Instinto e estratégia no cinema de Stanley Kubrick


 

O cinema americano revela o valor de seus grandes filmes de forma extremamente sutil. Por seu caráter tipicamente industrial, a grande maioria dos filmes esbarra em clichês e situações previsíveis com que o público rapidamente se identificaria. No entanto, há um certo grupo restrito de realizadores que, mesmo dentro dos limites desse cinema industrial, conseguem extrair nas entrelinhas de seus filmes um caráter essencialmente pessoal e artístico.

O grupo de críticos da Cahiers de Cinema, que em seguida se tornaram grandes expoentes da nouvelle vague, reconheceu o valor artístico de um certo tipo de cinema americano. Mesmo nesse esquema industrial, eles acreditavam que alguns diretores manifestavam um estilo tão pessoal nas entrelinhas de seus filmes que os tornava autores de seus filmes. Isto é, esses filmes teriam uma assinatura, da mesma forma que um quadro de Van Gogh ou Rembrandt ou um livro de Dostoievsky ou Kafka. Segundo eles, esse "estilo" se manifestava essencialmente num diálogo com o cinema de gênero. Vincente Minnelli mudou a visão dos filmes musicais; um Fritz Lang, dos filmes noir; um Howard Hawks, dos filmes de western; Sam Fuller, dos filmes de guerra, e assim em diante.

Essa introdução se faz necessária porque a única certeza que temos ao ver os filmes de Stanley Kubrick é que eles possuem inegavelmente uma assinatura. Isto é, acima de tudo estamos vendo "um filme de Stanley Kubrick". Mas se seu caráter autoral é inegável, é curioso como Kubrick se metamorfoseia ao longo de vários gêneros do cinema americano. Ao invés de se prender em um gênero específico, como a regra desse dito cinema autoral americano exaltado pela Cahiers (Ford uma vez disse "Eu sou John Ford. Eu faço westerns"), cada novo filme de Kubrick é uma grande ruptura em relação ao gênero do filme anterior. Ainda assim, Kubrick deu uma contribuição fundamental em cada um dos gêneros que percorreu. O Grande Golpe é um policial à frente de seu tempo, influenciando, com seu tratamento ambíguo da verdade e seu jogo temporal, o Tarantino de Cães de Aluguel. Glória Feita de Sangue é um dos mais importantes filmes sobre a guerra já feitos pelo cinema americano. Dr. Fantástico é uma das maiores comédias do cinema americano. 2001, uma odisséia no espaço na ficção científica; Spartacus, no épico; Barry Lyndon, no filme de época; O Iluminado, no terror, são referências básicas no gênero.

Como então definir o cinema de Stanley Kubrick, se ele escapa mesmo do paradigma do cinema autoral americano? É redutor, portanto, fazer uma abordagem totalizante da obra de Kubrick. Muito melhor seria explorar filme por filme como ele dialoga com o gênero a que o filme se refere.

Por outro lado, também me parece redutor afirmar a impossibilidade de um certo conjunto da obra de Kubrick. Vendo os filmes em conjunto, ainda é possível falar em uma assinatura, um "estilo" que permeia toda a filmografia do diretor. Daí a dificuldade em se entender o enigmático Stanley Kubrick.

A importância dessa "metamorfose" pode ser entendida extamente quando pensamos a obra de Kubrick como um todo. A grande questão básica que envolve todos os filmes de Kubrick é o conflito entre o instinto e a razão, entre o que pode ser controlado e o que é impossível de controle. Esse conflito se espelha na condição do próprio homem, em conflito consigo mesmo, com outros homens, e em última instância com certas estruturas imutáveis da sociedade. Por isso, todos os seus filmes envolvem um certo estudo sobre a liberdade.

Kubrick durante algum tempo ganhava dinheiro jogando xadrez, sendo um muito bom enxadrista. A influência do xadrez pode ser facilmente percebida em sua obra. Toda a estrutura de O Grande Golpe é organizada como um jogo de xadrez, onde cada membro do grupo era como uma peça, que deveria cumprir exatamente sua função para que o objetivo final da ação se realizasse. Em Glória Feita de Sangue, a guerra é definida como uma estratégia ambígua para a afirmação de um certo poder. Em última instância, o filme mostra uma espécie de jogo entre os oficiais para atingir seus objetivos.

Por outro lado, em contraste com o lado cerebral de seus personagens, eles são guiados basicamente pelo instinto. Daí surge um tema frequente na obra de Kubrick: um processo de animalização. O Grande Golpe começa mostrando, no estilo de um semi-documentário, imagens de cavalos competindo, como seus próprios personagens a seguir. Em Glória Feita de Sangue, o coronel e o general discutem quantos homens irão ser sacrificados, barganhando entre cem ou um homem, como se o objeto discutido fosse um bando de gado. Em Laranja Mecânica, Malcolm MacDowell se torna uma cobaia de uma experiência científica, como se fosse um animal. Em Spartacus, os escravos devem lutar na arena como animais para garantir sua sobrevivência.

Esse conflito na temática também se apresenta claramente na estética de seus filmes. Kubrick se distancia de seus personagens, evitando o processo de identificação, para promover uma análise de seus personagens. Nunca nos identificamos com o garoto de Laranja Mecânica, ou com o bandido de O Grande Golpe, nem com o maníaco de O Iluminado. Analisamos esses personagens à distância. Mas ao mesmo tempo esse distanciamento é uma estratégia do enxadrista Kubrick para promover uma aproximação. Através desse recurso, Kubrick indiretamente espelha sua visão pessoal de cinema, o que o tornaria um autor.

Esse distanciamento crítico é fundamental se pensarmos que de uma certa forma Kubrick promove uma revisão crítica do sonho americano. Seus personagens são sempre marginais com distúrbios que os afastam do sonho americano. Questionando o ideal americano do progresso, Kubrick promove uma certa análise sociológica. Por trás dos ideais americanos, surge em seus filmes uma nação neurótica, perturbada e essencialmente preocupada com seu jogo de aparências, como o ridículo que surge dos generais de Glória Feita de Sangue, ou em Dr. Fantástico.

Marcelo Ikeda.

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