GLADIADOR : UM FILME POLÍTICO |
Se o levarmos a sério, Gladiador é um péssimo filme. É um épico grandioso dirigido de forma burocrática, que tem algumas cenas de batalha estrategicamente arquitetadas, etc e tal. Já pelos primeiros quinze minutos fica mais que claro como a história acabará. Mas o curioso é como nas entrelinhas, Gladiador revela um "sub-texto" extremamente crítico, arguto e irônico. É em alguns trechos que Gladiador se revela uma grande brincadeira. Em primeiro lugar, com as próprias convenções do épico. Gênero nobre, grandiloqüente, o épico quase nunca apresenta senso de humor. É um filme emburrado e pomposo. Ridley Scott em alguns momentos quebra exatamente essa suposta cara do gênero. O caso mais acintoso é quando um dos escravos prova a comida servida a Maximus. Ele engasga e pensamos que a comida estava realmente envenenada. No entanto, alguns segundos depois, ele ri, revelando que fora apenas uma brincadeira. Em outra cena, um escravo negro (o protagonista de Amistad) pergunta a Maximus o que ele teria a dizer para seu filho e esposa. "Para o meu filho, falaria sobre como cavalgar o cavalo, os calcanhares, etc. Para a minha esposa, isso não lhe interessa" São nessas breves piadinhas que Ridley Scott revela que não se pode levar Gladiador a sério. Nessas cenas, ele brinca com a seriedade e a opulência do gênero. Duas coisas esquisitas aparecem no filme. A primeira é o fato de o imperador estar apaixonado por sua própria irmã, colocando uma questão difícil e improvável para um épico em destaque no filme. A segunda é um diálogo esquisitíssimo. O "dono dos escravos" percebe que Maximus está chateado. Pergunta se ele precisa de alguma coisa. "Uma garota?" Maximus recusa. "Um garoto, então?" Piada extremamente indigesta. Cabe aqui lembrar que Gladiador é acima de tudo um filme político. A referência à Roma antiga e toda aquela pompa é claramente um recurso para se falar dos Estados Unidos de hoje. A corrupção, o jogo de poder, o patético de uma classe decadente, a mediocridade dos comandantes, a política externa agressiva enquanto dentro de casa reina a barbaridade, etc etc. Gladiador brinca com os gêneros quando trafega entre um e outro gênero. Quando o filho confessa a Marco Aurélio que faz tudo pelo reconhecimento da pai, o filme se torna um melodrama. O texto tem toda uma referência sub-freudiana rala que se torna quase uma piada. Todo o destino de Roma, a grande potência da época, quase naufraga por causa de um garotinho mimado, que tem problemas de aceitação com o pai, numa interpretação de psicologia de botequim. E Scott sabe disso. O melodrama é afetado e desnecessário. Numa parte do texto, o garoto diz que faria tudo "por uma palavra de carinho do pai, um abraço" (???). O pai responde "oh meu filho, as suas faltas como filho são minha culpa, são reflexos de minhas falhas como pai (????). Etc etc etc. Pode? Em seguida, quando Maximus foge da morte certa e volta para casa, e encontra a família enforcada, o filme se torna um western. Numa cena, Maximus está em seu cavalo, solitário e num meio-termo existencial. Ele é o John Wayne de Rastros de Ódio quando volta para casa e vê a família dizimada e a garota raptada. Mas o que mais espanta em Gladiador é como Ridley Scott fala da alienação do público. Isso é feito de forma quase inacreditável para um filme mainstream e que é o franco favorito para o Oscar de melhor filme. A questão é a seguinte: o imperador leva vantagem sobre o Senado porque o povo está do seu lado. E assim está não porque ele passou a ter melhores condições de vida, etc, mas simplesmente porque o imperador liberou o duelo no Coliseu. Agora o povo vai ver pessoas matando outras, uma grande diversão que estava proibida. No entanto, surge Maximus, o escravo que não morre nunca. O imperador não pode mais matar Maximus porque o povo reagiria. A grande questão é trazer o povo para o seu lado. Ridley Scott brinca com a questão, e de forma espetacular, já que ele está em Hollywood, contratado para realizar um filme insosso. Numa hora, o "dono dos escravos" fala a Maximus que se ele quer ser libertado, ele tem que se lembrar de uma coisa. Em suma, "jogue para a galera". Isto é, só conquistando o público é que ele teria alguma salvação. Sem o apoio do público, nada faria sentido. A alienação do público é apresentada como irreversível. De nada adiantaria mostrar para o público em torno do que estava girando a questão, os problemas políticos, a anarquia do novo imperador. O que o povo do Coliseu queria ver era morte, então matemos. Isso é espetacular porque, por outro lado, o próprio público que está no cinema assistindo ao filme, olha de rabo de olho esta cena e quer que o filme mostre logo o que interessa, isto é, as cenas de batalha. O público no cinema é tão alienado quanto o público no Coliseu. Aquele também ignora as questões que giram em torno do filme de Scott: a crítica à política americana, a questão da alienação do público, a obrigatoriedade de se fazer o que já se foi feito (Gladiador tem a mesma história que Spartacus) e da forma menos criativa possível. O que o público no cinema quer ver é o oba-oba, as cenas de batalha. Assim como no Coliseu, o alienado público quer ver gente morrer, não interessa porquê. Depois vai pra casa, come uma pizza, e fica tudo como antes. Maximus joga pro público, porque não há outra saída. Assim como Scott. O final é curioso. Quando o imperador encontra Maximus na prisão e o esfaqueia, Maximus está acorrentado numa posição que lembra Cristo na Cruz, isto é, prestes a ser sacrificado pelo bem de Roma... O duelo entre o imperador e Maximus é um achado. O clímax do filme revela a necessidade de uma superexplicitação da narrativa própria do cinema contemporâneo americano. Ora, em última instância, o que interessa é o conflito entre o bem e o mal, o mocinho e o bandido, entre Maximus e o imperador. Logo, nada mais lógico que colocá-los frente a frente numa batalha. Para ter igualdade de condições, Maximus começa ferido. Claro, senão seria barbada absoluta. Se Maximus destruiu as bigas que eram tão resistentes que mais pareciam o carro do Batman, imagine o que faria com o viadinho do imperador... Isto faz com que Gladiador seja o mais político dos filmes americanos de 2000. Ele é tão sutil em sua crítica aos Estados Unidos e à indústria de cinema que se torna difícil perceber suas intenções. Mas sempre foi nas entrelinhas que se descobriu o valor de um cinema americano que só sobrevive se vende ingressos. Marcelo Ikeda. (02/02/2001) |