Os curtas de Alexander Kluge: um doloroso e multifacetado acerto de contas


O Grupo Esta��o merece todos os parab�ns pela reativa��o do cinema Esta��o Pa�o realizando mostras de cl�ssicos do cinema mundial, exibindo filmes pouqu�ssimo vistos no Brasil. Os filmes alem�es s�o um dos destaques. O Pa�o j� exibiu retrospectivas de Wim Wenders e Werner Herzog. Agora, relembra um dos mais importantes nomes no novo cinema alem�o dos anos 70, embora menos conhecido que o j� citado Wenders ou ainda Fassbinder: Alexander Kluge.

O "novo cinema alem�o" surgido no in�cio dos anos setenta recuperou o prest�gio cr�tico do cinema alem�o, abalado desde as conseq��ncias da Segunda Guerra. Provomendo uma her�ica tentativa em se reconciliar com seu passado, olhando-se no espelho para refletir sobre seu unbew�ltige Vergangenheit (passado n�o-assimilado), seu grande objetivo foi a busca de uma identidade para o povo alem�o, perdido entre a vergonha de relembrar seu passado nebuloso e a aliena��o de sua associa��o tecnocrata com os Estados Unidos, em decorr�ncia do Governo Adenauer.

Os curtas de Alexander Kluge exibidos no Pa�o foram uma excelente oportunidade para o p�blico carioca conhecer os primeiros trabalhos do cineasta, assim como a forma��o do "novo cinema alem�o". Foram ao todo seis curtas: Brutalidade em Pedra: A Eternidade de Ontem (1960); Professor em Transforma��o (1963); Retrato de Quem Deu Certo (1964); Sra. Blackburn, Nascida a 5 de Jan de 1872, � Filmada (1967); Bombeiro E. A. Winterstein (1968); Not�cias dos Staufer (1977).

Seu primeiro curta – Brutalidade em Pedra – foi exibido na mostra. Dialogando diretamente com o cl�ssico Noite e Nevoeiro, de Alain Resnais, atrav�s do resgate � mem�ria, dos lentos travellings de antigos locais da Guerra, agora vazios, e em sua narra��o em off, � no entanto mais alem�o: seco, com cortes abruptos e v�rias descontinuidades, t�picas do cinema de Kluge. No meio do filme, surgem depoimentos (inclusive do pr�prio Hitler), fotos de arquivo e maquetes, que ajudam a compor a estrutura do filme.

Em comum, nos seis curtas exibidos, h� nitidamente um trabalho minucioso e exaustivo em revisitar a hist�ria alem� para compor alguma alternativa em rela��o ao presente e ao futuro. No cerne desses filmes, est� um sentimento de ser alem�o e da identidade de uma na��o alem�. Seja atrav�s do olhar direto da trajet�ria das institui��es, ou simplesmente de trajet�rias individuais, o passado � uma forma de ver o presente. O di�logo com a hist�ria atravessa uma necessidade art�stica e cultural de seguir poss�veis rumos ou de trilhar novas alternativas.

Da� decorre que um primeiro elemento est�tico que esses filmes promovem s�o um tratamento particular do tempo, de forma a fundir/colapsar uma vis�o entre passado e presente. A dif�cil tentativa de reconcilia��o com esse passado significa olhar-se de frente para o espelho, embora sem temer ou evitar as contradi��es e as amarguras do processo. � no dever n�o s� hist�rico mas moral de promover esse doloroso di�logo, entre redescobrir o caos que se insere as descontinuidades narrativas do cinema de Kluge. Seu cinema pretende ser um invent�rio exaustivo, resgatando pontos perdidos no tempo/espa�o mas ao mesmo tempo sem se referir a associa��es ou a causalidades redutoras, e sem esgotar a quest�o com um reencontro s�ntese. Sua proposta n�o difere muito de nossas tentativas em arrumar nossos quartos: n�o queremos propriamente promover uma organiza��o/catalogamento do que existe, porque parte intr�nseca de nossas vidas, mas simplesmente lembrar a n�s mesmos que essas etapas existiram, ainda que estejam num canto qualquer, sob os len��is e as roupas amarfanhadas. Por enquanto.

Exatamente por isso, uma segunda tend�ncia � evitar o car�ter essencialmente did�tico do document�rio. Por um lado, Kluge resgata o passado com um distanciamento afetivo mas torturante, como em Brutalidade em Pedra, nos recursos � mem�ria e nos efeitos ainda presentes. Por outro, busca uma intensa proximidade distante, como na entrevista com a Sra. Blackburn. Embora pr�ximo, pelo fato de a mulher ser um membro da fam�lia Kluge, ela est� essencialmente distante, com h�bitos e costumes distantes do nosso cotidiano. Nesse sentido, o centro da tentativa de Kluge ocorre quando ela tenta reconstituir o epis�dio quando uma pessoa invadira a casa e quebrara um valioso pote. Reconstituir representa um di�logo doloroso com o passado, mas sem nunca recuperar a dor ou o sentido daquele epis�dio quando presente. Mas esse di�logo parece ser, acima de tudo, a �nica alternativa poss�vel de viver. Dessa forma, seu final � extremamente significastivo. O pr�prio Kluge, tanto como o diretor ou simplesmente como um membro da fam�lia, se senta ao lado da Sra. Blackburn (seja como entrevistada ou como sua familiar) para tomar ch�. A tentativa her�ica (e po�tica) de promover um di�logo sincero n�o deixa de ser levemente contrastada por sua mesma impossibilidade, retratada no sil�ncio e no distanciamento.

Em Retrato de Quem deu Certo, a constru��o � mais ir�nica, recurso que n�o passa isolado numa recupera��o desses filmes. O sentimento de indigna��o, a consci�ncia da irreversibilidade algumas vezes apontam para uma postura amarga, an�quica ou simplesmente ir�nica. S�o nesses pontos que Kluge insere suas descontinuidades que reafirmam sua vis�o amb�gua do "saber" do document�rio. As elipses de pontos cruciais da hist�ria do policial s�o constrastados com sua vis�o sobre o assunto. Ainda assim, a dor da aposentadoria representa a fal�ncia de um certo conceito de na��o alem�.

Em Not�cias dos Staufer, a vis�o hist�rica se assume ainda mais explicitamente. Retomando a trajet�ria do Imperador Frederico II e comparando-o com o governo de Hitler, Kluge, ainda que peque numa vis�o essencialmente determinista e fatalista, promove um painel da hist�ria alem� marcada por suas pr�prias contradi��es e sua sede de poder.

Se persarmos o cinema de Kluge como uma tentativa de compor um painel da hist�ria alem� com um paralelo entre passado e presente, marcado pela fragmenta��o e pela recusa ao document�rio did�tico, talvez seu exemplo mais caracter�stico seja justamente Bombeiro E. A. Winterstein. A trajet�ria da pr�pria Alemanha se confunde com a trajet�ria do pr�prio indiv�duo, num filme composto de cenas filmadas, imagens de arquivo e fotos est�ticas. A cobi�a insana do poder, a proximidade do abismo, a quest�o do olhar e do tempo (o mundo girando) e a ironia, atrav�s do ex�rcito de brinquedo que circula o filme s�o caracter�sticas t�picas do cinema n�o did�tico, indignado e multifacetado deste curioso diretor alem�o ainda pouco conhecido no Brasil.

 

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