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Muito se falou de A História Real como um filme atípico na filmografia de David Lynch. Tantos interpretaram o filme como um simples projeto de encomenda, sem o menor envolvimento do diretor. Muitos estranharam, dado o tom mórbido e doentio de filmes como Veludo Azul e A Estrada Perdida, a presença da gentileza e da tolerância, em torno da simples e comovente história de Alvin Straight, que atravessa um conjunto de cidades para reencontrar seu irmão, bastante doente. Mas ao contrário da covardia, A História Real é um dos projetos mais corajosos de David Lynch, que consolida sua integridade como artista, ao se permitir um interregno que possa funcionar como realimentador de sua capacidade criativa. Antes de mera pausa burocrática e retroativa, o olhar observador e dedicado sobre os personagens marginalizados e o esmero em torno dos elementos de linguagem revelam-se fonte de uma nova investigação nos cursos de seu cinema em torno do tempo e da narrativa. Por trás do tom aparentemente convencional e conciliador de A História Real, o toque do artesão se faz presente como em poucos dos últimos filmes americanos. É preciso observar com atenção que a equipe técnica que participou do filme já havia trabalhado com Lynch em seus projetos "típicos": a trilha sonora de Angelo Badalamenti, o desenho de produção de Jack Fisk, os figurinos de Patricia Norris, a fotografia de Freddie Francis. A contemplativa viagem existencial de Alvin Straight, que possui inúmeras lembranças a Morangos Silvestres, acaba se tornando mais que uma singela e poética história sobre a amizade, o retorno à origem e a busca de novos horizontes, um pequeno estudo sobre o tempo no cinema. Entremeado de longas gruas que percorrem os trigais da região, onde um gigantesco trator arando os campos evita o tom excessivamente bucólico e nostálgico, o filme flui como uma série de "short stories", conferindo um ritmo particular que escapa ao meramente sentimental e panfletário. A presença do fator tempo é intensificada pelo uso simples e eficiente dos elementos de linguagem. A linearidade da narrativa de Lynch, em que o próprio título "straight story" funciona como uma espécie de trocadilho, tendo em vista o próprio nome do protagonista, é acompanhada por uma exuberante fotografia em widescreen, e pela opção dos campos e contracampos, especialmente na cena em que Alvin encontra uma jovem grávida à beira de uma fogueira. O final singelo, que se recusa em apontar alternativas para finalizar de forma simples e objetiva a possibilidade de um diálogo ainda que precário, ratifica com precisão a economia de Lynch para alcançar um efeito dramático contido e expressivo. Entre um e outro elemento de um cinema distante do transgressor, Lynch encontra espaço para ligeiramente registrar suas dúvidas sobre o tom excessivamente simples e realista da história, até mesmo por optar tratá-la quase como uma fábula. É indispensável atentarmos para os créditos iniciais e finais do filme, que caracterizam uma presença da farsa e da encenação, como um típico filme de Lynch. Surge um céu de estrelas caracterizado como num filme de ficção científica, com estrelas que surgem tipicamente como grotescos pontos de luz. Em outra cena de impacto, uma mulher que involuntariamente atropela cervos que cruzam a estrada se pergunta de onde eles podem ter surgido e recebe resposta alguma de um horizonte indiferente. Esta pausa de Lynch coroa sua maturidade como realizador, não temendo por ventura escapar aos estereótipos de seus filmes mais consagrados para, como típico realizador americano, embarcar num projeto menos pessoal mas que ainda assim o permita trabalhar de forma criativa e revigoradora vários elementos de linguagem em torno de uma equipe comum. Ponto para Lynch, que quebra sua imagem de realizador difícil e egocêntrico para abrir seus horizontes como observador das contradições e do modo de vida do homem americano. Marcelo Ikeda (08/03/2002) |