A PAIXÃO DE JACOBINA

 

A Paixão de Jacobina é um filme de paradoxos, fruto de sua época e da posição da Família Barreto no atual panorama do cinema brasileiro. Por isso, talvez a frase mais pungente sobre o filme seja a de Kleber Mendonça Filho, do site Cinemascópio: “Jacobina é um filme que desde já pertence ao passado do cinema brasileiro.” Apesar de corretíssimo em sua avaliação, o que Kleber parece não ter percebido é que exatamente por isso Jacobina é um filme que pertence ao presente, ao presente de um certo cinema brasileiro. Jacobina é um filme, portanto, que merece uma avaliação mais atenta, a ser feita quando uma maior distância no tempo assim o permitir.

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Como se pode queimar se não se está ardendo? O dilema de Jacobina é exatamente esse, buscar uma síntese que, em última instância, não se acredita, porque se quer desesperadamente evitar a questão. “Santa ou pecadora?”, como diz o cartaz. Mas aqui, no projeto de cinema da Família Barreto, não se trata de trazer a ambigüidade, de instaurar a dúvida, porque a dúvida não faz parte de seu projeto de cinema. Trata-se, ao contrário, de a qualquer custo tentar esquecê-la. Mas então, por que se evita apresentá-la como uma santa? Por que Jacobina é um ser sonâmbulo, catártico? Por que é preciso mostrar a cena de traição na cachoeira e os beijos na boca de seus seguidores? Esse é o tema central de Jacobina, ou melhor, do que está em jogo por trás de sua realização. Encurralado, Fábio Barreto busca em Jacobina um espelho de um desejo e uma culpa, de uma paixão e uma vergonha. Ou ainda, uma consciência profunda de uma condenação, de estar fazendo um cinema que pertence ao passado.

Como se pode queimar se não se está ardendo? Como se pode fazer um filme sobre uma iluminação, sobre uma redenção, se o filme não for visionário? Lembramos o Rossellini de Stromboli, lembramos alguns filmes que mostram o cinema como profissão de fé. Para não dizer que Fábio foi covarde, pode-se dizer que foi demasiado tímido. Entre as meias-opções, os meios-tons, Jacobina é um filme que não busca nenhuma opção a não ser a mais defensiva, a não ser o medo de um cinema do envolvimento e da paixão. No caso de um roteiro como Jacobina, em que o inverossímil o tempo todo passeia pela história, não se trata apenas de descrever ou contar uma história, mas fazer o espectador acreditar nela, torcer por um dos lados. Passa a ser uma questão de fé. A todo momento em que o filme pede uma entrega, um envolvimento, Fábio responde com a busca pela correção, pelo didatismo. Antes de comprovar a deficiência do diretor, comprova as de tudo o que cerca a realização de Jacobina. Ou ainda, a total consciência do realizador de que ele não pode fazer outro filme senão esse. Daí que um sentimento profundo de frustração e de angústia ressoa em todos os planos de Jacobina, tornando sua fruição um verdadeiro canto de lamento.

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O que é de se espantar em Jacobina é seu primarismo, quase assustador quando se trata de um diretor com razoável experiência, com mais de cinco longa-metragens no currículo e amparado por uma estrutura de produção invejável. Mas é exatamente isso o que torna assistir ao filme uma experiência dolorosa: é a falta de um olhar primeiro, de uma inocência, de uma singeleza que imediatamente surge como fundamental para o projeto do filme. Desse modo, revela-se completamente desarticulado em suas propostas mais básicas, com uma decupagem televisiva, com uma montagem com elipses insustentáveis, com atuações mambembes e um roteiro amadoresco.

Ainda que se critiquem os filmes de Walter Salles e de Fernando Meirelles, o primeiro por propor um cinema globalizado que nos vê como vítimas, e o segundo por fetichizar todas as nossas possibilidades de autenticidade, é inegável que possuem um controle dos instrumentais básicos do cinema: o quadro, o corte, a montagem, o roteiro, a fotografia. Critica-se o que se está por trás desses filmes, sua proposta primeira, mas deve-se admitir que são competentes em seus ofícios de realizadores (o que não quer dizer muita coisa). Mas o que Jacobina revela é assustador, em termos de seu primarismo e do caráter retrógrado de sua visão de cinema. Isso é o que o torna atual, um dado para ser pensado.

Se Jacobina pertence ao passado do cinema brasileiro, nem se trata tanto dos traumas do filme em si, mas de uma sinistra constatação da inevitável decadência de um certo cinema brasileiro. A fogueira ao fim do filme parece nos revelar o fim de um cinema em que o visionário ainda podia ser visto como saudável. Mas como defender-se como visionário se sempre se buscou um cinema do negócio? O próprio olhar da narrativa em relação à sua personagem-título revela a situação-limite que expressa todos os paradoxos do filme. Como se pode condenar Jacobina? Mas como se pode louvá-la? Apesar de este que escreve estas linhas não compartilhar de modo algum com a visão desse cinema, não se pode sair do cinema com uma profunda sensação de saudosismo e melancolia.

 

Marcelo Ikeda

(23/10/2002)

 

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