5 - ENTRE O IDEALISMO E O MATERIALISMO: O CASO METALING��STICO DE PARK ROW |
Nas se��es anteriores vimos como o cinema de Fuller � repleto de contradi��es e contrastes. Por um lado, Fuller admira os valores do cinema americano; por outro, seus filmes s�o tipicamente obras autorais, que mostram marginais que n�o se encaixam no American way of life. Essas contradi��es podem ser entendidas atrav�s de uma outra polaridade: o materialismo e o idealismo. Se os filmes de Fuller mostram pessoas mesquinhas, utilitaristas e ego�stas, o respeito ao c�digo de �tica revela um certo idealismo, al�m da admira��o do cineasta pelas regras pr�prias do submundo. J� dissemos como o estilo de c�mera de Fuller muitas vezes refor�a a corporalidade dos personagens. O claustrof�bico assalto no interior do trem no in�cio de Anjo do Mal e as sinistras aproxima��es da c�mera em close s�o dois bons exemplos. Entretanto, a no��o de sacrif�cio relativiza o car�ter utilitarista de seu cinema. Se por um lado h� a necessidade e a busca por dinheiro (Anjo do Mal, Tormenta Sobre os Mares), bases materiais (A Dama de Preto) ou de poder/comando como forma de exaltar seus personagens (Drag�es da Viol�ncia, Baionetas Caladas), no final h� sempre um ideal que supera essas condi��es. Se a longa exposi��o das caracter�sticas de um c�digo de �tica e da no��o de sacrif�cio parecem refor�ar o idealismo do diretor, deve-se ressaltar que Fuller tem quase uma obsess�o pela viol�ncia. Como vimos j� na se��o sobre o sacrif�cio, o mal, a viol�ncia � uma parte inevit�vel do mundo. A viol�ncia � uma necessidade para Fuller, que expressa praticamente um desejo de liberta��o. Drag�es da Viol�ncia faz uma observa��o curiosa sobre o papel da viol�ncia nos filmes de Fuller. Quando Brockie invade a pacata cidade, ele diz "vamos nos divertir", e come�a a provocar desordens como uma esp�cie de viol�ncia ao equil�brio comum da cidade. E certamente Fuller n�o gosta de situa��es comuns. Pelo contr�rio, seu desejo � de situa��es-limite, extremos, contrastes expl�citos e a��o. Quando Brockie come�a a destruir as lojas, provocando amea�as e zombando do delegado, na verdade ele representa o pr�prio esp�rito do cinema de Fuller. De fato, s�o nessas cenas em que o diretor se sente mais � vontade. O cinema de Fuller � um cinema visceral, pouco racional porque usa a supremacia do instinto sobre a raz�o. Vimos como Mitchell em A Dama de Preto perde a raz�o e, seguindo seus instintos, resolve dar o troco � viol�ncia do Star na mesma moeda. No fundo, o cinema de Fuller promove uma ponte entre o materialismo e o idealismo, como parte do cinema amb�guo e de contrastes pr�prio do cineasta. Em Tormenta Sobre os Mares, o materialismo e o idealismo est�o claramente representados na figura dos dois personagens. De um lado, Widmark � o "oficial que n�o aceita ordens", que embarca na miss�o apenas pelo dinheiro. De outro, o Dr. Montel � um famoso cientista e professor, que aceita a miss�o por puro idealismo, para combater as injusti�as e descobrir os planos dos inimigos dos Estados Unidos. Na se��o 2, j� mostramos o choque desses conceitos quando Widmark se surpreende quando informado que seu colega morreu numa expedi��o trabalhando de gra�a. Ainda que o materialismo e o idealismo sejam dois conceitos opostos, vimos que Widmark e o dr. Montel conseguem embarcar juntos numa expedi��o porque eles respeitam um c�digo de �tica. O cinema de Fuller mostra, portanto, que � poss�vel uma liga��o entre dois conceitos aparentemente opostos. Mas o filme em que Fuller melhor apresenta as amb�guas rela��es entre idealismo e materialismo � A Dama de Preto. O fant�stico do filme � que ele usa o mundo jornal�stico como uma met�fora para o pr�prio cinema. Da� Park Row � claramente metaling�istico: al�m de falar sobre o pr�prio cinema, ele tece considera��es fundamentais sobre a vis�o de Fuller do seu pr�prio cinema. Portanto, se no in�cio do filme, Fuller diz que o filme � dedicado � mem�ria do jornalismo americano, na verdade, por sua met�fora, entende-se que o filme � de fato dedicado ao cinema americano. J� vimos que Fuller nutre uma profunda admira��o pelos valores tradicionais da sociedade americana, e que isso � refletido pela admira��o de Fuller aos pr�prios princ�pios do mainstream hollywoodiano. Phineas Mitchell � um jornalista idealista que acha que o jornalismo do seu tempo deve ser regido com a mesma lisura de �dolos como Benjamin Franklin e Horace Greeley. No in�cio do filme, Fuller mostra as est�tuas dos dois �dolos na pra�a no centro de Park Row. Ao lado de uma delas, v�-se Mitchell, lendo um jornal. A associa��o de id�ias � mais que evidente. O tom idealista, a inspira��o nas est�tuas de antigos �dolos como um exemplo a ser seguido para a profiss�o dos dias atuais lembra enormemente A Mulher Faz o Homem, de Frank Capra. Na se��o anterior, j� citamos que os dois filmes t�m em comum o fato de mostrar a corrup��o e o jogo desleal das institui��es americanas. Mas a maior semelhan�a entre os dois filmes � que eles mostram um indiv�duo que acredita ser poss�vel transcender esse sistema prec�rio. Provavelmente, Fuller deveria odiar o "Capracorn", o moralismo excessivo e o tom de f�bula que exalta o American way of life, t�picos do diretor. Mas � ineg�vel que, assim como Capra, Fuller nutre uma grande admira��o pelos grandes valores pregados pelo modo de vida americano. E � isso o que Fuller utiliza de A Mulher Faz o Homem. Mas a diferen�a entre os dois cineastas pode ser vista pela caracteriza��o do idealista. Mr. Smith � completamente ing�nuo. Ele, por exemplo, desconhece completamente os tr�mites legais de um processo no Senado. Ele se baseia apenas em id�ias. J� Mitchell tem uma vertente claramente mais materialista. Ele conhece exatamente bem o seu of�cio. Sabe o tipo de tinta, os tipos utilizados, as pessoas quem ele deve contratar, os sal�rios a serem pagos, e a estrat�gia a ser utilizada pelo jornal. Mitchell sugere que a mat�ria-prima do jornal seja papel de segunda linha, utilizado como embrulho em a�ougues ou sapatarias. Enquanto o idealista de Capra ignora o aspecto material e concreto de sua profiss�o, Fuller sabe que sem o dom�nio dessa inst�ncia, a realiza��o dos ideais � imposs�vel. Uma das raz�es do poderio do Star � o controle dos meios econ�micos, como as fontes de fornecimento e de distribui��o. Mitchell busca outras alternativas para, com menos recursos, concorrer com o poderoso jornal. Enquanto Capra acha que apenas id�ias mudariam o mundo, Fuller mostra a necessidade do controle dos aspetos materiais como meio indispens�vel para se atingir seus ideais. Isso mostra a ponte entre o materialismo e o idealismo. Exatamente da� surge a admira��o de Fuller pelo cinema americano. O mainstream conseguiu, atrav�s da conquista e controle dos meios de produ��o, obter seu espa�o pr�prio que permitiu que um maior n�mero de filmes de qualidade fosse criado, realizando os ideais do sonho americano de progresso. Durante todo o filme, Fuller mostra o lado bom e ruim do cinema americano, e apresenta como � poss�vel um cinema alternativo como o dele pr�prio surgir em contraposi��o a esse tipo de cinema. Se de fato Fuller admira o poder e o charme do cinema americano, ele certamente n�o admira a forma como esse cinema se apresenta. O cinema de Fuller � at�pico em rela��o ao que se usualmente se espera de um filme americano. Suas descontinuidades, sua an�lise do submundo, seus at�picos movimentos de c�mera, mostram que os filmes de Fuller s�o indiscutivelmente um produto autoral. Na met�fora jornalismo-cinema, Charity e seu jornal Star representam o cinema mainstream americano, e Mitchell e seu jornal Globe representam um cinema mais autoral, alternativo ao padr�o do cinema maistream. Um dado curioso � o pr�prio nome dos jornais. Star lembra um dos principais pilares do cinema mainstream: o star system. J� Globe ressalta uma tentativa de um projeto verdadeiramente universal, em contraposi��o ao dom�nio hollywoodiano. Desde o in�cio, percebemos que o projeto de Mitchell para o Globe n�o � exclusivamente idealista, isto �, n�o � um idealismo puro como o Mr. Smith do filme de Capra. No bar, Mitchell se lamenta da situa��o do Star, e retruca, "se eu tivesse o meu jornal...". Entretanto, tendo as condi��es materiais para fazer o seu jornal, rapidamente Mitchell oferece sua receita. Ele pensa em dar ceias de natal para os pobres. Com isso, ele atrairia curiosos, divulgaria o nome do jornal e atrairia anunciantes. V�-se claramente que Mitchell n�o quer oferecer as cestas apenas para ajudar os pobres, mas ele tem um objetivo claramente definido, at� mesmo utilitarista. Quando Mitchell organiza o jornal independente, que quer se opor ao poder institucionalizado do Star, Fuller nos mostra as fun��es no jornal com refer�ncias claras �s pr�prias fun��es fundamentais necess�rias para a realiza��o de um filme. Mr. Leach � o produtor. Nas suas palavras, ele "viabiliza sonhos de pessoas de vis�o". Leach tamb�m tem um sonho parecido com Mitchell. Ele possui uma gr�fica, que representa o capital que Mitchell n�o possui. Mas ele n�o possui a vis�o de Mitchell. De fato, Leach j� tentara anteriormente publicar um jornal, mas fracassara. Mitchell tem a vis�o, o talento; Leach, os meios materiais necess�rios para a concretiza��o desse talento. Ambos t�m objetivos em comum. Essa � a fun��o que une diretor e produtor. Outro coment�rio sobre a dist�ncia do idealismo puro que caracteriza a postura de Mitchell � quando ele oferece um sal�rio a um antigo colega do Star, que tamb�m fora demitido. Antriormente, Mitchell dissera que um jornalista como ele mereceria $36 por semana. Mas quando Mitchell de fato tem seu jornal, s� o paga $15 por semana. Na estrat�gia de forma��o da sua equipe, Fuller deixa claro que � necess�rio unir a experi�ncia e a juventude. O jornal � portanto um meio-termo entre o passado e o futuro. Ele n�o ignora o passado, mas continua de olhos abertos para o futuro. Mitchell faz quest�o de contar com a experi�ncia e os conselhos de Davenport, e contrata o ajudante Rusty, mesmo n�o sabendo nada, mas empolgado com seu entusiasmo. Mitchell supera as dificuldades econ�micas com criatividade. Sem dinheiro para comprar um papel de primeira linha, ele procura por papel de embrulho em a�ougues. Na pequena gr�fica, percebemos a fun��o quase neur�tica do diretor-editor Mitchell, que deve se preocupar com todos os detalhes. Al�m de diagramar o jornal, escolher as mat�rias e conversar com os rep�rteres, Mitchell tamb�m escreve mat�rias, e assessora toda a parte t�cnica de impress�o do jornal. Al�m de sugerir a compra de papel, ele acompanha surpreendido a velocidade de Angelo em compor os tipos, embora ele n�o saiba ler. Inicialmente Mitchell tem um preconceito contra Angelo, talvez por ele n�o ser americano, mas a compet�ncia de seu trabalho faz Mitchell refazer suas impress�es iniciais. Mitchell pergunta a Davenport porque ele nunca se tornou um editor, com toda a sua experi�ncia. Davenport, como rep�rter, faz a fun��o de um roteirista. � ele quem colhe as informa��es que ser�o mostradas no jornal. Davenport argumenta que h� editores natos e rep�rteres natos. Ele nasceu para ir atr�s das hist�rias, porque no fundo � isso o que atrai as pessoas a comprarem o jornal. De fato, as pessoas se interessam em assistir a um filme em primeiro lugar por um bom roteiro. Num ramo como o cinema, que emprega alta tecnologia, o progresso t�cnico ocupa um papel fundamental. Por isso, � fundamental estar a par e investir em novos projetos que possam suprir eventuais dificuldades t�cnicas. Atrav�s da conquista desse progresso � que os pequenos filmes podem diminuir o gap que os separa do poder dos grandes est�dios. O inventor Morgenthaler est� fabricando uma m�quina que componha os tipos n�o mais manualmente, mas como se fosse uma m�quina de escrever. Mitchell sabe a import�ncia da inven��o para a melhoria da qualidade t�cnica do jornal, e d� todo o apoio ao inventor. Da� Fuller faz duas considera��es fundamentais. De um lado, o inventor � um cientista pouco interessado no jornal em si, mas interessado apenas em sua inven��o, e na possibilidade de ela vir a contribuir para o avan�o do jornalismo. Mas ainda assim, ele recusa a oferta de Charity, mesmo com a oferta de melhores condi��es para o aperfei�oamento de sua inven��o. De outro, o progresso t�cnico � poupador de m�o-de-obra. O eficient�ssimo Angelo mostra-se preocupado com a nova inven��o, porque sabe que sua fun��o ser� in�til ap�s a finaliza��o da m�quina. A primeira capa do Globe, desenhada no bar, � na verdade a descri��o do primeiro roteiro. Entregando Steve � pol�cia, na verdade Mitchell o est� salvando e ao seu jornal. Na primeira reportagem, o Globe mostra Steve como um her�i injustamente preso pela pol�cia. Na segunda, o jornal mostra a liberta��o de Steve e a comemora��o do novo her�i nos bra�os do povo. Steve consegue realizar seu sonho, que � ser famoso e aparecer nas capas de um jornal. Como vemos, essa primeira reportagem � pouco idealista e pode at� ser acusada de ter o tom de fofoca que caracteriza o pr�prio Star. Davenport ressalta a Mitchell que a reportagem de Steve est� sendo t�o sensacionalista quanto as reportagens do Star, e que seria preciso voltar-se para assuntos mais s�rios. Entretanto, a diferen�a � que a reportagem do Globe est� mais pr�xima do povo, mostrando assuntos e acontecimentos simples com os quais ele se identifica. Isso � bem diferente da postura elitista do Star. Na verdade, essa � uma cr�tica ao pr�prio elitismo do cinema mainstream. O cinema independente, segundo Fuller, deve mostrar temas que portanto sejam mais ligados ao ambiente popular, e n�o uma forma de escapismo desses problemas. Para poder concorrer com Charity, Mitchell sabe que deve fazer algumas pequenas trapa�as. Isso refor�a o car�ter materialista de Mitchell em oposi��o ao idealismo puro. Mitchell lan�a v�rias edi��es de seu jornal por dia, e em cada edi��o, ele s� troca a primeira p�gina, o que lhe poupa tempo e custos. Fuller sugere que podem ser lan�ados v�rios filmes num mesmo ano, e que o diretor n�o deve procurar mudar completamente o eixo de produ��o de filmes, mas deve aproveitar suas semelhan�as para reduzir tempo e custos. O jornal de Mitchell � portanto uma tentativa de fazer um jornal que mostre not�cias mais vinculadas com a realidade do povo, que recusa um escapismo de uma est�tica sensacionalista e fofoqueira, num elitismo escapista que est� distante do povo. As roupas de Charity e a decora��o de seu escrit�rio mostram seu estilo s�brio, mas elegante e elitista. As roupas e o escrit�rio improvisado de Mitchell, onde somente a parte de contas a pagar est� sempre lotadas, mostram sua diferen�a de postura. De fato, � uma cr�tica de Fuller ao elitismo do cinema mainstream, aos blockbusters magal�manos, ou �s bobocas com�dias superficiais, elegantes, refinadas e escapistas. Mas por outro lado, Mitchell admira o charme, a eleg�ncia e o poder de Charity. Ele admira a forma particular como Charity conseguiu consolidar o poder de seu jornal, e admira sua beleza, embora n�o concorde com sua no��o de jornalismo. Ao ser perguntado por Davenport como escreveria o obitu�rio de Charity, Mitchell responde: "Ela era cruel e ambiciosa, mas sua beleza era como um almanaque, que perdurou at� sua morte. Seu rosto era melhor que todas as cartas de recomenda��o do mundo. Sua pose, um privil�gio da natureza. Sua voz, uma breve sonata." Essa � uma clara declara��o de amor ao cinema mainstream americano. Infelizmente, Charity e Mitchell est�o de lados opostos, mas no fundo, eles possuem muita coisa em comum: o amor pelo jornalismo e a ambi��o de um ideal. Todo o cinema de Fuller deve ser analisado � luz de suas amb�guas rela��es com o cinema mainstream, da mesma forma como � amb�gua a rela��o de Mitchell com Charity. Outro ponto crucial abordado por Mitchell � que desde o come�o Charity d� sinais de que pretende uma "fus�o" com Mitchell. Na verdade, a id�ia de Charity � absorver o talento de Mitchell, atraindo-o com seu poder econ�mico. Charity diz que seu casaco de peles basta para comprar v�rias toneladas de papel. De fato, quando um cineasta independente consegue uma certa proje��o, surgem v�rios convites do mainstream para trabalhos, e o cineasta acaba sendo absorvido pelo modo de produ��o do mainstream. Seu ideal inicial acaba naufragando pela possibilidade de sucesso r�pido. Mitchell poderia se tornar um editor de destaque num jornal de grande proje��o, "de tinta e papel de primeira". O cinema mainstream consegue habilmente absorver e sufocar a liberdade criativa desses cineastas independentes. De fato, o cinema hollywoodiano possui uma incr�vel capacidade de se modificar para que sua es�ncia continue a mesma. A ironia da fus�o, que na verdade � uma forma de absor��o, � utilizada com os nomes dos jornais. Charity prop�e que o jornal se chame Star Globe. Em seu escrit�rio, Charity simplesmente recorta uma tira com o nome "Globe" e a coloca ao lado do t�tulo de seu jornal. Isso indica que sua id�ia era apenas mudar o t�tulo do jornal, j� que nessa colagem o corpo do jornal continuou sem altera��es. Mitchell recusa a porposta, exigindo que o jornal se chame The Globe. Nesse instante, quando os dois se beijam, um leve movimento de c�mera nos faz perceber em primeiro plano a exit�ncia de um estrado de madeira que funciona como uma pris�o para os dois editores. Mitchell estaria preso por uma armadilha do destino. Logo em seguida, o filme tem uma brutal descontinuidade. Nessa primeira parte, Mitchell tem sido bem-sucedido, e o Globe progressivamente vai conquistando espa�o do Star. Mitchell parece estar perto de realizar seu ideal de um novo jornalismo. Mas nesse ponto, Fuller mostra sua op��o em evitar o discurso idealista e ing�nuo. Obviamente, o Star n�o esperar� passivo a conquista do seu mercado. O Star come�a a utilizar recursos desonestos, com a ado��o de uma pol�tica predat�ria para destruir o pequeno mas j� influente Globe. O Star resolve utilizar sua for�a f�sica. Para isso, utiliza-se de tr�s m�todos. Em primeiro lugar, tenta acabar com as fontes de fornecimento do Globe. Os capangas do Star destroem as bancas e a distribui��o do Globe, jogam os carros com o papel e as tintas no mar, inclusive agredindo e ferindo funcion�rios do Globe. Segundo, s�o fornecidos recibos falsos para o fundo da est�tua, o que causa uma revolta de toda a popula��o. Para construir uma est�tua que seria oferecida de presente � Fran�a, o Globe resolveu coletar as contribui��es volunt�rias de pessoas que receberiam um recibo e teriam seu nome publicados no jornal. Com a emiss�o de recibos falsos e a n�o-publica��o dos nomes no jornal, houve as suspeitas fundadas de que o Globe estaria se aproveitando do patriotismo das pesoas para extorquir-lhes dinheiro, que ficaria com os donos os pr�prio jornal. Terceiro, bombas s�o jogadas no escrit�rio e na gr�fica do Globe, destruindo suas m�quinas e impossibilitando sua produ��o. O Globe se v� muito pequeno para tentar reverter a pol�tica agressiva e suja do Star. Mesmo conseguindo provar as cal�nias contra o fundo da est�tua, capturando os falsificadores e descobrindo que eles est�o a mando do Star, a gr�fica e as mat�rias-primas est�o todas destru�das. Fuller mostra a dificuldade em se lutar contra um agente poderoso como o cinema mainstream norte-americano. De outro lado, a viol�ncia da rea��o do Star � t�pica dos instintivos filmes de Fuller. � nesse ponto que o filme ganha um forte vigor dram�tico, em que Fuller mostra realmente o submundo e o jogo sujo do jornalismo. Em contraposi��o a Capra, Fuller mostra que � quase imposs�vel atingir os ideais lutando contra um inimigo t�o poderoso. Destru�da a gr�fica, Mitchell, desiludido, recosta-se sobre a sua mesa de trabalho, com a certeza de que a luta terminara. Ele adormece. A Dama de Preto poderia tranq�ilamente acabar a�. Mas como todo filme americano (e Fuller deve inevitavelmente satisfa��es a seus produtores!) o filme deve acabar com um final feliz. A descontinuidade � t�o absurda que o efeito � simplesmente ir�nico. Os funcion�rios do Globe acordam Mitchell e mostram uma edi��o nova do jornal. Mitchell se revela surpreendido, e surge Charity dizendo que ao ler o obitu�rio de Davenport, ela percebera o quanto estava errada, e que concordava em dar o jornal para que Mitchell fosse o editor. A descontinuidade do final lembra o estilo de A �ltima Gargalhada, em que o filme n�o acaba com o porteiro desfalecido no ch�o do banheiro mas opta, depois do �nico intert�tulo de todo o filme, em conceder-lhe uma fortuna. Mitchell tamb�m recebe uma fortuna no final de A Dama de Preto. Curiosamente, Fuller sugere que a seq��ncia possa ser interpretada como um sonho. De fato, Mitchell adormece, e o som � utilizado tipicamente como um elemento on�rico. Nos seus sonhos, seus ideais se realizam, e o filme pode acabar assim. Mas de qualquer forma, o final feliz � uma grande ironia, porque sabemos que na vida real os mais poderosos sempre ganham dos mais bem-intencionados. Por fim, cabe destacar que o obitu�rio de Davenport resume o papel do cinema. "A imprensa pode ser boa ou ruim, dependendo do car�ter de quem a dirige". � incr�vel como Fuller faz uma cr�tica sutil ao cinema mainstream americano, seu poder, e como ele esmaga ou absorve quaisquer alternativas que ameacem seu reinado. Ao mesmo tempo, percebe-se que Fuller admira esse cinema, mas por outros motivos. Novamente, o ponto fundamental em se dizer se um tipo de cinema � bom ou n�o � o seu car�ter. O c�digo de �tica � o ponto forte da filmografia de Fuller. |
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