A SAGA DO INDEFESO INDIVÍDUO AJUDADO PELO JORNALISTA PERFEITO CONTRA AS MAQUIAVÉLICAS EMPRESAS DE CIGARRO : O ÓBVIO EM "O INFORMANTE" |
O Informante é daquele tipo de filme que nos parece impossível falar mal. Fala sobre a comovente luta de um homem contra a grande corporação do tabaco, e ainda por cima é baseado em fatos reais. Demitido por ser contra a política da companhia, que se importava mais com os seus lucros do que com a saúde dos consumidores, o Dr. Wigland não pode quebrar seu "compromisso de sigilo", e revelar o mal que as fórmulas químicas do cigarro fazem ao homem. É a eterna luta de um homem contra o sistema. O problema do filme é que ele não acrescenta uma vírgula sequer ao tema. É tão politicamente correto que irrita. Wigland acaba se associando com Loewell (Al Pacino), um jornalista produtor do 60 minutos, um programa que descobre furos e que tem a maior audiência da TV. Daí acompanhamos todo o drama do pobre Wigland querendo resgatar sua dignidade e a verdade. A história em si é comovente, claro, mas o tratamento cinematográfico subestima a inteligência do espectador. Obviamente, Wigland é ameaçado de morte, e possui uma linda família, esposa e especialmente filhas pequenas. Ele fica num conflito: resolve defender a verdade, ou proteger a sua família e suas filhas ? No começo do filme, há uma cena ridícula, em que a filha de Wigland tem uma crise de asma. Com fins puramente sentimentalóides, ela estabelece a relação (i.e. a preocupação, o amor) que Wigland tem com sua filha, e o fato de ele precisar de dinheiro para o seguro de saúde. A reunião de Wigland com seus antigos chefes é patética. Eles são os garotos maus, que querem ferrar com a vida de Wigland a qualquer custo, e não fazem nenhum tipo de acordo (p. Ex. Lester, em Beleza Americana, foi demitido, mas exigiu uma boa quantia de dinheiro para não contar segredos sobre o chefe). Como dissemos, Wigland é ameaçado de morte, e deve escolher entre a justiça/verdade/coletivo ou sua família/filhas/individual. Tchan, tchan, tchan, tchan!! Ele escolhe pela verdade !!! Se existe um vilão na história, na minha opinião é a esposa dele, a criatura mais chata do filme. Quando ela finalmente se separa dele, e leva as filhas, vemos como ela é egoísta, e como ele está sozinho contra todos, e como sua opção foi difícil para ele. Ainda assim, acho que ele deveria comemorar, ao invés de lamentar, porque ela é uma mala. Já no começo, quando ele é demitido, ao invés de se lamentar com o marido, ela só pergunta, "e agora, vamos ter que baixar o nosso nível, vender a casa que as nossas filhas nasceram (eta saudosismo provinciano!), romper o seguro de saúde!!". Esse é um truque do roteiro que já a apresenta como materialista e egoísta, antecipando a separação. Logo depois de ser ameaçado de morte, vemos Wigland jogando golfe de madrugada num campo completamente abandonado. Daí obviamente vem um cara que não fala nada, mas faz terrorismo psicológico. Al Pacino, por sua vez, é o jornalista perfeito. Embora o termo seja contraditório por definição, Mann acredita que seja possível fazer as pessoas acreditarem em um jornalista honesto. E ainda por cima trabalhando na televisão. No início do filme, vemos como ele é determinado, indo para Israel, conseguindo uma entrevista difícil, e como ele lida com todos os problemas. A primeira meia-hora de filme só nos apresenta ações sem nenhuma relação com a história, mas apenas para apresentar a moral de seus personagens. Pacino defende a pele de seus informantes mais do que a sua própria. E ainda tem tempo de conversar com a esposa (os filhos estrategicamente não são apresentados). Ele é competente, determinado, corajoso, honesto, íntegro - em uma palavra, perfeito. O miolo do filme mostra como o sistema reage contra as pessoas que querem desmascarar a verdade. Ora, há muita grana envolvida. A própria CBS, a rede de televisão que exibe os 60 minutos, não quer exibir a entrevista de Wigland, porque pode ser processada e perder milhões. A própria polícia invade a casa de Wigland e rapta seus computadores, suspeitam que ele colocou uma tal bala na caixa de correio, etc. Loewell obviamente luta contra a direção do programa, dialoga com jornais, e consegue vencer no final. No fim de toda a história, ele pede demissão. Ele sai, portanto, com sua integridade inabalada. Se O Informante quer destruir a fama da empresas de cigarro, ele o faz para construir uma aura inabalável sobre o jornalismo e a televisão. Não tem problema: ano que vem, a gente faz um filme que fale mal da televisão e mostre um monte de pessoas fumando para esquecer seus problemas. Michael Mann já mostrou em outras oportunidades que é um diretor fraco, mas com mão firme para grandes produções. Ele faz um filme previsível, fraco, mas bastante seguro. Mann deve ser o melhor amigo dos produtores. Em seus filmes, nunca há risco, ele sempre sabe muito bem onde está pisando. Um festival de câmeras frenéticas na mão passando a idéia de caos quer impressionar o espectador para o estilo do diretor. E o pior: isso não acontece em 90 minutos, mas em 3 horas. Esse é o filme que só foi indicado para o Oscar por um grande lobby da imprensa, do jornalismo e da televisão. Só pode ser. De boas intenções o inferno está cheio. Há pelo menos um plano curioso. Num almoço num restaurante japonês, Mann numa breve cena quebra a regra dos 180 graus, atravessando o eixo e filmando numa câmera baixa e estática que lembra Ozu. Marcelo Ikeda. |