6 - CONCLUSÕES

O cinema de Samuel Fuller é fruto de um tal conjunto de contradições, de extremos dramáticos e descontinuidades tão explícitas que não seria exagero rotular seus filmes de barrocos. O cerne dessa contradição reside na ambígua admiração que o diretor nutre pelos valores e especialmente pelo cinema americanos. Se os filmes de Fuller são independentes e radicais pela violência do submundo urbano, pelo realismo bélico e pela alegoria da destruição, por outro lado, mostram uma visão de mundo apaixonada e grandiosa.

O principal ponto que mostra a admiração de Fuller por suas personagens marginais é a adoção de um código de ética. Mesmo as personagens diretamente inseridas no submundo possuem um código de ética próprio, com regras tácitas que são seguidas mesmo em situações-limite. Em Anjo do Mal, embora Moe venda informações sobre seu amigo Skip para a polícia, ela morre por se recusar a repeti-lo para um agente comunista.

O item dramático desse código de ética é o sacrifício. Como no caso da velha Moe, para defender seu código de ética, em alguns casos, é preciso morrer por um ideal. O sacrifício é uma constante em todos os filmes analisados, o que reflete uma transcendência e um idealismo do diretor.

O amor e a violência são os dois principais pólos dos filmes de Fuller. Em Anjo do Mal, o pickpocket Skip agride Candy, joga cerveja em seu rosto para despertá-la, e menos de dois minutos depois, os dois estão se beijando. Em Dragões da Violência, Sullivan atira em sua amada (Stanwich) como prova de seu amor, certo que o tiro não seria fatal.

O cinema de Fuller é em suma uma tentativa de um equilíbrio precário entre o materialismo e o idealismo. O filme que melhor mostra essa combinação é A Dama de Preto. No filme, o jornalismo é utilizado como uma metáfora clara para o próprio cinema. Embora Mitchell seja um sonhador que quer quebrar o reinado superficial e hipócrita do jornal Star construindo seu próprio jornal, ele não ignora as regras materiais do jogo, o domínio de poder, as estratégias de mercado e sua prática como jornalista. Na estética, o conflito de Fuller também ocorre entre o long take e a montagem acelerada, entre o plano-sequência e a montagem fragmentada.

Marcelo Ikeda.

Hosted by www.Geocities.ws

1