III - SACRIFÍCIO

Nos filmes de Fuller, a violência não ataca apenas os que violam o código de ética, mas acabam ferindo ou mesmo matando pessoas dignas. O Mal e a Injustiça fazem parte do nosso mundo, e as pessoas que violam um código de ética podem destruir pessoas sensatas. A partir desse sacrifício é que as bases para a correção das injustiças podem ser feitas. De fato, em todo o filme de Fuller o sacrifício é visto como uma redenção.

Em Anjo do Mal, Candy apanha cruelmente e recebe um tiro do agente comunista ao tentar enconder-lhe o endereço de Widmark. Existe sacrifício, porque ocorre justamente quando Candy se dispõe a ajudar a polícia a capturar o agente comunista. Em Baionetas Caladas, para que Denno superasse seu trauma e vingasse o pelotão, houve a morte de três militares superiores. O Tenente foi morto na entrada da caverna. Lonegan, ao tentar resgatar Linguarudo. Por fim, o sargento Rock morreu com o ricochete da bala no interior da caverna. Em A Dama de Preto, há a morte de Davenport, um repórter idoso que abandona a vida com a sensação do dever cumprido, ao ver a segurança dos ideais de Mitchell. Em Dragões da Violência, além dos claros sacrifícios de Sullivan e Stanwich, negando seu antigo modo de vida para ter uma vida mais tranquila e menos solitária, há o tiro do irmão de Stanwich no inofensivo delegado míope. Em Tormenta Sobre os Mares, o Dr. Montel sacrifica sua vida para combater a farsa da estratégia japonesa. Todos os sacrifícios foram uma espécie de "mal necessário" para que um objetivo maior pudesse ser atingido. Mesmo com a morte dos envolvidos, há a sensação do dever cumprido como consolidação do código de ética, e daí uma transcendência que nos remete a uma noção de espiritualidade.

No entanto, essas pessoas estavam diretamente envolvidas no conflito principal. Candy estava desde o início envolvida, com o desaparecimento de sua bolsa e suas relações com o agente comunista. Os três militares superiores a Denno mortos estavam no front de batalha, e portanto teoricamente prontos para morrer. Stanwich optou pela fragmentação do seu grupo, abandonando seus vínculos com o poder.

Por outro lado, em todos os filmes analisados, há uma outra espécie de sacrifício, ainda mais radical que os sacrifícios anteriores. Esse sacrifício envolve a morte (sempre a morte, e não apenas um ferimento) de pessoas envolvidas apenas indiretamente ou mesmo por acaso com o conflito principal. Nesses casos, a morte é quase um acidente. A morte dessa pessoa não é necessária ou indispensável, mas surge apenas como uma manifestação inevitável do mal. No caso anterior, o sacrifício é uma redenção porque é uma escolha voluntária, surgindo como um meio inevitável para se atingir um objetivo coletivo, superior ao sacrifício individual. Nesse caso, no entanto, há o sacrifício de pessoas inocentes, apenas à margem do conflito principal.

Em Anjo do Mal, é a morte da velha Moe. O agente comunista a mata sem nenhum fim específico, mas apenas pelo prazer e pela irritação ao não ter uma intenção satisfeita. Do ponto de vista de Moe, envolvida indiretamente no conflito, ela poderia tranquilamente informar ao agente comunista sem se comprometer. Sua morte foi redentora, porque mantenedora de seu código de ética.

Em Baionetas Caladas, o sacrifício foi da própria retaguarda. Era preciso escolher um grupo para morrer, "48 homens que pudessem dar esperança a 15 mil". Mesmo sem ter praticado nenhuma ação prévia que os condenasse, os membros da retaguarda foram escolhidos para o sacrifício direto. A escolha dos membros não pôde ser baseada em nenhum critério de merecimento. Isto é, não foram os homens ruins para o sacrifício, mas uma escolha aleatória. Por isso, é comovente o contato monossilábico na despedida dos desafortunados membros da retaguarda, que se separavam do corpo principal do regimento. Inertes, conformados, pensativos, os membros da retaguarda observam seus antigos companheiros desaparecendo na neve, passando por eles, e trocando olhares de lamento e pesar.

Em A Dama de Preto, o sacrifício foi do ajudante Rusty. Ao jovem ajudante, embora esforçado e empolgado com seu novo trabalho, não lhe foi oferecida uma chance de futuro. Seu sacrifício é cruel porque, além de sua idade prematura, seu poder de decisão nas estratégias do jornal é irrelevante. Rusty estava completamente distante e ausente do conflito entre Mitchell e Charity, entre The Globe e The Star. Era apenas um simples ajudante, e seu atropelamento praticamente é irrelevante, um mero acidente.

Em Dragões da Violência, a morte foi de Wes, que morreu nos braços da esposa quando acabavam de se casar, o que acentua incrivelmente a tragicidade de sua morte. Vemos no filme como Wes quer mudar de vida, casar-se com uma pessoa boa, e viver sem ser incomodado, como um simples cidadão de bem. Sua intenção era tornar-se delegado, uma função digna e vinculada com a ordem e os bons costumes. Wes morreu por um acidente, já que a intenção era matar Sullivan, que havia acabado de se despedir da noiva. Apesar de suas boas atitudes, Wes foi surpreendido por uma pessoa que viola um código de ética, atirando escondido e pelas costas.

Em Tormenta Sobre os Mares, a morte foi de Chin Lee, para obter informações do prisioneiro oriental. Em pricípio, para enganar o prisioneiro, Chin Lee teve que levar socos de Widmark até que seu rosto estivesse suficientemente judiado. Quando posto na cela junto com o prisioneiro, a Dra. Gerard pelo rádio conseguiu capturar as informações que revelavam o plano desonesto dos inimigos. Mas com uma pergunta Chin Lee foi desmascarado e agredido até a morte.

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