LÚCIA E O SEXO

 

Lúcia e o sexo é um típico exemplar do cinema de autor contemporâneo: feito para agradar ao público que se diz alternativo, mas que ao mesmo tempo não busca grandes alternativas. Quase na linha de um Amores Brutos, mesclando diversas histórias que acabam se integrando no final, acaba se reduzindo a um mero jogo formalista, fazendo questão de mostrar como as peças se encaixam perfeitamente ao final do quebra-cabeças.

Mas dizê-lo é cometer algumas injustiças, porque Julio Medem sabe filmar e seu filme possui algumas virtudes, mas essas acabam se revelando como defeitos pela inconsistência de seu uso como proposta de linguagem: a fotografia completamente estourada, na contramão do cinema publicitário, acaba sendo um recurso estetizante, que reforça a manipulação que muitas vezes esbarra no gratuito. É a montagem de cortes secos e pulos de campo intencionais que acaba se descosturando após o encontro dos protagonistas num bar. Em verdade, nenhum dos recursos de linguagem de Medem acaba tendo uma proposta de cinema coerente e articulada. Seu filme é um filme de juventude, no mau sentido da expressão: cheio de algumas boas idéias mas completamente desarticuladas, que se perdem pela pretensão, pela imaturidade e pelo tom afoito do realizador.

 Lúcia e o sexo acaba se tornando mais um filme sobre os dilemas existenciais do autor, seu envolvimento pessoal, seu delírio entre a ficção e a realidade quando produz suas obras. Atraindo a atenção do espectador para cada uma de suas histórias, através de uma montagem paralela competente, a narrativa acaba sendo guiada em última instância pelos delírios alucinatórios do escritor que tenta acabar seu livro.

  As cenas de nudez e as citações ao filme pornográfico acabam fracassando completamente, exatamente porque tentam mostrar ao espectador que seu filme é muderno ao tratar de sexo quando as cenas de sexo em si são filmadas de forma apenas acadêmica.

  O roteiro possui algumas soluções de mau gosto, quando, por exemplo, um cachorro mata a filha do escritor, e quando em seguida ele é atropelado e fica em coma. (??)

  Apesar de alguns recursos criativos e de uma certa poesia “caliente” tipicamente espanhola (que lembra em alguns trechos filmes espanhóis de Bigas Luna como Jamón, Jamón), Lúcia e o sexo é um filme decepcionante, porque revela, por trás de sua estrutura narrativa não-linear e sua aparente ousadia no trato das questões sexuais, ser um filme voltado para a platéia pseudo-alternativa. No fundo, Lucía é cinemão, e não há nenhum mal nisso se o filme assumisse seu olhar. Travestindo-se de filme inventivo, Lucía vira um amontoado de clichês. No fim, com um romantismo antigo e retrógrado, Medem faz questão de fechar perfeitamente todas as suas histórias, conferindo um sentido ao filme, e escapando de qualquer final em aberto. Delírio para as patricinhas do Estação, que acham que descobriram como deve ser o sexo... que elas caiam então naquele buraco do filme !!

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Marcelo Ikeda

(05/09/2002)

 

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