 Depois de ser o mago dos filmes inconseq�entes de aventura e persegui��o, depois dos grandiosos filmes s�rios sobre a Humanidade, Spielberg parece recusar todos esses r�tulos e aceit�-los ao mesmo tempo. �Estou cansado de mim mesmo�, declarou recentemente o diretor em uma entrevista. Na maturidade, o consagrado diretor realizou dois filmes imperfeitos, memor�veis, cada qual � sua maneira, por refletir a s�ntese das preocupa��es ideol�gicas e cinematogr�ficas de um realizador que, mal ou bem, entrou para a hist�ria do cinema. S�o eles A.I. e este Minority Report.

Ambos claramente influenciados por Kubrick, claramente dialogando com uma esp�cie de fic��o cient�fica interior, com um projeto de via-cr�cis religioso, prof�tico e redentor, s�o duas ilhas dentro do ass�ptico cinema mainstream contempor�neo. Minority Report conserva a mesma fotografia fantasmag�rica de Kaminski em A.I., que torna cada interior um ambiente sombrio e espiritual quase como num filme de Dreyer, e cada tresloucada cena de a��o a mais realista poss�vel. A fotografia � curiosamente realista na parte fant�stica do filme, enquanto � fant�stica em sua por��o realista.

 *   *   *

 Este imperfeito e irregular Minority Report � um dos mais sombrios filmes da ind�stria americana dos �ltimos anos. Perturbador por suas irregularidades, pelos interst�cios entre sua ambi��o de filme psicol�gico realista e exerc�cio de a��o fant�stico, pela provoca��o sobre o papel do olhar e da vis�o, pela cena de inspira��o surrealista quando Cruise corre atr�s de seus pr�prios olhos (ser� que o diretor assistiu ao filme de Cavalcanti, Sim�o, o Caolho?), Minority Report tem como t�tulo algo que n�o existe. Ao vasculhar o interior da Precog Agatha, o policial John Anderton (Tom Cruise) n�o conseguiu identificar nenhum sinal que o ajude a contestar seu destino: o assassinato de um homem que ele nem conhece. Ou melhor, o Minority Report encontrado foi outro: um que o ajude a solucionar os dilemas da pr�pria Agatha. � quase como achar uma das t�buas sagradas dos Dez Mandamentos.

 *   *   *

 N�o seria exagero se Minority Report fosse um filme de M. Night Syamalan. As seq��ncias em que a Precog se arrasta num shopping center, cruzando com centenas de pessoas cujos destinos ela conhece, e tenta desesperadamente socorrer, � uma das mais tr�gicas e sombrias de todo o filme. Alguns instantes antes, num t�xi, ela pergunta ao tira: isto � a realidade? Ela continuaria tendo vis�es, ou finalmente agora, �ela poderia ver�, como havia insistentemente perguntado a Cruise na primeira vez em que estiveram juntos?

 *   *   *

 Mas como se pode ser condenado por um crime que ainda n�o se cometeu? Como se pode lutar diante do destino, da infabilidade do destino? Como se pode provar que se � verdadeiramente inocente, quando se � realmente culpado? Aqui, lembramos a mesma quest�o trilhada por Woody Allen em O Escorpi�o de Jade.  O cl�max do novo filme de Spielberg � o seu segundo ponto de virada: a cena em que Tom Cruise mata sua v�tima. � quando o projeto prof�tico do novo cinema de Spielberg se realiza. Assim como o rob� de A.I. pode se transformar em menino, Tom Cruise pode modificar o seu destino. �Ele tem uma chance�. Piegas? Acreditar no cinema de Spielberg tornou-se uma quest�o de f�.

.

Marcelo Ikeda

(05/09/2002)

 

valbul2a.gif (530 bytes)  S I T E       C  L  A  Q  U  E  T  E

valbul2a.gif (530 bytes)  FILMES EM 2002

valbul2a.gif (530 bytes) Ensaios valbul2a.gif (530 bytes) Festivais

valbul2a.gif (530 bytes) Filmes Antigos

valbul2a.gif (530 bytes) Filmes de 1999 valbul2a.gif (530 bytes) Filmes de 2000 valbul2a.gif (530 bytes) Filmes em 2001
Hosted by www.Geocities.ws

1