UM LUGAR PARA DORMIR

 

A grande oferta de filmes do Festival do Rio � uma oportunidade para que o cin�filo mais atento possa conferir filmografias alternativas, que raramente ou nunca s�o exibidas no Brasil. Ademais, algumas dessas filmografias podem, daqui a alguns anos, ocupar posi��es mais significativas no cen�rio mundial. H� cerca de dez anos, os filmes do Ir� eram vistos com desconfian�a pelos cin�filos cariocas. Hoje, a import�ncia desses filmes � indiscut�vel. Assistir a filmes de pa�ses como a Let�nia, Indon�sia e Turquia, citando alguns exemplos, � tentar extrair li��es para o futuro de um cinema alternativo ao paradigma do mainstream hollywoodiano.

Mesmo com a precariedade de suas condi��es, Um Lugar Para Dormir, um filme da Indon�sia, convence pela necessidade de falar sobre problemas imediatos que afligem a popula��o menos privilegiada do local. O drama de uma vendedora ambulante e tr�s garotos abandonados que vivem nas ruas de Jacarta � contado aos moldes do cinema neo-realista. O cotidiano e a luta dos personagens s�o vistos com generosidade, quase como um document�rio da vida nas ruas da Indon�sia, e n�o segundo um prisma espiritual ou po�tico (como no cinema iraniano, por exemplo).

O ponto alto do filme � a cenografia cuidadosamente elaborada, como a estrutura dos barracos, as paredes descascadas, o montante de objetos e quinquilharias velhas espalhadas pelo local, e especialmente o solo, numa mistura de terra e �gua. Os meninos do filme s�o de fato menores abandonados que vivem nas ruas, e suas roupas rasgadas e sua postura comprovam a naturalidade de suas atua��es. Entretanto, a fotografia bem elaborada e a ilumina��o artificial quebraram a unidade org�nica do filme. A fotografia tem cores muito fortes, e a ilumina��o noturna tem fontes de luz dirigidas a lugares estrat�gicos, segundo o ponto final da movimenta��o dos atores ao longo do cen�rio. Isso passa a id�ia de um universo constru�do, como um est�dio. Al�m disso, as cores fortes e a ilumina��o teatral destoam do tema monocrom�tico e sombrio.

O filme tamb�m � uma oportunidade interessante para dar uma olhadela nas ca�ticas ruas da cidade. Os vendedores ambulantes se multiplicam, mostrando a import�ncia da economia informal. Vemos como Asih vende suas roupas, e uma idosa vendedora de comida. Vemos como os meninos se viram para sobreviver. Outro dado curioso � que o filme em algumas cenas mostra o dom�nio da cultura americana como pano de fundo � situa��o p�fia da cidade. Logo no primeiro plano do filme, h� uma caixa vazia de Pepsi em meio ao barraco completamente abandonado. Num barraco onde Asih compra sabonete e shampoo, h� um letreiro luminoso da Coca-Cola. Mas essa tentativa de incorporar culturalmente os ideais americanos como um exemplo da perdade de identidade do povo local est� no visual dos meninos de rua, que fazem com que grampos se tornem piercings e cadeados se tornem enfeites, que eles ostentam com orgulho.

O diretor tenta manter a ambig�idade do comportamento dos meninos, mas em alguns pontos o filme soa um pouco moralista e melodram�tico. Os meninos judiam um garoto que cheira cola, e Asih tem um marido agressivo, que lhe rouba o dinheiro para gastar no jogo e com bebida. Mas o filme se equilibra na ingenuidade das crian�as, e no destino tr�gico que as espera. As tr�s crian�as do filme acabam morrendo: a primeira tem a morte mais chocante, num acidente de trem quando passava por um t�nel; a segunda, pela m�fia do local que contrabandeava crian�as sem identifica��o, interessados no seguro; a terceira, por engano, ao tentar avisar um amigo sobre sua jaqueta marrom, que serviria de sinal para a gangue advers�ria. O final do filme mostra duas cenas comoventes, que mostram que, apesar de tudo, a vida continua. Um menino continua a cantar desajeitadamente sua m�sica nas ruas. A estudante continua com dificuldade para atravessar a rua. Ali�s, o filme constr�i um paralelismo interessante centrado na figura desta estudante. Na primeira cena, o garoto ajuda a menina a atravessar a rua e lhe faz umas perguntas, mas ela n�o lhe responde. Com a morte deste, seu irm�o passa a ajudar a menina. Ela, ent�o, lhe pergunta sobre seu irm�o, mas ele n�o responde. O sentido da incomunicabilidade � invertido, numa cena econ�mica, com poucas palavras. O comportamento dos meninos se torna mais amb�guo no ter�o final do filme, onde Segeng, refletindo sobre a sua possibilidade de culpa no acidente de trem que matou um dos meninos, desiste do trabalho �rduo e prefere a vida f�cil, inclusive roubando uma sacola.

Por �ltimo, outro ponto curioso � que o pr�prio diretor mostra o conhecimento de que existe uma minoria que possui uma vida equilibrada na Indon�sia, e que ele pr�prio faz parte desse conjunto de privilegiados. Durante um desfile, surge uma pessoa com uma c�mera na m�o, filmando o evento. Al�m disso, o tom de quasi-document�rio � acentuado com as interven��es de uma rep�rter que faz reportagens para a televis�o sobre a vida nas ruas.

Em suma, tendo em vista a precariedade e a aus�ncia de produ��es da Indon�sia, Um Lugar Para Dormir � um bom filme, centrado na tem�tica social dos meninos de rua em Jacarta num estilo neo-realista com semelhan�as a um document�rio. As restri��es ficam por conta da fotografia e da ilumina��o, e do tom por vezes moralista e melodram�tico, em contraste com a cenografia e figurinos brilhantes do filme. Mas no geral � um filme sincero e sens�vel sobre a realidade dos pa�ses da periferia.

Marcelo Ikeda.

NOTA: 7

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