A HORA MARCADA |
Apesar de todos os p�ssimos coment�rios sobre o filme, A Hora Marcada n�o � um desastre. Ali�s, est� longe disso. O grande problema do filme � ser fruto de uma proposta de cinema que j� nasce esgotada. No filme, j� uma necessidade assustadora de mostrar as "potencialidades do novo cinema brasileiro", isto �, provar que o cinema brasileiro pode fazer filmes t�o bons quanto os que v�m de fora. Isso, para os realizadores, seria sin�nimo de cinema para atrair o p�blico. Mas n�o percebem que contribuem para seu oposto. Por tr�s da caprichad�ssima produ��o em termos de cinema brasileiro, inclusive com um impressionante widescreen, revela-se quase um pastiche do cinema americano. S�o nas cenas em que um helic�ptero tenta pousar, na persegui��o de carros no meio de um t�nel (seria o Rebou�as?) que se percebe que na verdade n�o h� condi��es de possuir um esquema de produ��o absolutamente americano. A presen�a do fake � indisfar��vel. Percebe-se claramente que o t�nel fora fechado especialmente para as filmagens. O som off das buzinas, criando um caos, at� que disfar�a, mas efetivamente n�o � um recurso perfeito. Mesmo a impressionante fotografia deixa alguns furos em recursos b�sicos, como o foco (especialmente no in�cio) e na profundidade de campo. Conservador no modo de produ��o e no moralismo que preenche o filme, reduzindo as motiva��es dos personagens a recursos estilizados que caem algumas vezes no clich� (o principal deles � quando o personagem de Osmar Prado se torna um homossexual na pris�o e seu motivo de vingan�a est� relacionado � trai��o de sua esposa...), A Hora Marcada � certamente um equ�voco, mas n�o � t�o mais equivocado do que v�rios e v�rios filmes americanos que costumamos ver por a� (i.e o absolutamente mainstream). Em termos de decupagem e de dire��o, o filme n�o chega a comprometer. Bem decupado e montado, destaca-se principalmente a segura dire��o de atores. Os atores em geral est�o muito bem, com destaque para Osmar Prado e (por incr�vel que pare�a) para F�bio Assun��o, no papel de um bandidinho meio pirado. Dada sua proposta, o principal problema � mesmo o roteiro, j� come�ando pelo t�tulo e pelo mote do filme. Anunciar desde o in�cio a morte do personagem principal cria quase um anti-cl�max para o filme. Assim, antecipa-se uma expectativa desnecessariamente. Com isso, o �nico suspense gerado � saber QUANDO o personagem ir� morrer, e nunca SE realmente o fato ir� acontecer. E de fato, o personagem que a princ�pio teria todos os motivos para mat�-lo � justamente aquele que efetivamente ir� faz�-lo. O filme, portanto, j� desde o come�o, explicita sua necessidade de ser moralizante. Desde o come�o, o empres�rio representado por Gracindo Jr � mostrado como oportunista e mesquinho (d� um golpe na empresa, trai a esposa, ignora os filhos, frequenta puteiros (?) ...), e por isso desde o come�o mostra-se que ele vai ser punido. O recurso � quase pat�tico: a morte em pessoa anunciar-lhe-� seu destino. (O curioso � que a mulher � muito p�lida, e a maquiagem n�o se preocupou com o pesco�o, etc., mas somente o rosto...) A melhor parte do filme � sem d�vida a que se passa no interior do cativeiro. Ali, h� alguma preocupa��o psicol�gica, um rigor no enquadramento, um jogo de olhares e de suspense. Curiosamente, � justamente quando os recursos de produ��o s�o mais simples. Mas justamente a� a ilumina��o � muito ruim. Quase teatral, � muito clara, perdendo as ambiguidades especialmente entre luz e sombra que poderiam ser criadas (como num filme noir...). Ainda assim, as situa��es caem em diversos estere�tipos, mesmo o final em que todos acabam mortos e s�o encontrados por uma crian�a. O filme acaba se perdendo, entre o "filme de produ��o" (o come�o no j�quei e a festa) � la Supercine, a aventura, o realismo m�gico (a morte) e o suspense policial. Acaba num meio-termo sem achar nenhuma dessas equa��es. * * *A Hora Marcada nos fornece no entanto algumas li��es �bvias mas que ainda n�o conseguem ser absorvidas. N�o se deve subestimar o poder do p�blico. Um filme para o p�blico n�o deve ser feito com f�rmulas pr�vias e modelos preconcebidos. Um filme brasileiro n�o deve imitar um modo de produ��o alheio para provar que possui condi��es de sobreviver. O cinema brasileiro precisa, antes de tudo, provar para si mesmo que tem uma proposta de cinema. Sem proposta, artificial, perdida entre uma identidade que nunca consegue disfar�ar, A Hora Marcada � um filme sintom�tico de um certo tipo de filmes brasileiros. Envergonhado de si mesmo, refletindo uma total falta de utopias, � um filme que j� nasceu esgotado. Nos raros momentos em que tenta uma linguagem menos did�tica e menos politicamente correta, indo para o "policialesco", o filme at� que convence. Mas � muit�ssimo pouco. Marcelo Ikeda. (25/05/2001) |