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Assistir a Kippur � presenciar uma das experi�ncias mais surreais do cinema contempor�neo. O objetivo do diretor � mostrar o absurdo da guerra, o dia-a-dia da batalha em que n�o h� a heroiciza��o do ato, simplesmente porque n�o se sabe ao certo contra o que se luta, nada h� de pol�tico na guerra. Quer tamb�m evitar a qualquer custo qualquer hip�tese psicologizante. Faz ent�o um dos filmes mais brutais, quase ao limite do insuport�vel, porque acaba exatamente por refletir o absurdo da espetaculariza��o da guerra: por que diabos, pagamos o ingresso para ver essa barb�rie da destrui��o, somos masoquistas? Mas
n�o � a cr�tica de Gl�ria Feita de Sangue, em que num filme narrativo
se mostra a estupidez dos oficiais, que se matam uns aos outros mas n�o
matam nenhum inimigo. N�o, os meios aqui s�o outros: � um filme
profundamente radical em sua proposta do absurdo de construir qualquer
discurso que seja em rela��o � guerra. Acaba
por se revelar assim maior, bem maior que seu tema, porque toca no absurdo
da condi��o humana, na fragilidade do ser humano em construir um sentido
para sua miss�o de sobreviv�ncia. Nada
h� para nos comover (at� h�, �s vezes a m�sica, �s vezes um di�logo
ou outro, mas em geral n�o h�), nada h� para nos chocar, h� a guerra,
nada mais, nada menos. O
filme � bem desconcertante. No come�o, h� uns quatro planos-seq��ncia
de um homem caminhando sozinho nas ruas desertas, em seguida, h� um longo
plano (uns dois minutos) de um casal fazendo amor sobre umas tintas.
Depois, a guerra. A�,
o filme vira o seguinte: equipe de resgate desce de helic�ptero para
resgatar moribundos. Resgatam, carregam os corpos, levam para o helic�ptero,
v�o de volta para a base, tiram os corpos, voltam de novo para o front
pegar mais gente. Depois, descansam. Etc. Etc. Isso por mais de hora e
meia. Nisso,
h� outra esfera que torna ainda mais surreal assistir a Kippur, um dos
exerc�cios mais ousados do cinema contempor�neo: � quando percebemos a
grana gasta para fazer esse exerc�cio extremamente radical. O filme tem
dezenas de helic�pteros e tanques de batalha e explos�es a todo tempo.
No barato, deve ter custado seus 10 milh�es de d�lares. Ser� que
recuperou 10% de seu custo? Quem deve ter dado essa grana pro Gitai fazer
esse filme? Pelo risco do projeto, � admir�vel a confian�a de Gitai em
seu projeto, e como ele n�o tem medo de ir at� o fundo, at� onde �
preciso para garantir a for�a do filme. �
outro filme para se pensar pra que serve o cinema. � incr�vel como se
fica com vontade de sair do cinema o tempo todo, � uma experi�ncia quase
insuport�vel, at� porque � tremendamente chato e repetitivo, mas � pra
ser mesmo (ningu�m duvida que a guerra � um ambiente nada agrad�vel...)
Outra coisa � o magn�fico trabalho de entrega dos atores: eles mergulham
na lama, em planos todos em plano-seq��ncia e ainda s�o submetidos a
uma enorme descarga emocional. � impressionante a cena em que v�o para o
hospital, logo ap�s o incidente com o helic�ptero, os atores todos em
situa��es-limite. Vendo
o absurdo da guerra em si e absurdo de um filme como aquele conseguir ter
sido feito, as explos�es, as mortes e os resgates de desenrolando
monocordicamente, voc� fica suspirando �Surreal! Surreal! Surreal!� n�o
chegamos a achar genial, a delirar, � simplesmente inacredit�vel seja
como experi�ncia f�lmica seja como processo de realiza��o. � tamb�m
profundamente enfadonho e agonizante. Est� no limite entre o surreal e o realista.
Marcelo Ikeda (11/09/2003) |